About my Blog

Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Mudei-me

Mudei para...

www.inquietudes.com.br

Espero você lá :)


sábado, 11 de julho de 2015

Encerramento do blog


Hoje é meu aniversário. Iniciei esse blog há quase 5 anos, se não me engano, em outubro de 2010. Muitas águas rolaram... Quem iniciou esse cantinho, cheio de pérolas de autodescoberta, reflexões e profundidades era um outro eu. Espero ter mantido algumas características dele, e lapidado as piores. Porém, eu realmente não sei. Foram quase 5 anos muito intensos. Não só em relação ao blog, mas na minha vida. Todavia, sinto que chegou a hora de que o que eu penso, sinto, sou, não caber mais aqui, nesse espaço.
Sou muito grata a todos que passaram e contribuíram ao blog, de alguma forma, nesses 5 anos. Sou grata pelos comentários (mesmo os ofensivos e críticos, pois também me ensinaram algo), pelas pessoas que conheci através daqui, pelas que homenageei em meus textos... Aliás, falar de pessoas é essencial. De forma indireta, o blog também sempre foi sobre elas. As que me decepcionaram e as que me fizeram sorrir em algum momento. Sou grata por cada uma. Todas me ensinaram. Todas deixaram pedacinhos de vivências comigo. Acho mesmo que sou grata por cada sorriso e por cada lágrima que desabafei nos textos do meu blog. Foi dando a ele esse nome tão incomum, Para Sempre ou Nunca, que descobri que nada é assim tão definitivo na vida. Nem para sempre. Nem nunca. Tudo ao tempo certo.
A partir de agora não escreverei mais nesse espaço... E pode ser que eu apareça para responder comentários nos primeiros tempos... Apesar disso, não descarto a ideia de criar algum outro cantinho, com outras ideias, dessa outra Kelly... e, nesse caso, farei questão de divulgar por aqui, de alguma forma. É importante ressaltar que o Para Sempre ou Nunca não ficará abandonado, não sairá do ar... Apenas, não terá mais postagens. E que, mesmo isso, pode ser temporário, já que eu estou mudando todos os dias. Porém, o mais provável é que ele permaneça encerrado, como uma fase, um ciclo, muito bonito, pelo qual tive de passar. Agora, viverei novas coisas. Soprarei em novos ares. E quero guardar um pouco dessa beleza (ou dessa forma de vê-la) só pra mim também. Como é do artista compartilhar vivências, certamente eu vou acabar dando o meu ar da graça em um outro espaço, em algum momento... Mas, por hora, os deixarei órfãos de minhas palavras.

E é isso. Assim se encerra o blog. (Assim se encerra o blog? Pois é, tem coisas na vida que não têm emoção). Muito obrigada a todos os que fizeram, de alguma forma, parte dele também. 

Uma espécie de oração


 Acordei com o coração em frangalhos. Ah, Pai, eu não devia ter desertado da vida naquela ocasião. Eu era um rapaz tão lindo...
Não posso esquecer aqueles olhos azuis. Não posso esquecer aquele eu de outra época, com o coração a soluçar sua dor aos 17 anos. Eu me tranquei naquela sala. Eu vi a porta branca se fechando. Eu meditei sobre o que ia fazer durante horas. A dor era límpida e profunda. Hoje eu acordei sentindo toda a dor dele de novo. Mas, foi diferente. Pela primeira vez em todos esses anos, me arrependi de ter feito aquilo. Aqueles olhos marejados tocaram a mim mesmo. Consegui me ver de fora... Para compreender a insanidade do que estava fazendo.
Quando essas lembranças me assombravam na adolescência, minha compreensão sobre o porquê do meu suicídio naquela vida eram pouco claras. Agora, embora ainda não tenha certeza do que me levou a tirar a própria vida, eu tenho ciência de que era um menino incompreendido e triste. E que trouxe um pouco daquela poesia comigo.
Essa manhã eu orei pela sua alma. Pela minha alma. Eu vi seu rosto tão claramente (meu rosto), e desejei, pela primeira vez em muitos anos, não ter cometido aquele ato desesperado. Hoje tudo seria diferente. Mas, eu fiz isso. “Nós” fizemos isso. E a sua lembrança agora é um impulso a superar toda adversidade sem desistir, jamais, de mim.
Agradeço a Deus a oportunidade de lembrar esse fato de uma vida pretérita. É que sei que, agora, posso fazer tudo diferente.

sábado, 27 de junho de 2015

Suficiência?

Foto própria

Entre livros de filósofos, lápis sendo mordido distraidamente e brigando com o sono, o bloco de anotações se abre sozinho sobre a cama, em um de meus movimentos. Lá largado, esquecido e abandonado; é quando levanto os olhos de minha leitura um instante e deparo com a frase, escrita não sei quando, citada não sei por quem:

Você nunca saberá o que é suficiente se não se permitir saber o que é mais que suficiente.
– William Blake –

Permitir saber. Poderia desmembrar a oração inteira e não encontraria mais que perguntas para as minhas respostas. Tão bem propostas e elaboradas.
Enquanto isso, no livro ao lado, era Hannah Arendt quem me aconselhava:

As percepções sensoriais são ilusões, diz o espírito; elas mudam segundo as condições de nosso corpo; doce, amargo, cor, e assim por diante, existem somente nomo, por convenção dentre os homens, e não physei, segundo a verdadeira natureza das aparências. Ao que os sentidos respondem: “Espírito Infeliz! Tu nos derrotas enquanto de nós obténs a tua evidência [pisteis, tudo em que se pode confiar]? Nossa derrota será a tua ruína.

[...] Nesses termos, nada mais parece fazer muito sentido [...]


*(ARENDT, H. A Vida do Espírito. O Pensar, O Querer, O Julgar. p.11).

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Momentos com estranhos


Quem nunca? Não conhece, nunca viu, e vive algo inesquecível com a pessoa? Ou é uma coisa que ela te faz. Ou algo que ela te diz. É isso o que mais me fascina no contato humano. Essas espontaneidades e desvarios, quase impossibilidades no mundo louco que vivemos.
Hoje tive meu “momento jackass”. Um mineiro arretado que conheci apenas ontem fazendo um freela de fotografia na universidade. Me tirou pra psicóloga, me contou a vida, porém não havia lembrado de perguntar o meu nome. Hoje, dia corrido, muito aluno novo para fotografar, nem o vi direito. Mas, ao fim do expediente, havia um carrinho de supermercado no corredor do prédio, esperando para levar algum material de informática pelas rampas acima, enquanto as ilhas de matrículas eram desmontadas. Assim que me desarmo da câmera, ele me cerca com o carrinho.
- Entra nesse carrinho para eu te empurrar pelo corredor.
Olhei pra ele com vontade de rir. Descrédito e dúvida, claro, no semblante.
- Entra. To com muita vontade de fazer isso.
Ele segurou o carrinho e entrei. Sentei como fazia quando tinha uns quatro anos e começamos a aventura. Foi engraçado, porque tinha uma pequena plateia, formada pelos colegas de serviço nas matrículas dos bixos. E foi muuuiiito legal...! Quem diria, um cara que nunca vi na vida me empurrando em um carrinho de supermercado no corredor do prédio da universidade...?! Quando fez a curva, ele girou depressa, tipo brinquedo de parque de diversões.
- Só não gostei que na segunda curva não teve emoção – reclamei quando terminamos a excursão.
- É que tive medo pela janela – ele debochou.
E depois fiquei lembrando de outros momentos incríveis que tive com estranhos, mas que, muitas vezes, significaram tanto, a valer mil vezes mais que outras coisas vividas! Como na prova da autoescola em que reprovei e uma mulher mais atrás na calçada me chamou, perguntando se eu tinha passado.
- Não foi dessa vez – eu disse.
- Eu também não... – ela falou e encheu o olho d’água. Mas, as lágrimas dela não eram pela prova perdida. Desabafou ali mesmo, que no dia anterior havia recebido diagnóstico de câncer de mama. Começou a me contar tudo, no meio da rua, e chorava... Não sabia se conseguiria fazer a prova de novo... Preocupava-se com a filhinha... E eu ali, uma estranha, perdida, abraçando a desconhecida na calçada, a me molhar os ombros, e só dizia...
- Meu anjo, calma... Está tudo bem...
No fim, peguei o telefone dela e encontrei-lhe na semana seguinte, para presentear-lhe com um livro específico. Após, perdemos contato.
Outra vez, um senhor bem idoso sentou ao meu lado no ônibus. Eu adoro conversar com idosos, principalmente se eles são lúcidos. E este era muito. Nem me lembro como chegamos ao assunto “amor”. Lembro que ele falou de sua esposa com tal admiração, com tal enlevo, que eu acho até hoje que qualquer homem que consiga chegar à idade dele e ter amado um pouquinho daquele jeito já poderia ser considerado feliz. Ele contou como se conheceram, as dificuldades, as lutas, os sonhos... Falou da guerra, do passado, dos segredos... Lembro que encerrou dizendo sobre ela, que era professora de piano:
- Até hoje, às vezes, eu a espio tocando, sem ela perceber. Eu nunca perdi o encanto de admirá-la em segredo.
Que liiiindoooo... Aquilo me marcou tão definitivamente! Lembro que tudo o que ele falou aquele dia foi extremamente sábio e, embora eu soubesse que não lembraria exatamente o que conversamos, eu lembraria dele, de seus olhos azuis cinzentos. Por aqueles breves instantes eu viajei nas histórias daquele senhor, talvez o idoso mais interessante que já conheci.
Teve também o cara no banco. Um cara parecido com o Luís Fernando Guimarães. Sentamos lado a lado aguardando nossas senhas, e era um daqueles dias que tem 50 pessoas na sua frente. Eu estava com um livro, ele estava com outro. Ele tentava espiar o meu livro enquanto manejava alguns cheques na mão. Observei o olhão comprido. Ok, eu também estava curiosa sobre o livro dele, mas procurei ficar na leitura. Depois de uns dois ou três minutos, ele não resistiu e fechou o dele.
- O que você está lendo?
Era Vigiar e Punir, do Michel Foucault.
- Foucault? – mostrou-se surpreso. – Geralmente as meninas da sua idade (sic!) leem coisas menos sérias.
Eu dei-lhe uma breve explicação daquela minha leitura naquele momento e aproveitei para espiar o livro dele. Era “Toda Poesia”, de Paulo Leminski. Explicou-me que estava brigado com a esposa e procurava se inspirar para fazer alguma coisa para agradá-la.
- Singular – eu disse. E conversamos até nossas senhas serem chamadas – a dele primeiro, acho. No fim das contas... trocamos os livros (e eu espero, sinceramente, que ele não tenha vigiado e punido a mulher).
E, claro, teria de finalizar com o menino do sebo. Quando eu trabalhava em um sebo alguns dias por semana, em 2012, em uma tarde de sexta-feira chuvosa, entrou lá um garoto e seu par curioso de olhos azuis. A beleza dele atraiu instantaneamente, mas logo não passaria de um detalhe dada a sua personalidade. Ele estava procurando um livro específico – já não lembro qual, - e, por alguma razão, desandamos a gastar a tarde chuvosa em uma deliciosa conversa. Ele fazia que ia embora, mas alegava esperar diminuir a chuva e ia ficando... Não tinha movimento no sebo e ficamos falando, falando... apenas QUATRO LONGAS HORAS! E falávamos... e chovia... falávamos... e chovia. Falamos sobre livros também, mas logo, sobre nossas vidas. Ele tinha 23 anos e um filho de seis. Contou do “vacilo”. Namoro de escola, amo meu filho, mas... Nunca mais soube daquele estranho, cujo nome, se perguntei, já não lembro mais. Mas não esqueci aquela tarde chuvosa.
Nem o porre na praia, em pleno Natal, cheio de amigos, e um estranho, que chorou comigo que havia perdido seu filho recém-nascido. A garotinha de 7 anos falante, que me acompanhou na roda gigante e ficou fazendo perguntas – espertíssima. O olhar na secretaria da escola, que troquei com uma mãe de trajes negros, que vinha fortemente cancelar a matrícula de seu filho. Ou a senhora que esperava eu terminar de atender o cliente, mas só queria ser atendida por mim, só por mim. Ah, estranhos, todos eles!

E como são interessantes as histórias das pessoas... Como há elementos belos em cada uma delas... Acho que a coisa mais bonita é isso. O espírito humano. Sei lá se essas pessoas lembram de mim e, quer saber? Nem importa. O legal da vida é esse movimento, essa dança, onde um simples transeunte se torna um momento, um aprendizado... Será que só eu sou abençoada por viver coisas assim? Porque é realmente boa a sensação de voar em carrinhos de supermercado, confiando totalmente... em um estranho

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Carta para mim mesma 10 anos atrás


Ei, garota! Faltam poucos dias. Vinte anos, hem! Quais serão seus sonhos para essa próxima década?
Preste atenção em uma coisa, isso vai soar esquisito, mas... eu sou você. É, você! Sei que é difícil acreditar agora (acho que se uma elegante senhora – e eu realmente espero que ela seja elegante – de seus 39 anos aparecesse nesse minuto e dissesse que sou eu daqui há 10 anos, eu também não acreditaria, mas...). O importante é que eu quero te dizer como pode desfrutar os próximos 10 anos de uma forma menos dolorosa e mais bem resolvida. Embora, eu tenha sérias dúvidas se, ao final dessa experiência, você poderia ser eu novamente. Mas, ok, vamos lá.
Em 1º lugar: você é muito sonhadora. Eu ia dizer molenga, mas preferi pegar leve com você, é só uma menina. Mas, olha, é o seguinte: sonhar é bom, mas realizar é melhor ainda. Você precisa acreditar na concretização de seus ideais, e não ficá-los jogando nas personagens dos seus livros. (Aliás, garota, daqui 10 anos você nem vai ter coragem de ler esses seus livros...).
Bom, vamos a mais um ponto. Sabe essa vontade que, às vezes, você tem de mudar? De ser mais louca, mais ousada, de fazer algo que vá totalmente contra os seus princípios... Obedeça, vá. Pelo menos uma vezinha. Você será um tanto frustrada mais tarde por não ter cometido algumas loucuras. Pare de ser comedida na hora de cortar o cabelo. Pare de ouvir o que sua mãe acha melhor pra você. Pare de ser refém dos desejos dos outros... Quando você resolver ser você mesma vai estourar, vai surpreender, vai doer em todo mundo que estiver perto. Seria muito mais fácil se você simplesmente sempre seguisse seu coração... Seja menos indecisa para fazer alguma coisa fora da rotina e do comum, ou simplesmente, seja mais livre para escolher uma roupa diferente. Aliás, você não perde essa sua mania de gostar de all star, hem? Deve ser por causa dessas suas profissões esquisitas.
Profissões esquisitas? – você deve estar se perguntando. Sim, você vai prestar vestibular para psicologia. Sua desculpa é que gostaria de se conhecer melhor. Mas, no dia mesmo da prova, vai estar ressentida, porque queria publicidade. Você se esqueceu totalmente que no último ano do colégio ia fazer jornalismo. E ainda pende um pouquinho para letras, mas guardará pra sempre as palavras daquela sua professora de português. Enfim: você vai viver desses seus ideais de cinema. Esses curtas que você brinca nos finais de semana com gente bem mais velha nunca serão esquecidos por você. Mas, depois falamos sobre isso. O que eu quero dizer agora é sobre profissões. Olha, menina, vou te dizer uma coisa: Comunicação Social, Artes, Literatura, Filosofia... É tudo muito bonito, mas não dá dinheiro! E você pende naturalmente ao que é mais caro, você não tem jeito...! Depois, não diga que não avisei! (Bem, querida, pelo menos tênis de lona não é assim tão caro... Tudo bem aos 29, mas é uma coisa para se repensar 10 anos depois, concorda?).
Garota, você devia se preocupar um pouco menos com os outros e cuidar mais de você! Lá na frente, vai olhar para trás e se arrepender de algumas coisas que não fez. E de algumas que fez também, mas essas serão em bem menor número. Você é uma pessoa de incertezas e vai viver se perguntando o que teria sido. Ah... você não tem jeito mesmo...!
Eu lembro que você é uma graça de menina! Baixinha, delicada, tímida demais, às vezes... Você se acha gordinha. Como você é bobinha! Não consegue olhar em volta, não é mesmo? Deixe de ser tão insegura. Você é tão linda. Você fica muito bonita quando enrubesce. Tem gente apaixonada por você, por que não olha em volta? Pare de idealizar! Você vai deixar passar pessoas muito legais e irem embora por essa sua mania de idealização...
Aliás, vamos falar também dos seus choros. Sabe, em 10 anos, me acredite: quase toda lágrima vai ter valido a pena. Não é que você tenha merecido chorar, mas, naquelas ocasiões, foi a melhor forma que podia ter aprendido. O bom é que você vai se fortalecer, e depois, não é qualquer coisa que vai te fazer chorar.
Ah, sim, você vai entrar na faculdade. E vai sair, o que também é importante, hehe. Vai lembrar de quando escrevia sentada nos degraus da universidade, no intervalo do seu trabalho no “xérox” e se perguntava isso. E, oh yes, você vai entrar em psicologia e logo vai trocar para a sua publicidade. Vai conhecer pessoas ótimas nesse curso, mas nenhuma delas vai ficar em sua vida por mais que uma estação. O que não impedirá de guardar boas lembranças. E alguma saudade também.
Guria, temos que falar sobre idade... Quando você chegar aos 25, vai começar a pirar, com medo de envelhecer. Ai, como você é boba (2)! Se soubesse que com 27 vão te barrar em um show noturno e pedir seu RG, será que você não seria mais relaxada? Eles vão impedir veementemente a sua entrada. E você, com aquela baby look preta e uma cara de marrenta (do alto do seu all star, é claro) vai se julgar ofendida: “Como assim meu RG?”. Baby, você só entra no show se mostrar um documento com foto. Essa sua síndrome de Adaline aí não vai colar. O pior é que depois você vai cansar tanto dessa história de omitir a idade que vai desencanar totalmente disso... Bipolar! Uma louca, para dizer o mínimo.
Ah, se eu pudesse te dar um conselho agora (se você pudesse me ouvir, hem?), eu diria: Saia da asa da família o quanto antes! Sabe aquele curso na UFSM que você brilhava o olho aos 17? Meu bem, com 19 ainda dá tempo: vaza! Voe, caia fora, se quebre um pouco, realmente a hora é agora! E, se puder, tire a encrenca da carteira de motorista também. Você vai iniciar o processo aos 23 e vai desistir na oitava aula. NÃO FAÇA ISSO! É uma burocracia estúpida que, adiante, vai te consumir muito mais tempo, vontade e dinheiro do que você gostaria de oferecer.
Ah, eu sei que com quase 20 aninhos você já se apaixonou muitas vezes. Lamentou alguns casos, teve sucesso em outros, mandou uns caras legais passearem e ainda sonha em encontrar alguém que faça a diferença. Olha, menina, para: nesses próximos 10 anos, as notícias não são nada animadoras. Você vai conhecer um que, no dia do encontro, vai julgar ser sua “alma gêmea”... Ai, meu Deus, não acredite nessa bobagem! Pule fora! Esqueça seu romantismo barato com Veneza, com cavalos, com palavrinhas bonitas no msn. É uma cilada, Bino!! Porque, para esquecer esse (que é gay!!), você vai cruzar do paraíso ao inferno com um outro, que vai te corresponder em tudo, mas... ele perdeu o pai recentemente e vive um momento complicado... Ele vai te levar ao cinema e te fazer rir, mas depois... ele vai te fazer chorar. Corte ele no primeiro dia de aula! Não olhe para ele, paraaaaa! Não deixe ele sentar atrás de você, mude de lugar. Não fique rindo das piadas dele e de como ele imita a cara da professora. Menina, não aceite ficar até 10 da noite com ele no campus se a aula termina às 7... A afinidade é grande, mas você vai sofrer. E, anos depois, vocês vão se encontrar na rua e ainda procurar nos olhos um do outro uma explicação pra essa merda. Então, PARA! Nada de risadinhas com ele! Nada de códigos, ligações. Pula fora no começo.
Pior que este, talvez, só aquele que tinha a fala mansa, dizia o que você queria ouvir... Aquele olho caído de sonso, sempre te cercando sutilmente... E, você, abobada, vai cair de novo? NÃOOOOOO! Meu anjo, você não sabe o quanto vai penar pra tirar cada um desses trastes da cabeça! Você vai ser assombrada pelas palavras deles. Todos, sem exceção, vão se transformar em sapos bem diante dos seus olhos! E você quer saber mais? Lá vai... Depois disso aí, você vai se fechar. Como uma ostra. Vai lavar a alma por causa desses desgraçados e vai prometer que nunca mais nenhum moleque entra nesse seu coração. E, contra todas as possibilidades... você vai cumprir. Você vai apagá-los da sua mente consciente como as garatujas em suas primeiras aulas de pintura. Seu olho não vai brilhar com nenhuma historinha “de amor”; você vai rir dos casais que dizem que se amam; vai ter certeza que o casamento é uma instituição falida... Orgulhosa, vai adotar a postura, “se não é como eu quero... eu não quero. Rum.” Você não vai chegar a ser assim, amarga... Mas, vai ser aquela durona difícil na queda, que não acredita, não se entrega mais, se assusta. Talvez, um pouquinho seja fachada. Só um pouquinho. Por um lado, essa sua atitude vai ser boa, porque vai usar toda a força para lutar pelos seus estudos, pelos seus projetos de vida e vai se fazer meio sozinha. Vai acabar achando que homem não serve pra muita coisa. E vai sair de tanta ilusão mais forte. Todavia, por outro lado... talvez você devesse chegar à conclusão que são necessárias algumas bijuterias baratas para poder reconhecer uma jóia. Quem sabe, com jeitinho... você não vai se dobrando aos poucos... sempre muito desconfiada, é claro... tentando fugir, resistindo, mas... se entregando? Olha, garota, eu não sei, eu só vim há 10 anos do seu futuro. Mas algo me diz que você já está se vergando...
Sabe, em 10 anos, muita coisa vai mudar de lugar. Você vai mudar sua relação com as pessoas, sua forma de ver o mundo, de se relacionar com dinheiro, até com os livros que você ama tanto. Vai adquirir (ou desenvolver) um poder fantástico de seduzir pelas palavras, de doar de si através delas; vai falar sobre tudo com a maior naturalidade e vai cativar naturalmente. Você vai exibir um verniz que ofusca quando quer, mas, muitas vezes, por dentro, trará um coração que chora. E vai cuidar para que ninguém perceba. Acreditará piamente que isso é proteção.
Você vai colocar e tirar seu desejado aparelho nos dentes. Seu sorriso vai ficar lindo. Vai ter um melhor amigo gay e ele vai te revelar facetas do universo masculino que nenhum amigo seu conseguiu. Vai se confrontar com fatos do seu passado familiar... Vai se tornar vegetariana... Coisa que quando seu amigo quarentão cineasta falava que deveria fazer, se limitava a responder: Ah, eu não consigo...
Falando em amigo cineasta e aspirantes a realizadores de cinema, in ou felizmente, você vai perder contato com todos que te ensinaram um pouco mais sobre a sétima arte. Porém, aquelas manhãs de sábado no café – manhãs dos seus 19 anos – sobre filmes, diretores, sexo, emoções e coisas que naquela época você não entendia direito, de forma tão aberta e livre, elas vão ecoar de vez em quando, quando você for mais velha, e intimamente vai se sentir grata por elas.
Os próximos 10 anos também serão muito ricos espiritualmente. Você vai manter contato com os dois mundos; vai ter lembranças passadas que lhe explicarão situações atuais; vai fortalecer e abalar sua fé. Você vai ser mais confiante e mais prática; mais tênue e pragmática; embora deva cuidar com tendências à falta de ação por ficar apenas aceitando o curso do rio.
Garota, 10 anos passam muito depressa. Você vai fazer viagens inesquecíveis, vai entender porque gente mais velha diz que “os jovens não sabem nada da vida”, vai criar um blog cheio de inspiração que vai atrair muita gente interessante... Você vai enterrar alguns amigos; vai sepultar também alguns sonhos; vai ver seu sobrinho e as árvores do campo crescerem na mesma velocidade... Portanto, pare com essa ideia romântica de achar que tem toda a vida pela frente. Passa muito rápido! Você vai ver as crianças do vizinho casando e tendo filhos e as cãs nas têmporas de seus pais; vai ver as coisas mudando de lugar, vai ver que nada vai permanecer e... vai querer saber o que é o tempo. Logo, menina... se eu voltasse a ser você, se eu pudesse voltar 10 anos atrás, eu mudaria (eu acho) muita coisa que hoje em dia aproxima ou distancia a gente. Eu torceria pra você não mudar essa sua ingenuidade de ver o mundo, esse seu jeito quase puro, tantas vezes maculado. Só que, eu perguntaria, justamente... Garota, será que se você tivesse seguido os conselhos dessa carta... Eu saberia escrevê-la?

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Basta uma faísca 
para incendiar 
memórias.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Inviolável


Estava lá, sentada, abraçada aos joelhos. O jeans rasgado lhe conferindo um ar mais jovial, como bem lhe disse um novo amigo sobre a primeira impressão que tivera dela. Havia um código de barras em seus braços. E outros números e barras em sua nuca, sua testa. Havia vendas em seus olhos, amarras em suas mãos. Havia também uma mordaça em sua boca.
Tudo nela já havia sido violado. O que tinha de bom, de ruim, de fácil ou não. Sentia-se esvaziada. Pode alguém ser inviolável?, pensou. Só se sentia assim dentro da sua concha. Mas, não era um lugar que conseguia ir com frequência. Acontecia independente dela, apesar dela. E o que, nela, estava tão violado assim?
Seu passado. Passado que o medo trazia.
Sua mágoa. Mágoa que as palavras obrigavam a encarar.
Sua fragilidade. Fragilidade negada, erradicada diariamente, fingindo ser... inviolável. Mas, não era. Sentia-se vulnerável, com receios, com olhos molhados. Chorava até dormir. Violou seus segredos, embora eles continuassem secretos. E lembrava bem de todas as vezes que se sentiu daquele jeito. Não queria... Mas, quem tem controle sobre como se sente? Aliás, existem formas erradas de pensar e sentir? Ou existem formas violadas?
Estava frio e seu moletom branco não a aquecia. Ela não se importava. O calor da luta dentro dela a fazia esquecer a temperatura lá fora. Estava cansada de sentir culpa. Se cansara de dedos apontados. Ela não escolhera se sentir assim. Apenas sentia.
Números e códigos em seus cabelos.
Pensavam por ela.
Números e códigos em suas costas.
Aceite, é assim.
Nenhuma mão entrelaçada à sua.
Você está errada!
Todas as vozes a violando dentro.
Você está sozinha!
Cada sentença é um dedo apontado.
Só, só, só – sua mente bate mais que a testa contra a parede. Você nunca vai pensar por si mesma, você está violada!
Pare de chorar – não é inviolável, ninguém falou que era.
Não olhe assim – eu não vou proteger você.

Ela não é quem pensa que é.
Nunca vai ser quem pensa que vai.

Tudo está lhe dizendo isso: ninguém é inviolável. Nós nascemos violados e morremos violadores. Não tente tirar isso daí, pode preservar sua sanidade violada.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Conflito


Não sei lidar com você. Não sei o que esperar de você. Na verdade, tenho me perguntado se a humanidade sabe.
Eu não gosto de você. Ah... Eu amo você! Eu odeio a sua expressão, a sua banalização, o seu acesso, a sua indiferença... Eu amo como acho que você é a única forma de verdadeiramente conectar duas almas aqui na Terra. Não suporto como sou uma das poucas que vê em você uma alma, aliás... E é tão linda a forma como você pode simplesmente significar tudo.
Tenho uma mágoa tão grande e secreta de você! Mágoa de como você é representado, de como é dividido em universos masculino e feminino, de como é feito, de como nos lembra permanentemente de nossa condição inferior. Talvez, tenha sido a forma como fomos apresentados. Nunca ouvi coisas boas sobre você. Ouvi sussurros, desejos, contos, mas nada que o elevasse.
Eu tenho ciúmes de você. De você que foi projeto, de você nos meus amores, odeio que você existiu lá para eles antes de mim. E lá para mim antes de cada um deles. E me entristece como você é, às vezes, mais importante que outras coisas. E mais importante que tudo, para alguns.
E eu tenho sonhos com você. Por tudo o que é, quando verdadeiro, e tudo que pode vir a ser. Embora, eu desconfie dessa sua veracidade. Às vezes, acho que você não pode ser profundo.
Eu acho perfeito quando você não vem sozinho. Nem que seja só por um momento. Talvez seja por isso que eu o despreze tanto quando você não vem acompanhado. E eu desprezo não só você, mas quem (não) te governa também.
E tem um lado meu que detesta ver apenas você nas pessoas. E quando elas me olham e também lhe vêem – quando vêem só você em mim.
Detesto as mentiras que contam sobre você. Todas corroboradas pela ciência, pela biologia, pela psicologia, pela cultura... Tenho desgosto por como você é tratado nesse planeta caótico e infeliz. Você é a válvula de escape, a fuga, disponível a qualquer um a qualquer momento.
Ainda acho que o pior de tudo são os crimes cometidos por sua causa. Crimes de poder, antes de tudo, mas também crimes de dominação, crimes de desrespeito. E como as pessoas não respeitam você nelas mesmas. Vendem, trocam, dão, entrelaçando energias sem perceberem como se afetam.
E parece sempre que o seu contrário é tão mais feio, não é? Que é mil vezes superior gostar de você assim, fútil e violento, que dizer que você não é lá tão importante, e ignorá-lo. Aliás, parece que você não pode ser ignorado! Inventaram que, nem que seja de forma inconsciente, você está sempre lá, lembrado.
Tem as coisas que eu gosto em você: sua marca, sua suavidade, seu carinho, a vida que de você emana. Seu toque, sua lágrima, às vezes sua grandeza, seu enlace, seu gozo. Em contrapartida, como saber o que é nobre para cada lado ou quando não passa apenas de um jogo? Só o jogo, definitivamente, não me encanta.
Não me agrada ter você como uma presa, ou ser uma presa sua. Não me agrada ser vista com seus olhos, quando nada vai além. Não me agrada te representar ou te insinuar – eu me sinto tão distante disso! Não me agrada que eu me importe. Me agrada muito menos ainda me esforçar por entender você nos outros. Eu não tenho que te entender! Mas, eu acho importante questionar tudo o que é e sempre foi dito sobre você. E eu não tenho que acreditar que você só pode ser reprimido, não sublimado. E eu realmente não sei o que pensar sobre você, porque em sua presença, tudo é instável, nada é definitivo.
Não te acho sempre mundano e vulgar.
Não te acho sempre um pulsar de amor feliz.

Eu não sei o que eu penso sobre você. Mas, me incomoda mais é que eu me importe com isso.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Aos 29,

Foto: Bruno Bass/ Arquivo Pessoal

Aos 29, já aprendi a reaprender. E que nem tudo que se aprende é definitivo – estamos (re)aprendendo sempre. E como pode ser difícil aprender isso...
Aos 29, já percebi que aquele negócio de não correr atrás das borboletas, mas decorar o jardim, nem sempre dá certo. Muitas vezes, nenhum dos dois dá.
Aos 29, já saquei que o tempo passa rápido. Que os amigos casam e somem e que as crianças crescem.
Já entendi que preciso prender o fôlego para soprar as velas do bolo. E que é cada vez mais seleto o grupo de pessoas que partilham dele comigo.
Aos 29, já entendi porque a mulherada trava uma briga com o tal relógio biológico. E tratei de fazer as pazes com o meu.
Aos 29, meu fígado já aceitou que o chocolate e a batata frita, agora, são limitados. Mas, meu manequim ainda me premia com um singelo 36.
Aos 29, já tive uma das maiores lições da vida, que é jamais me comparar. Perde-se um tempo precioso de atitude e ação analisando com lupa a felicidade dos outros.
Aos 29, já aprendi a não proferir palavras em momentos de raiva.
Que não devo acreditar na data de validade dos meus perfumes...
E que não podemos culpar as pessoas por suas escolhas. Na verdade, nem elas podem.

Aos 29, constatei que muitas das grandes coisas que, aos 19, eu julgava que já teria feito, não foram realizadas. E isso não me torna, necessariamente, infeliz.
Aos 29, já me envergonhei das selfies antigas. Já ri do que eu chamei de “relacionamentos” e já me regozijei – eu confesso – ao ver que algum ex está gordo ou com um bagulho (ou as duas coisas).
Aos 29, já reavaliei minha vida pessoal e profissional, e comparei com como eu imaginava, no passado, que elas estariam.
Já pintei retratos distorcidos da realidade. E já analisei – sem falsa modéstia – como até estou melhor que muita gente que se crescia tanto pra cima de mim.

Aos 29, já me constrangi com as cobranças do mundo. Para casar, para ter filhos, para ter alguém, para ter sexo, para ter...
Aos 29, já caí várias vezes. Também já levantei, já quis desistir, fugir; recomecei.
Aos 29, já vi muita coisa, mas estou longe de ter visto de tudo.
Aos 29, meus sonhos já são outros... E, daqueles do passado, alguns realizei, mas a maioria deixei pelo caminho. Vi que não eram sonhos, eram desejos, que como pães, foram levados pelos passarinhos...
Aos 29, já entendi que o problema nem sempre está no que se vê, mas no modo de olhar. E que a gente enxerga de acordo com o que sente (e o que viveu até ali).

Aos 29, por fim, eu entendi que não importa a idade... Importa o que a gente faz com cada fase, como aproveita cada momento e como vive cada oportunidade, buscando realizar os próprios sonhos e seguir os próprios valores... Quanto ao resto, nada que um dia após o outro não resolva. A qualquer tempo – não, necessariamente... Aos 29. 

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Segura


De repente, você passa a gostar de tons terrosos. Brinco de pérola. Rosa antigo no batom, blusa branco marfim. E dá um trabalho fazer aquela maquiagem que finge que não se está maquiada. De repente, passa a admirar tudo o mais natural possível: nude, batom malva, lápis marrom, sapato baixo, rabo de cavalo. Simplicidade. Discrição. A blusa folgada deixa mais confortável. O cabelo curto deixa mais à vontade. E o mais incrível é que Coco Chanel descobriu tudo cem anos antes de você!
De repente, o tempo que passa vivendo é mais importante que o que passa se embonecando (de repente, é por isso que pincéis fazem tanta diferença!). A mancha de nascença se torna um charme, as unhas sempre feitas deixam de ser obrigação. O pijama, de repente, é um fetiche – sempre é possível ficar sexy com ele!

De repente, o que os outros dizem não importa tanto. De repente, o que os outros fazem nunca importou. Você percebe que sempre terá alguém para amá-la e admirá-la: é só olhar no espelho. É que, de repente, o perfume não precisa mais ser marcante – você é marcante. E, de repente, você simplesmente está segura. 

sábado, 6 de junho de 2015

Ode à saudade


Essa manhã ao abrir a janela e sentir o ar e o sol, me deu saudade das manhãs de verão. Manhãs mornas, preguiçosas, com gosto de areia e de sal. Manhãs com cheiro de filtro solar, em que dias não existem e horas, menos ainda. Sentir a brisa ou mergulhar, ver as ondas quebrarem ou meditar, simplesmente contemplar...
Deu saudade daquelas manhãs sem responsabilidade, sem preocupações. De rir com os amigos “à milanesa” e comer bolo de chocolate sem medo de engordar. Dias longos, febris. Noites cálidas, ardentes. Amigos únicos, improváveis. E, depois, novamente, manhã.
Nós dançaríamos até a luz do sol aparecer.
Nós beberíamos até perder a vergonha e o brio.
Nós viveríamos como se aquele verão fosse o último... Ùltimo verão, último Natal, última chance. Assim, sem compromisso – eram essas nossas manhãs.
Querendo ou não, essas manhãs praieiras também me trazem saudade de quem vinha com elas. E entre essas pessoas, sempre estará meu saudoso primo. Ah, Gleison... Como você me fazia rir! Como você me fez chorar...
Improvisávamos comida, lembra? Contávamos histórias. Cuidávamos uns dos outros. Jogávamos cartas, xadrez... (ok, xadrez você jogava). Paquerávamos, levávamos toco, conhecíamos pessoas estranhas, ríamos delas, ríamos com elas, raspávamos panelas, assombrávamos madrugadas... Eu ria tanto das suas cantadas...
- Deixou cair.
- O quê?
- O papel que te embrulha, bombom...
(É, eu rio até hoje, ainda que com lágrimas nos olhos).
Do medo que eu senti em ficar sozinha contigo contra aquele muro, bêbado e todo cagado... De como rimos disso nos dias seguintes... De como éramos tão hábeis em esconder a merda dos nossos pais... (não a literal, haha!). Sinto saudade de quem eu era naquele tempo. Da minha ingenuidade do mundo. Da minha inocente melancolia. Da eternidade das semanas, do dissabor da convivência. Sinto saudade de você, Gleison, e de todos que faziam parte do nosso pequeno mundo de segredos e mentiras, de disfarçado desespero e imperiosa intensidade. Saudade daquelas nostálgicas, que só outras manhãs gostosas podem lembrar a sensação, mas jamais trazê-la exatamente. Saudade que faz voltar no tempo pra sentir de novo o teu abraço, pra viver tudo outra vez, pra te impedir de sair naquela terça-feira, pra te fazer ir ao meu último aniversário... que você podia ter ido. Voltar no tempo só pra te ver de novo. Quentinho, não gelado. Em pé, não, deitado...
E você pediria pra eu ler esse texto pra ti... Porque gostava que eu lesse pra ti. Gostava do que eu escrevia. Gostava das minhas tramas mirabolantes, dos desenhos do Bruno, das piadas que vinham depois; não debochava dos nossos sonhos. Era um pouco parte deles...

É, Gleison... Queria que voltassem você e aquelas manhãs de verão.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Ei,


Ei, já está tudo pronto.
O disco está na vitrola, o vinho está na mesa.
O sorriso está na cara, o grito na garganta.
Ei, Sinatra já está cantando, a chuva já está caindo. A mala já está feita, a porta já está aberta.
A passagem já está comprada, o mundo já está esperando; a vida já está passando, o avião já está partindo!
O destino já está selado, o jogo já está marcado; a sorte já está sorrindo... 

domingo, 31 de maio de 2015

Palpite Publicitário


Às vezes, ser publicitário é uma catástrofe! Pois, não sei se existe bicho mais curioso e observador (ainda que, com jornalistas, filósofos e escritores a disputa seja meio no tapa). Publicitário repara os merchans nos filmes. Olha as propagandas novas e critica mentalmente ou acha a sacada genial. Experimenta gêneros e diretores de filmes. Só publicitário acha certas coisas fantásticas! E é, com certeza, um publicitário que vai colecionar bonecos de gamers, comprar um produto porque a embalagem é legal e escolher uma mala pelo design ou porque ela é Samsonite (Hã? Sensodyne?).
Falando em Sensodyne (não, eu não estou recebendo pra isso), publicitários também gostam de experimentar coisas novas. E isso é especialmente verdade quando se trata de marcas e lançamentos dos gêneros de higiene, ou alimentícios. Massa Barilla, Sopas Campbell, geleia Queensberry. Óleo de oliva português, chileno, grego. Tomates pelados, aceto balsâmico, maionese alemã, manteiga francesa, doce de leite argentino, pão árabe. E café: café em cápsulas, café em grãos, café gourmet, café italiano, café trufado, café Kopi Luwac, aquele do “gatinho”. E é por esse espírito inovador que eu lembrei da Sensodyne.
Pastas de dentes são produtos que sempre desafiaram meu humor publicitário. Sugestivas com seu poder branqueador, antiodor, anti “ites”, anticáries; e seus modelos de arcadas perfeitas, já provei várias marcas (inclusive do mesmo conglomerado), mas nunca fiquei rindo abobada dentro da piscina nem saíram fadas do meu hálito. Da última vez que fui ao mercado, resolvi pegar a mais baratinha que encontrei (na verdade em gel, porque não gosto de cremes). Lembrei da recomendação da dentista: “Qualquer uma serve, o trabalho é da escova, a pasta só ajuda na limpeza” (Claro que meu senso publicitário afiado sempre desconfiou um pouco dessa recomendação, mas no momento da decisão de compra eu realmente quis pegar a marca considerada inferior para testar). E, ah... a porcaria tem textura de gelatina! Que publicitário mais pessimista poderia imaginar isso: escovar os dentes com gelatina?!

Então, não adiantou nada tentar, ao menos uma vez, fugir aos apelos mercadológicos... Sensodyne pode até ter valor agregado, mas o caminho do meio é melhor do que gelatina na higiene bucal. Porém, vá... tudo bem... Ainda quero experimentar os chás (estou virando uma apreciadora); chocolates de diferentes nacionalidades, comidas para solteiros... várias coisas, menos shampoos, porque nada mente mais que propaganda de shampoo! E, se eu pudesse dar só um conselho, seria: Use filtro solar (né, Bial) e... pastas de dentes conhecidas. Nem dentadura merece ser higienizada com gelatina... 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Porque eu fujo da minha tristeza


Tem dias que ela chega de repente, vai se instalando, de mansinho. Me mexo, me ocupo, me agito. Tudo em vão. Ela vai “conquistando” seu lugar cativo; faz-me misturar com pessoas e com lugares e deixa-me em dúvida se ela é mesmo minha... Sim, porque às vezes eu sei que ela não é minha. Ela é do vizinho, de quem está ao meu lado, do ambiente, do noticiário. E ela me suga, me preocupa, me estremece, me faz mal. Sinto medo. É por isso que eu fujo da minha tristeza. Vivo querendo proteger tudo e todos. Tentando controlá-los. Tentativas vãs de controlar a minha dor.
Eu fujo da minha tristeza, mas sei que não deveria. Se for assim, de vez em quando, é (ou deveria ser) até bom se permitir senti-la; vivê-la sofregamente, até o fundo do tacho. Mas, não... Mal a tristeza se aproxima, já vou lutando contra ela, repelindo-a, temendo-a... Ela me faz encarar coisas que não quero... Traz o passado, revolve o presente, insinua o futuro, ameaça... Ou simplesmente me abraça e eu não quero aceitar. Só que, racionalmente, já acho que deveria conviver bem com a minha tristeza, apaziguar-me com ela. Deixá-la me visitar as duas ou três vezes por mês que queira, e ir, sem maiores sequelas. Mas, não: reajo. Impeço, me escapo, disfarço. Não me tranco a sós com ela. Não deixo que me domine completamente para fazer seu trabalho e ir embora. E aí é pior, porque ela começa a vir um pouco por dia... Por mais dias... Como viver uma tristeza em etapas. Assim, ela me vence, me entranha; se me recuso a vivê-la intensamente para mantê-la inerte e latente... Oh, tristeza, para que me queres? Que faço contigo, oh, revel?
Agora estou triste, teço linhas entristecidas. E sei que ela vai embora loguinho; quem sabe ainda esta noite, talvez amanhã de manhã. E o que eu menos gosto na tristeza, mesmo, de verdade, é que ela me paralisa... me provoca, angustia e emudece, atemoriza, questiona e... se vai. Assim. Aparentemente, sem fazer diferença alguma. Deixando tudo como estava antes. Só para me incomodar.
Fujo da minha tristeza. Quem sabe, um dia... eu saiba lidar melhor com ela.