About my Blog

Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Feliz Natal



 Na casinha caiada o silêncio era profundo. Os vizinhos que costumavam reunir-se no pátio para tagarelar durante as festas, passavam agora pé ante pé na porta do padeiro. A filha mais velha levava roupas e tapetes para lavar no fundo do quintal, a fim de que o barulho não incomodasse o irmãozinho doente.
Era 24 de dezembro.
Muitas amigas da mãe apareciam como que de surpresa, enfiavam a cabeça no vão da porta e perguntavam como ia o menino. Todas recebiam a mesma resposta:
- Mal. Muito mal.
Traziam uma coisa ou outra para o Natal vindouro; alimentos, presentinhos, enfeites para a árvore, pulseirinhas benzidas.
- Trouxe um panetone do bom para a senhora.
- Se não a aborrece, tenho aqui chocolates para o menino.
A senhora franzina que abria a porta com os olhos rasos d’água agradecia as gentilezas, embora as aproveitasse muito pouco. Erick não comia nada havia dois dias; ainda na véspera fizera-se luta interminável fazê-lo tomar um pouquinho só de leite.
O triste jogadorzinho indefeso estava muito distante do alegre goleiro de outrora. Logo ele, tão excelente na defesa de seu amado time, agora estava mais magro, tinha os cabelos dantes dourados e compridos curtinhos e falhos, o rosto chupado. O ataque fora cruel. Mas não estava pálido. Justamente a vermelhidão de suas faces era o que havia de grave em seu estado. A febre vinha em sinal do fogo que o abrasava por dentro desde o começo da aplasia.
- Está dormindo? – o padeiro dirigiu-se à esposa num sussurro. Ela apenas anuiu a cabeça em confirmação. O estado do menino era tal que nem se podia saber mais se dormia ou não.
Ouviu-se um modesto bater na porta e, à soleira, ao reconhecer o amigo do filho, um sorriso triste alumiou o rosto da mulher. Vítor entrou.
- Como ele está?
- Muito mal.
- Muito mal?
Sem esperar confirmação, Vítor entrou no quarto ligeiro, seguido da mãe do amigo. Agora eram três a se debruçarem sobre a cama sem nada dizer. E enquanto permaneciam nessa imobilidade, o doente, como se lhes sentisse os olhares, abriu vagarosamente os olhos. Fitou primeiro o pai, em seguida a mãe com uma tristeza sem fim. E depois, sorriu ao ver Vítor e lhe disse numa voz fraca, mal perceptível:
- Você veio!!
- Vim – o amigo aproximou-se mais da cama.
- Vai ficar?
- Vou.
- Até eu morrer?
A isto, Vítor não sabia o que responder. Sorriu para o amigo e depois, como quem pede conselho, virou-se procurando os olhos da mãe do amiguinho. Esta, porém, já estava de costas voltadas a enxugar os olhos no avental.
- Está falando besteira – ralhou com carinho o pai.
Todavia, Erick não ligou atenção às suas palavras. Esboçando um movimento de cabeça em direção a ele, disse ao amigo:
- Não percebem.
- COMO NÃO? Sabem mais que você! – Vítor não agüentou mais.
O enfermo mexeu-se, ergueu-se a custo, apoiado no travesseiro, e sentou-se na cama. Não suportou o auxílio que lhe queriam dar, e com o dedinho magro em riste disse com gravidade:
- Você acredita no que falam? Ficam tentando suavizar. Mas, eu sei que vou morrer.
- Não é verdade.
- Disse que não é verdade?
- Disse.
- Então eu sou um mentiroso? – perguntou ofendido.
Procuraram tranqüilizá-lo, pois ninguém o acusava de mentira. Mas, desta vez ele estava intransigente, zangado, por não lhe darem crédito.
A irmã apareceu na porta, foi até o mano e beijou-lhe o rosto quente. Avisou aos pais que o médico chegara.
Todos o cumprimentaram com respeito. Era um senhor grisalho prematuramente, de ar muito sério e levemente carrancudo. Sem dizer palavra, encaminhou-se diretamente para a cama do doente; pegou a mão do menino. Depois, apalpou-lhe a fronte, auscultou-o. A mãe não conteve a pergunta:
-... Será que piorou?
- Não.
Mas pronunciou a negativa de um modo estranho, sem encarar sequer a interlocutora. O pai, prestativo, foi acompanhá-lo até a saída e, quando estavam na cozinha o facultativo fez um aceno com os olhos para indicar que fechasse a porta.
- Senhor Dias, vou lhe falar com toda franqueza. O menino não irá até o Natal. Talvez nem chegue à noite. Deus os abençoe. Voltarei em uma hora.
O padeiro nem ouvia. Continuava olhando diante de si para o chão, o nada, o vazio. Voltou ao quarto cambaleando e, embora os olhares desesperados, não lhe arrancaram mais uma palavra.
No rosto do menino apareceu uma alegria fugidia. Chamou Vítor, que se aproximou mais.
- Sente-se na beira de minha cama. Não tem medo?
- Por que haveria de ter?
- Talvez tenha medo que eu morra enquanto estiver sentado na cama. Fique tranqüilo: eu alerto se sentir que morro.
Vítor sentou-se na beira da cama.
- Então, que é que você deseja?
- Diga-me – perguntou-lhe o loirinho, abraçando-lhe o pescoço e inclinando-se sobre ele como para cochichar-lhe ao ouvido um grande segredo – que fim levou nosso amistoso de Natal?
- Vencemos.
- E depois?
- Admitiram que o nosso time era bem melhor.
-... Não é verdade... Você está me dizendo isso apenas pra me consolar, porque estou doente.
- Não senhor. Estou dizendo por que é verdade.
- Pois bem, lutei por nosso time, lutei por eles como pelos outros, bem sei que não lutei por mim mesmo, pois nunca mais jogarei um amistoso de Natal...
Calou-se. Ficou matutando sobre este terrível pensamento: nunca mais jogaria um amistoso de Natal. Nunca mais jogaria. Nunca mais teria Natal. Era uma criança. Deixaria de bom grado tudo neste mundo se pudesse ter outros amistosos de Natal. E – o que nunca lhe ocorrera durante todo o curso do câncer que consumia pouco a pouco seu corpinho - esse pensamento fez-lhe verter em abundantes lágrimas. O que o fazia chorar não era a tristeza, não era a dor, mas sim uma cólera impotente contra algo de poderoso que não o deixaria tornar mais uma vez a jogar em seu time, a passear pelos bazares do bairro a escolher o presente do amigo oculto, comer a cesta de chocolates que o pai ganhava na padaria no Natal. E os amigos vieram também às lembranças. O campinho de futebol, os amistosos de fim de ano, a chaminezinha da fábrica de doces que arfava alegre e cuspia para o lindo céu azul as nuvenzinhas brancas, que se dissolviam num instante.
Com as faces coradas, os olhos brilhantes, exclamou:
- Quero sair!
Como ninguém lhe respondesse ao grito, repetiu em voz mais exigente:
- Quero sair!
- Está certo, você sairá na semana que vem, quando estiver curado – Vítor mentiu, mais para si mesmo, quase tomado pelas lágrimas, embalado nos mesmos pensamentos que banharam o rosto do amigo.
- Não! Quero sair agora mesmo, imediatamente! Ajudem-me a vestir!
Procurou debaixo do travesseiro a touquinha vermelha de Papai Noel e colocou-a na cabeça.
- Vistam-me!
- Quando você estiver curado, Erick – respondeu-lhe o pai com indisfarçável tristeza.
- NUNCA ESTAREI CURADO! Todos vocês estão mentindo. Sei muito bem que vou morrer e quero dar uma volta uma vez mais, no campinho de jogar bola. Quero ver as árvores de Natal!
- É impossível, Erick...
- Faz mau tempo...
E repetiram a palavra triste, sem coragem de olhá-lo nos olhos inteligentes:
- Quando você estiver curado...
Mas tudo os desmentia. Falavam em mau tempo e o sol penetrava quente e brilhante pela janela do quarto, convidando o menino a tomar seu lugar no gol da várzea sofrida. Junto com os raios de sol, também brilhavam as luzinhas pisca-pisca em uma ou outra casa da vizinhança. Era como se o dia gritasse: É véspera de Natal!!!
O goleirinho reunira as forças e pusera-se de pé na cama, a camisa de dormir a cair-lhe aos tornozelos. Gritou com todas as forças que seus pulmões frágeis podiam suportar:
- FELIZ NATAAAALLLLL!!!!!!!
Depois, sentou-se no leito e, calado, fitou o cobertor.
- Está cansado? – Vítor perguntou-lhe baixinho.
Não respondeu. O amigo o agasalhou, a mãe ajeitou-lhe o travesseiro debaixo da cabeça e orientou que descansasse.
Erick fitou Vítor, mas pelo seu olhar notava-se que não o via. Disse-lhe com ar atônito:
- Papai Noel...
- Não, não – disse o amigo em voz abafada, - não sou Papai Noel... Não me reconhece? Sou o capitão do Santa Claus, seu amigo Vítor.
O doente apenas repetiu com voz exausta, sem entender:
- Sou o capitão do Santa Claus... Seu amigo... Vítor.
Fez-se longo silêncio. O menino fechou os olhos e soltou um grande suspiro, como se todas as dores de todos os meninos tristes se lhe tivessem condensado na alma.
- Veja... Ele não respira...
E no outro silêncio abafado que sucedeu, o pai foi o primeiro que pôs-se a soluçar baixinho. A mãe abraçava e beijava o filhinho morto; a irmã ajoelhou-se ao pé da cama e enterrou o rosto no travesseiro, entrando a soluçar também. O time do pequeno Erick chegou para comemorar com ele a vitória do amistoso, justo quando jazia na cama alvo como as paredes, olhinhos fechados, num silêncio eterno. Os anjos do mesmo Natal que tanto amava tinham vindo buscar-lhe para jogar no time do Céu, aquele lugar cujo esplendor deslumbrante só é visto pelos que foram como Erick.
Vítor permanecia no meio do quarto, cabisbaixo. Alguns momentos antes, sentado à beira da cama, mal podia conter o choro e agora verificava com espanto que as lágrimas não lhe chegavam aos olhos. Olhou em redor, com a sensação de um vazio imenso. Aproximou-se da cama na ponta dos pés e, silenciosamente, deitou um último olhar sobre o amigo que partia, sussurrando:
- Feliz Natal.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Ação, reação, destino. Os nossos caminhos

Tudo no universo responde exatamente mediante o que damos importância ou não, e por esse motivo somos responsáveis por nosso próprio destino.
Escolhemos os nossos caminhos e de acordo com eles a vida nos responderá.
Quando algo precisa acontecer, está maduro o suficiente, ninguém conseguirá deter. Acontece apesar de nós, através de nós ou até sem nossa intervenção.
Cada um de nós tem um destino próprio, intransferível, para cumprir no mundo, determinado por forças superiores da vida. Ninguém pode evitar que ele se cumpra. Ninguém consegue manipular a vida, ela sempre é mais forte.
As coisas acontecem como devem acontecer. Não adianta tentarmos impor a nossa vontade porque, muitas vezes, o que nos está destinado não é o que queremos. Nem sempre aquilo que desejamos é o melhor para nós ou é o que merecemos. O que a vida não dá, não é adquirido por direito. Escolhemos o nosso destino, mas podemos modificá-lo à medida que vamos tomando consciência de nossas atitudes. Não precisamos sofrer. Revoltar-se é um desrespeito ao livre-arbítrio do próximo.
Você não está pagando por nada, nem entenda as suas atitudes como maldade. Você está apenas tentando equilibrar a balança da sua vida, para que os atos do passado e as conseqüências do presente gerem uma harmonia para o futuro. Ninguém age sozinho, e as vidas de todos estão entrelaçadas, pois é próprio do ser humano interagir com seus semelhantes. Sem a convivência com o próximo, as experiências cairiam no vazio, porque ninguém aprende dando e recebendo só de si para si.
Não entenda a lei de causa e efeito como um instrumento de vingança ou de castigo. A lei de causa e efeito vem para nos mostrar que podemos, através da experiência, aprender com nossos próprios erros. Vivenciamos a mesma história, atravessamos semelhantes processos de desenvolvimento e escolhemos o final. Trata-se de uma reação da vida às nossas próprias atitudes, com caráter pedagógico e elucidativo, uma arma para o nosso crescimento. Somos os únicos responsáveis por tudo aquilo que nos acontece, e não há nada na vida que fique sem resposta. Todos recebemos da vida aquilo que um dia lhe tiramos. O que nos acontece é conseqüência do desequilíbrio que nós mesmos causamos em nossas vidas. Não há nada para se perdoar. Todos nós temos algo de que nos arrepender. Mas, o arrependimento não deve vir com o peso da culpa, e sim com a leveza da compreensão e da reforma interior. Não somos culpados, somos responsáveis. A culpa enfraquece, a responsabilidade ensina.
A lei de ação e reação mostra que só pode ser assassinado quem é assassinável. Ou seja, alguém que já assassinou ou que atraiu tal fato para si, por culpa, remorso ou alguma outra razão. As pessoas só podem ser assaltadas se forem “assaltáveis”. Não podemos ser subtraídos se não subtraímos nada de ninguém. Cada um paga na exata medida em que deve, nem um ceitil a mais. Ninguém precisa errar, muito menos sofrer. Se você consegue compreender a razão de seus atos, não precisa padecer. Quanto a “pagar”, essa é uma compreensão errada das verdades divinas. Ninguém deve nada a ninguém, a não ser a si mesmo. QUEM FAZ, PARA SI FAZ. Tudo o que fazemos, seja de bom ou de ruim, fazemos para nós e por nós mesmos. Não é só porque você matou que vai precisar morrer. Vai morrer se quiser. Mas, se conseguir entender porque matou, libertando-se da culpa e se perdoando, não vai precisar ser assassinado por ninguém. Ao contrário, vai buscar caminhos mais úteis, salvando vidas, por exemplo, devolvendo ao mundo aquilo que ajudou a tomar. Só escolhe sofrer quem ainda não aprendeu que as transformações também podem operar-se pela via do amor.
Nenhuma experiência se perde na vida. Nada do que nos acontece é em vão. Contudo, há certas coisas que não precisam ser necessariamente do jeito mais difícil.  Se há consciência e propósito firme de reparação e crescimento, o caminho a ser escolhido pode ser o mais fácil. O resultado é o mesmo, embora o tempo possa variar. Às vezes, o caminho mais fácil é o mais longo, mas também pode ser que não seja. Tudo vai depender da forma como você vai atravessá-lo e compreender as experiências que vão surgir. A vida ensina e molda as pessoas na hora certa. O Universo é benfeitor e sempre caminha a favor de todos.    

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Mesmo escondido no passado
Algo tem que permanecer
De alguém que quer ser lembrado
E se nega deixar conhecer.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Alguma coisa me diz que viver um amor na maturidade não tem a mesma fantasia que vivê-lo na juventude
Que realizar um sonho antigo não tem o mesmo brilho que teria quando era recente
Que o que se ganha em segurança se perde em magia




Como um milagre ele surgiu
E começou vida dentro de mim
E eu consigo senti-lo como uma recordação
De muito tempo atrás...

Saudade do tempo


Que primeiro beijo era especial...
Que qualquer beijo era especial, porque era esperado, aguardado, sonhado...
Que pegar na mão deixava a menina vermelha e o menino encabulado...
Que ser chamada para sair era um sonho realizado...
Que se comia brigadeiro de colher sem se importar tanto com a balança...
Que amigos eram só amigos, e não classificações sociais (“de festas”, “de segredos”, “de farras”...)
Que “ficar” significava estar junto, querer estar junto, e não um beijo anônimo de dois minutos...
Que brincar era com amigos, e não frente à tela de um computador...
Que música era uma melodia que te fazia pensar ou, no mínimo, sentir, e não um conjunto de sons ou ruídos “cantados” por qualquer um...
Que se esperava um telefonema ou uma batida no portão, não uma janela subir no MSN...
Que a pessoa da turma que tinha transado que era a exceção, não a virgem...
Que as coisas podiam ser ditas profundamente em uma carta, não por e-mail...
As fotografias eram ansiosamente esperadas para ser vistas, e muitas vezes, as pessoas saíam feias! (Pasmem...!) E até de quando um filme queimava, deixando apenas na memória a satisfação do momento...
Do tempo em que se falava inglês por prazer...
Que férias eram eventos...
Que artistas eram talentos, e não tendências...
Que os jovens queriam mudar o mundo...
Do tempo que não existe mais.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Nada é por acaso


Você acredita mesmo que algo é por acaso? Que não subiu naquele ônibus que bateu; que saiu da calçada no exato instante que um veículo perdeu o controle; que deixou de ir por um caminho e encontrou um velho amigo, por outro... por acaso?
Acasos, coincidências, detalhes; seja lá o nome que você der, está se iludindo. Não há coincidências, tudo o que acontece no mundo obedece a uma ordem predeterminada. Não existe sorte nem azar. O que existe é a vida trabalhando para o nosso melhor. Nada na vida acontece por sorte ou acaso, grave isso. Não há elos presos aleatoriamente na corrente. Cada um está unido àquele que tem que ser o seu próximo e sucede ao que, necessariamente, há de ser o seu antecessor. Nada está fora de lugar ou foi colocado ali por acaso ou coincidência.
E o que é a sorte, afinal? A sorte vem do merecimento, mas com ausência dessa compreensão. É um acontecimento inexplicável que, aparentemente, é obra do acaso, mas que, na realidade, é fruto de toda uma movimentação espiritual. E por isso surpreende. Porque o fato não é esperado, embora desejado e merecido. Desejar basta quando é o momento certo de receber. Portanto, uma coincidência não é obra do acaso, é uma programação do destino. Cada acontecimento é programado, todos os destinos estão entrelaçados, de forma que a sucessão de fatos, acasos e coincidências nada mais é do que a sabedoria divina agindo nas vidas de todas as pessoas.
Ninguém experimenta situações difíceis fortuitamente, e se você hoje está tendo esse tipo de experiência, não foi porque o acaso o elegeu. Foi porque você mesmo escolheu, e se escolheu foi porque julgou necessário para o seu crescimento, como forma de compreender a impropriedade de certas atitudes que tomou no passado. NADA ACONTECE POR ACASO. Coincidências obedecem a uma programação preestabelecida, à qual não temos acesso. Saiba que tudo de que precisa virá a você na perfeita sequência tempo-espaço.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Sabia tudo aos 16

Aos 16 anos eu era a pessoa mais sábia do mundo. Do meu mundo.
Sabia, por exemplo, que sofreria o resto dos meus dias pelo meu grande amor. Ele era o homem da minha vida, oh! Eu o amava. (Hoje, sequer sei o que é o amor!).
Eu sabia que seria eternamente jovem, bonita e auto-confiante. Que teria meus pais para sempre (aliás, para sempre e nunca eram sentenças proféticas para tudo); que a minha melhor amiga era simplesmente a minha melhor amiga (eterna), e que não ter uma roupa nova pra festa podia ser um grande problema.
Eu sabia que seria a garota mais feliz do mundo se ele olhasse pra mim; que a semana ia ser o máximo porque ia passar Stand by me na Sessão da Tarde e sabia que minha avó era imortal. Em qualquer momento da minha vida eu poderia chegar à sua casinha de madeira e pedir que me fizesse os bolinhos fritos saborosos, que ela me estaria à disposição.
Aos 16, eu sabia que o tempo passava muito devagar. E, às vezes, eu torcia para que passasse mais depressa, porque eu sabia que aos 18 eu poderia dirigir e morar sozinha. Mas, tinha dias que eu não queria crescer...
Tinha dias que eu sabia que algo em mim estava se perdendo, que estava escoando por entre meus dedos, mas eu não podia saber o que era... Às vezes, eu sabia que embora quisesse ser igual, eu não era, e que me assemelhava mais a uma jovem de 84 anos que a uma idosa de 16.
Hoje eu sei que nada sabia; que escrevo esse texto pensando muito mais nos meus colegas aos 16 do que em mim mesma nessa mesma época.
Eu só sei que aos 16 eu era a pessoa mais sábia do mundo, só isso... Pena que eu perdi essa proeza...

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Na ansiedade...

O que faz com que erremos é a nossa pretensão de ser perfeitos. Cada passo tem que que ser dado de uma vez. A calma é fruto do auto-conhecimento. Quanto mais profundo o mergulho dentro de si mesmo, menor a necessidade de “parecer” ao externo.
É inútil buscar causas externas quando as conseqüências agem diretamente sobre nós. Se geramos as conseqüências, geramos as causas. Para cada ação há uma reação e tudo o que você fizer agora, irá ficar marcado para o resto de sua vida.
Não existe o que chamamos de fracasso. Através de nossos erros aprendemos a fazer o que é certo. Nunca olhe em direção ao passado para lhe dizer como será o futuro. Você não é a mesma pessoa que era na época, e essa não é a mesma situação. O futuro é apenas um sistema de probabilidades. Tudo é agora.
E outra, muitas vezes, as lições mais importantes surgem dos tempos mais difíceis. Todos nós sofremos muito para entender que nada é para sempre, que a vida pode a qualquer momento modificar todas as situações ao nosso redor sem que possamos prever.
A vida é professora generosa para quem deseja aprender, mas precisamos reconhecer os erros para transformá-los em acertos.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Apenas uma carta


Querido Filipi

Há dois anos deste dia nos reencontramos e há mais de dois séculos estamos distantes. Você partiu de mim, de nós e gostaria de tê-lo visto uma última vez, de poder olhar nos seus olhos e lhe dizer coisas que não sei contar numa carta. Nada saiu como havíamos planejado. Eu o conheço bem demais e sei que você nem sequer me fará perceber que leu isso. Sei que já me odiou por não ter cumprido certas promessas, que pensa que lhe falhei, que menti.
Que saudade de você... Que saudade do que a gente era... do que a gente foi. E sinto, ainda é, sem saber...
Tantas vezes imaginei você sozinho naquele quarto, convencido de que eu o havia traído. Muitas vezes tentei encontrá-lo através de conhecidos seus, mas nenhum deles conhecia o verdadeiro Filipi, aquele menino que tive a honra e o prazer de deixar entrar na minha vida em 29 de novembro de 2008. Temo que ele não exista mais.
Que mentiras lhe contaram, Filipi? O que disseram sobre mim? Por que você acreditou neles?
Agora sei que o perdi, que perdi tudo. E ainda assim não posso deixar você partir para sempre e me esquecer sem que saiba que não lhe guardo rancor, que eu sabia desde o começo, sabia que ia perdê-lo e que você jamais veria em mim o que eu vi em você. Quero que você saiba, embora possa incomodá-lo saber, que amei você desde o primeiro dia, e que continuo amando, agora mais do que nunca. Que a maior dor na minha vida é conviver com esse erro que não tem volta; com essa culpa que não cala e essa saudade que o chama... Que antes de lhe amar como a um homem, lhe amei como um menino, como uma criança que precisa da mãe e, acima de tudo, como uma pessoa, o ser humano maravilhoso que você é...
Não sei se minhas palavras chegarão a você. Há tantas coisas que não posso lhe contar. Coisas que nunca soubemos e que é melhor que você não saiba nunca.
Peço desculpas por todos os momentos que decepcionei você, por cada momento que deixei de dar a compreensão que você merecia. Peço desculpas por todos os momentos que fui egoísta e incapaz de ver suas necessidades. Sempre amei você, Filipi, mas, muitas vezes, eu o decepcionei. Peço desculpas por todos esses momentos e agradeço a você por me fazer sentir mais forte do que eu era, mais sábia do que eu era, mais capaz do que eu era. Obrigada, Lipi, por agraciar minha vida com sua adorável presença, por acrescentar a doce medida de sua alma à minha existência.
Não desejo outra coisa neste mundo senão a sua felicidade. Que tudo que você desejar se torne realidade e que, mesmo que com o tempo você me esqueça, possa algum dia compreender o quanto o amei.
Para sempre,
Phoenix.

De mágoas passadas

Mágoas? Involuntárias.
Mágoa de você ter dito o que me disse a outras/os. Ignorando meu afeto, desprezando suas promessas.
Mágoa de você ter confiado coisas tão importantes a outrens, pouco ligando ao que eu sentia/ sinto.
Mágoa de você não ter perdoado, não ter tentado voltar, nunca ter me procurado.
Se sinto orgulho, não sei, mas algo em mim foi destruído. Talvez, meu amor próprio. Eu me humilhei tantas vezes. Corri atrás de você, acessei seus amigos, fiz homenagens.
Mas, sinto vergonha. Vergonha de tantas lutas em vão, de tantos sonhos tolos, da fé na lúdica imaginação.
Vergonha de ter por prioridade quem sequer me tinha por opção.
Vergonha de aceitar minha humilhação, passando por cima de meus valores, da minha auto-estima, do meu VALOR. Por você, ignorei minhas virtudes e só vi meu desvalor. Ignorei o meu bem e ressaltei o meu mal. Mergulhei fundo em mim e descobri meu melhor lado: o amor sublime, o bem querer, o afeto, o carinho... amparado pelo pior: o ciúme, a raiva, o ódio, a posse, o medo...
Mágoa de você não olhar pra mim. Não pensar em mim. Desprezar tudo o que eu fiz e faço por você.
Mágoa por não ter lutado por nós. Não ter acreditado em nós. Não ter nos dado mais uma chance.
Mágoa porque a sua mágoa é tão lancinante quanto a minha. Mas, você conseguiu superá-la/ enterrá-la/ suplantá-la/ vencê-la... E tornar essa dor num nada que nunca mais tornou a minha presença à sua memória... E quanto a mim, ainda sigo “te amando”, pensando em você, orando, perdoando, querendo saber... Tentando não valorizar as desfeitas que faz com meu coração...
Queria muito olhar nos seus olhos pra descobrir o que sentiria.

Você nunca me amou


Você nunca me amou.
Quem ama, perdoa.
Quem ama, esquece.
O que você chamou de amor foi uma cegueira mútua
Que anuviou o meu coração e o seu.
Eu nunca tive a intenção de te machucar
Eu acreditei piamente que ficaria tudo bem
E, oh, Deus!, eu juro
Como eu sinto falta dos nossos dias!
Mas foi tudo ilusão
Tudo aconteceu apenas na minha cabeça
E no meu coração...
Desejo, de verdade, que você seja feliz
Que encontre alguém que saiba te amar
E desse momento em diante, não sem dor, eu te liberto
Liberto do passado e do futuro
Que afinal temos só o presente
E nunca o tivemos.

domingo, 28 de novembro de 2010

Traição

Traição é sentir algo e fazer outro.

Traição não é apenas o significado etimológico que conhecemos.
Traição é ser o último a saber.
Traição é não confiarem em você.
Traição é quem dizia ser seu amigo ter podido te poupar e não tê-lo feito.
Traição é não te cumprirem uma promessa.
Não respeitarem o que te disseram.
Não terminar e não dar continuidade a alguma coisa, te deixando no vácuo.
Traição é não terem a dignidade de se despedir de você. É achar que o afastamento é mais fácil.
Traição é sentir algo e fazer outro.
É ter sentimento infinito por alguém, e demonstrá-lo como se fosse por terceiro, só para magoar. Isso é bem pior porque caracteriza traição a si mesmo. Já dizia Shakespeare que, acima de tudo, seja fiel a você.
Traição é não dizer a verdade, seja por mentira, seja por omissão.
Traição é beijar uma boca pensando em outra.
O sentimento de ser traído em relações amorosas e de amizade ou em qualquer uma das situações descritas é o mesmo. É traição.

sábado, 27 de novembro de 2010

O Natal de Pão-de-ló



A vitrina de brinquedos estava toda iluminada, cheia de motivos natalinos. Havia desenhos ilustrativos de Papais Noéis e era assim que Pão-de-ló tomava consciência da proximidade do Natal. Vivendo sozinho no mundo, sem família e sem dinheiro, usava de sua astúcia e esperteza para se virar nas ruas. Era um menino bonito, que não acreditava em Papai Noel, visto que seus desejos tão simples nunca eram atendidos por ninguém. Sonhava apenas ter um lar, onde, na sala, a família reunisse em torno da árvore gigante com pisca-pisca e um abraço no dia de Natal. Para falar a verdade, Pão-de-ló não sabia bem o que era o Natal. Imaginava que devia ser importante, afinal, as pessoas saíam das lojas muito mais carregadas de sacolas, depois ouvia os fogos de artifício e os comerciais das tvs das lojas no centro mostravam as famílias em torno de uma mesa com um suculento peru dourado, as crianças lambuzadas de chocolate ganhando enormes presentes com fita e tudo...
Uma madame e sua filha pararam ao lado de Pão-de-ló olhar a vitrina e o despertaram de seus pensamentos...
- Olha, mãe! A Barbie emo. Compra pra mim?
- Mas você já tem a Suzi punk! É igualzinha...
- Não, mãe, nada a ver. A roupa é diferente, eu quero aquela!
- Mas é praticamente a mesma coisa, filha.
- Quero aquela, mãe! Se não me der vou chorar alto pra todo mundo ver que não gosta de mim!
- Não, meu amor, não chore. Mamãe compra a boneca, vamos lá dentro pra você escolher.
- Também quero a coleção das RBD, aquela cozinha cor-de-rosa, a pinturinha...
- Vamos entrar, senão não lembro tudo...
- E os patins, ai, mãe!, olha aquele ursinho...
Pão-de-ló ficou olhando as duas entrarem na loja. As luzinhas a piscar não tinham o mesmo brilho que seus olhos. Nessa hora, um pai com seu filho de nove anos também estacaram ao seu lado na vitrina e o menino pôs-se a fazer conjecturas animado:
- Pai, posso escolher?
- Pode, filho. Olhe bem os brinquedos e escolha seu presente de Natal.
O menino meditou em observar os carrinhos; tinha de bombeiros, do exército; tinha uns que pareciam de verdade.
Depois, deixou-se seduzir por um avião que tinha visto na TV. E a bicicleta? Reluzindo sua novidade nos olhos de tantos amigos que o garoto podia ver...? Por fim, decidiu-se ainda pelo avião, pois morava em apartamento e para andar de bicicleta na rua o pai achava perigoso. O genitor contou as poucas notas na carteira, viu que não dava e entrou suspirando para fazer o crediário.
De dentro da loja, saiu um Papai Noel cansado a tocar um sininho mixuruca, cantando com desânimo um jingle repetitivo que tentava chamar mais clientes à loja.
A mãe e a filha saíram carregadas de pacotes, reclamando do calor.
- Então vamos tomar sorvete.
- Com todas essas compras? Nunca!
- Então eu vou chorar...
- Não, filhinha. Não chora. Colocamos os pacotes no carro e vamos à sorveteria, tudo bem? Só me ajude aqui.
- Eu não. Pede pr’aquele moleque encardido – e apontou Pão-de-ló.
A mãe dirigiu-se ao menino sem indelicadezas, e ele propôs-se a ajudar na mesma hora. Foi pegar alguns pacotes, mas a mulher depositou todos em suas mãos, enquanto o Papai Noel com seu ar desbotado permanecia a olhar a cena.
No mesmo momento que o pai sai da loja com o filho todo feliz com o avião nas mãos, “65 por mês em 12x, aluguel, telefone, luz, gás...”, absorto em suas contas; Pão-de-ló retornou pisando fundo e recebeu um olhar do Papai Noel.
- Defendeu algum? – e fez gesto de grana com os dedos.
- Não – Pão-de-ló fez um beiço de injustiçado. – Disse que não tinha trocado. Só tinha 2 reais e não é bom dar muito dinheiro pra criança. Vadia! Dois reais, muito? Não dá pra comprar um pirulito! Mas me desejou Feliz Natal... Disse que vai rezar por mim... – olhou a vitrina com os olhos marejados e a raiva lhe tomou conta. – Droga!
Penalizado, o Papai Noel apenas continuou sua cantilena.

Mais tarde, à noite, sob o viaduto, Pão-de-ló desviava-se dos corpos de outras pessoas que como ele não tinham onde passar a noite.
Chegou no seu canto, espalhou um pedaço de jornal e deitou. Pão-de-ló sentia-se mal humorado e triste. Triste e sozinho. Começou a chorar devagarinho, sem ruído, o coraçãozinho doendo. Imaginava uma mãezinha a enxugar-lhe a lágrima, o que já o consolaria, pois teria a certeza de ter alguém por ele. Mas não tinha. Ao longe, tocava “Merry Christmas”, ele nem sabia o que aquela canção bonita dizia, só sentia sua solidão aumentar e o rosto molhar mais.
O Papai Noel da loja, sem a barba e a roupa, a aparência um tanto que desleixada, também procurava seu lugar sob o viaduto. Postando-se ao lado de Pão-de-ló, que estava de costas para ele, esparramou-se.
- Oi, amiguinho.
- Me deixa – o garoto não olhou.
- Desculpa, amiguinho. Não queria te incomodar. Trouxe uma coisa pra ti – e colocou ao lado dele um caminhãozinho de madeira. – Fiz com um caixote que a fruteira jogou fora.
O menino sequer olhou o presente, ainda imerso na sua tristeza.
- Eu era marceneiro – continuou o Papai Noel. – Fazia brinquedos o ano inteiro para uma fábrica, que fazia comércio principalmente no Natal. Mas hoje em dia é uma pena, as crianças não gostam mais de brinquedos de madeira, só desses a pilha que brincam sozinhos, os que a televisão mostra. Hoje me deu vontade de fazer um brinquedo e dar a uma pessoa que se sentisse sozinha, assim como eu estou.
Acariciou o cabelo de Pão-de-ló, que bancando o durão resistiu num primeiro momento, até entregar-se à companhia e se deter a examinar o brinquedo.
- Mas aqui debaixo da ponte tem um montão de crianças sozinhas... – expressou-se Pão-de-ló tentando adivinhar porque havia sido escolhido entre tantos.
- Pois é... Mas você é um menino de bom coração. Se me ajudasse, a gente podia conseguir mais caixotes e fazer um brinquedo para cada um deles... – o Papai Noel revelou algum entusiasmo. – Depois, a gente podia cantar, acender velas... Ia pra árvore gigante na praça e festejava nosso Natal... O que acha? – olhou o garoto com um sorriso de bondade, que animou Pão-de-ló.
- Pode contar comigo!
- Então vamos catar coisas pelas ruas pra fazer os presentes!
Com o caminhãozinho na mão, Pão-de-ló deteve o Papai Noel antes que saíssem para lhe dar um abraço.
E assim saíram. Pareceu a Pão-de-ló que o Menino Jesus do presépio ali perto estava mais parecido com ele agora. Não entendeu porquê, mas sorriu.
- Esse vai ser meu primeiro Natal de verdade.    

* Conto vencedor do Concurso Nacional de Narrativas de Natal de Dois Irmãos - RS, 2008.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Incessante busca



Buscamos tantas pessoas
ao longo da vida
para no final constatar
entre a dúvida e a certeza
entre o riso e a lágrima
que o que buscávamos o tempo todo
não se poderia em lugar algum encontrar
pois se trata
da gente mesma.

Faça uma loucura hoje

Compre aquele lápis aquarela que você sempre quis na infância e não pôde ter.

Veja para realizar aquela viagem que vem adiando há tempos.

Ligue para alguém com quem está brigado e peça desculpas.

Visite uma pessoa que há muito não vê.

Vá até um asilo, um orfanato, converse, conte histórias, ouça.

Dê um abraço apertado em quem estiver ao seu lado.

Sorria a um estranho.

Dê um presente para alguém que você gosta.

Mande flores.

Envie um e-mail para alguém que está distante.

Escreva uma poesia.

Componha uma música.

Faça uma peça de crochê.

Tome um banho de chuva.

Invente uma receita diferente.

Cante bem alto com o rádio.

O que vale realmente a pena na vida são os pequenos momentos que passamos com aqueles que amamos; os sentimentos compartilhados; surpreender... Pois, cada dia é único e você pode não ter outra oportunidade de fazer esses pequenos gestos.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Se desse pra rebobinar...

Eu não queria que você visse aquele dia que tinha uma aranha na minha gaveta e eu sussurrava: “Senhor, senhor!” (hahaha)

Eu não queria que você visse as historinhas fantásticas que faço na minha cabeça, em que você é sempre meu protagonista.

Eu não queria que você visse o dia em que segurei sua foto contra o peito, quase chorando, me detendo para não rasgá-la...

Eu não queria que você visse as coisas horríveis que escrevi sobre você quando estava com raiva...

Eu queria que você visse aquela noite que dormi “te abraçando”...

Eu queria que você visse onde estava a minha mente em todas aquelas aulas chatas, e até nas legais...

Eu queria que você visse aquela surpresa que planejei te fazer e nunca deu certo...

Eu queria que você visse que, nas festas, mesmo cercada de gente, eu estou sempre sozinha...

Eu queria que você visse como disfarço para não chorar quando toca aquela música na minha playlist e eu estou em público...

Eu queria que você visse com quem está meu coração a maior parte do meu dia...

Eu queria que você visse...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pedaços de mim

Quem ficou com pedaços de mim?
Quem ficou com as fotos daquele acampamento da oitava série? Era 10 de dezembro, estávamos muito felizes; lembro que a gente tomou banho de lama, pulou na cama elástica; alguns andaram a cavalo e fizemos muita bagunça! A Branchini chamava o cara da cantina de “tio” e ele a chamava de sobrinha; o Daniel matou uma cobra a pauladas e mostrou o pau; Micael fez com que eu sujasse minha calça branca e os meninos balançavam a pontezinha quando íamos passar.
Onde está o vídeo que aquela profe fez quando eu tinha sete anos? Ela passou de sala em sala e nos filmou recebendo presentinhos de Páscoa; nunca tive acesso àquelas imagens depois que tinha discernimento para lembrá-las. São pedaços de mim que não voltam mais. Em tempos de câmeras analógicas, muitas partes nossas ficavam pelo caminho. Não só em fotos e vídeos, mas também os amigos e colegas com os quais não trocamos contato, que ficaram registrados apenas em nossas memórias, sem o ônus da figura timbrada em papel ou película. Pedaços seus que você se pergunta aonde estarão, o que terão feito da vida; aquele amigo inseparável do ensino fundamental; aquele coleguinha foliento da terceira série; aquela professora que você tanto gostava, mas que saiu da escola antes de o ano acabar; as fotos daquela festa em sala de aula no dia das crianças; o filme daquela excursão em que você só tinha oito anos; aquele garoto fofíssimo por quem você se apaixonou na quarta série; aquela menina que perdeu a mãe durante o ano letivo... E tudo isso faz tanto tempo... Onde estarão tantos pedacinhos que comporam a minha história e tantas...?
Quem ficou com pedaços de mim?