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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

sábado, 27 de novembro de 2010

O Natal de Pão-de-ló



A vitrina de brinquedos estava toda iluminada, cheia de motivos natalinos. Havia desenhos ilustrativos de Papais Noéis e era assim que Pão-de-ló tomava consciência da proximidade do Natal. Vivendo sozinho no mundo, sem família e sem dinheiro, usava de sua astúcia e esperteza para se virar nas ruas. Era um menino bonito, que não acreditava em Papai Noel, visto que seus desejos tão simples nunca eram atendidos por ninguém. Sonhava apenas ter um lar, onde, na sala, a família reunisse em torno da árvore gigante com pisca-pisca e um abraço no dia de Natal. Para falar a verdade, Pão-de-ló não sabia bem o que era o Natal. Imaginava que devia ser importante, afinal, as pessoas saíam das lojas muito mais carregadas de sacolas, depois ouvia os fogos de artifício e os comerciais das tvs das lojas no centro mostravam as famílias em torno de uma mesa com um suculento peru dourado, as crianças lambuzadas de chocolate ganhando enormes presentes com fita e tudo...
Uma madame e sua filha pararam ao lado de Pão-de-ló olhar a vitrina e o despertaram de seus pensamentos...
- Olha, mãe! A Barbie emo. Compra pra mim?
- Mas você já tem a Suzi punk! É igualzinha...
- Não, mãe, nada a ver. A roupa é diferente, eu quero aquela!
- Mas é praticamente a mesma coisa, filha.
- Quero aquela, mãe! Se não me der vou chorar alto pra todo mundo ver que não gosta de mim!
- Não, meu amor, não chore. Mamãe compra a boneca, vamos lá dentro pra você escolher.
- Também quero a coleção das RBD, aquela cozinha cor-de-rosa, a pinturinha...
- Vamos entrar, senão não lembro tudo...
- E os patins, ai, mãe!, olha aquele ursinho...
Pão-de-ló ficou olhando as duas entrarem na loja. As luzinhas a piscar não tinham o mesmo brilho que seus olhos. Nessa hora, um pai com seu filho de nove anos também estacaram ao seu lado na vitrina e o menino pôs-se a fazer conjecturas animado:
- Pai, posso escolher?
- Pode, filho. Olhe bem os brinquedos e escolha seu presente de Natal.
O menino meditou em observar os carrinhos; tinha de bombeiros, do exército; tinha uns que pareciam de verdade.
Depois, deixou-se seduzir por um avião que tinha visto na TV. E a bicicleta? Reluzindo sua novidade nos olhos de tantos amigos que o garoto podia ver...? Por fim, decidiu-se ainda pelo avião, pois morava em apartamento e para andar de bicicleta na rua o pai achava perigoso. O genitor contou as poucas notas na carteira, viu que não dava e entrou suspirando para fazer o crediário.
De dentro da loja, saiu um Papai Noel cansado a tocar um sininho mixuruca, cantando com desânimo um jingle repetitivo que tentava chamar mais clientes à loja.
A mãe e a filha saíram carregadas de pacotes, reclamando do calor.
- Então vamos tomar sorvete.
- Com todas essas compras? Nunca!
- Então eu vou chorar...
- Não, filhinha. Não chora. Colocamos os pacotes no carro e vamos à sorveteria, tudo bem? Só me ajude aqui.
- Eu não. Pede pr’aquele moleque encardido – e apontou Pão-de-ló.
A mãe dirigiu-se ao menino sem indelicadezas, e ele propôs-se a ajudar na mesma hora. Foi pegar alguns pacotes, mas a mulher depositou todos em suas mãos, enquanto o Papai Noel com seu ar desbotado permanecia a olhar a cena.
No mesmo momento que o pai sai da loja com o filho todo feliz com o avião nas mãos, “65 por mês em 12x, aluguel, telefone, luz, gás...”, absorto em suas contas; Pão-de-ló retornou pisando fundo e recebeu um olhar do Papai Noel.
- Defendeu algum? – e fez gesto de grana com os dedos.
- Não – Pão-de-ló fez um beiço de injustiçado. – Disse que não tinha trocado. Só tinha 2 reais e não é bom dar muito dinheiro pra criança. Vadia! Dois reais, muito? Não dá pra comprar um pirulito! Mas me desejou Feliz Natal... Disse que vai rezar por mim... – olhou a vitrina com os olhos marejados e a raiva lhe tomou conta. – Droga!
Penalizado, o Papai Noel apenas continuou sua cantilena.

Mais tarde, à noite, sob o viaduto, Pão-de-ló desviava-se dos corpos de outras pessoas que como ele não tinham onde passar a noite.
Chegou no seu canto, espalhou um pedaço de jornal e deitou. Pão-de-ló sentia-se mal humorado e triste. Triste e sozinho. Começou a chorar devagarinho, sem ruído, o coraçãozinho doendo. Imaginava uma mãezinha a enxugar-lhe a lágrima, o que já o consolaria, pois teria a certeza de ter alguém por ele. Mas não tinha. Ao longe, tocava “Merry Christmas”, ele nem sabia o que aquela canção bonita dizia, só sentia sua solidão aumentar e o rosto molhar mais.
O Papai Noel da loja, sem a barba e a roupa, a aparência um tanto que desleixada, também procurava seu lugar sob o viaduto. Postando-se ao lado de Pão-de-ló, que estava de costas para ele, esparramou-se.
- Oi, amiguinho.
- Me deixa – o garoto não olhou.
- Desculpa, amiguinho. Não queria te incomodar. Trouxe uma coisa pra ti – e colocou ao lado dele um caminhãozinho de madeira. – Fiz com um caixote que a fruteira jogou fora.
O menino sequer olhou o presente, ainda imerso na sua tristeza.
- Eu era marceneiro – continuou o Papai Noel. – Fazia brinquedos o ano inteiro para uma fábrica, que fazia comércio principalmente no Natal. Mas hoje em dia é uma pena, as crianças não gostam mais de brinquedos de madeira, só desses a pilha que brincam sozinhos, os que a televisão mostra. Hoje me deu vontade de fazer um brinquedo e dar a uma pessoa que se sentisse sozinha, assim como eu estou.
Acariciou o cabelo de Pão-de-ló, que bancando o durão resistiu num primeiro momento, até entregar-se à companhia e se deter a examinar o brinquedo.
- Mas aqui debaixo da ponte tem um montão de crianças sozinhas... – expressou-se Pão-de-ló tentando adivinhar porque havia sido escolhido entre tantos.
- Pois é... Mas você é um menino de bom coração. Se me ajudasse, a gente podia conseguir mais caixotes e fazer um brinquedo para cada um deles... – o Papai Noel revelou algum entusiasmo. – Depois, a gente podia cantar, acender velas... Ia pra árvore gigante na praça e festejava nosso Natal... O que acha? – olhou o garoto com um sorriso de bondade, que animou Pão-de-ló.
- Pode contar comigo!
- Então vamos catar coisas pelas ruas pra fazer os presentes!
Com o caminhãozinho na mão, Pão-de-ló deteve o Papai Noel antes que saíssem para lhe dar um abraço.
E assim saíram. Pareceu a Pão-de-ló que o Menino Jesus do presépio ali perto estava mais parecido com ele agora. Não entendeu porquê, mas sorriu.
- Esse vai ser meu primeiro Natal de verdade.    

* Conto vencedor do Concurso Nacional de Narrativas de Natal de Dois Irmãos - RS, 2008.

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