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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

sábado, 23 de outubro de 2010

A lição do passarinho


Estava sentada em uma escada no campus, confrontando com natureza deslumbrante. Sabe um desses dias perfeitos em que a vida parece sorrir?
Minha cabeça, entretanto, estava longe. Pensava em dores, perdas e amores; poderia mesmo dizer que não pensava em nada ao certo, pois era incapaz de vigiar qualquer pensamento com precisão.
De repente, pousa um passarinho no corrimão e diz:
- Olá, humana.
- Oi – disse timidamente e ainda distante.
- No que pensas?
- Como? – retribuí, confusa.
- Você. Por que está com essa cara de bunda?
- Você é um passarinho muito desbicado – eu disse.
- É que não entendo os humanos – tornou ele, refletindo.
- Por quê? – foi a minha vez de inquirir.
- São muito estranhos – ele foi reticente.
- Gostaria de ouvir mais.
Então, suspirando, tirou um oclinhos de debaixo da asa e pôs-se a filosofar.
- Todos os dias, humana, vejo dezenas de garotos como você. Eles são lindos, são inteligentes, tem tudo que um humano pode querer, mas ficam sentados pelas escadas pensando no que lhes falta. Eles colocam na expressão o olhar mais distante e passam mesmo horas observando todo esse verde. Eu queria saber o que tanto eles pensam.
- Ora, amigo pássaro, isso a que se referiu, beleza, inteligência, dinheiro e juventude, mesmo quando reunidos, não nos podem trazer felicidade. Existem muito mais coisas, e essas – eu disse lhe olhando nos olhos, para que pudesse sentir minha alma na fala – o dinheiro não pode comprar.
- Mas, se minhas parentas cacatuas falam que é pelo tal dinheiro que fazem guerras, queimam nosso habitát e matam nossos irmãos...
- Isso é fruto de mentes doentes, mas nem todos são assim... – lamentei.
- De qualquer forma, garota humana, ainda não vejo razões para a sua tristeza. Você estuda, tem casa, e ainda uma paisagem linda para olhar quando sai da aula e resolve sentar na escada.
- Lamento o que não tenho.
- Então, veja bem. Eu acordo muito cedo e vou procurar alimento aos meus filhotes. Muitas vezes, tenho vontade de comer, mas se não há suficiente para todos, eu alimento apenas eles. Às vezes, é necessário atravessar grandes distâncias, correndo o risco de não voltar ou de perdê-los. Passo o dia nessa busca. Quando vejo, a noite já vem caindo e precisamos nos recolher, para no dia seguinte, recomeçar tudo outra vez. Como é o seu dia?
Envergonhada, contornei:
- De fato, talvez devesse passar menos tempo lembrando do que me falta e agradecendo o que me é dado... Mas, não é assim tão fácil. Como posso aprender isso?
Preparando-se para levantar vôo, ele me ensinou:
- A próxima vez que pensar em desistir, lembre de mim, que tenho muito menos tempo para viver que você, e ainda assim, aproveito cada minuto. Lembre que ter não é tão importante quanto ser e que, somente o céu é o limite.
Depois disso, ele se foi. Observei-o até tomar distância, sabendo que sua lição ficaria para sempre.

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