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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Apenas uma carta


Querido Filipi

Há dois anos deste dia nos reencontramos e há mais de dois séculos estamos distantes. Você partiu de mim, de nós e gostaria de tê-lo visto uma última vez, de poder olhar nos seus olhos e lhe dizer coisas que não sei contar numa carta. Nada saiu como havíamos planejado. Eu o conheço bem demais e sei que você nem sequer me fará perceber que leu isso. Sei que já me odiou por não ter cumprido certas promessas, que pensa que lhe falhei, que menti.
Que saudade de você... Que saudade do que a gente era... do que a gente foi. E sinto, ainda é, sem saber...
Tantas vezes imaginei você sozinho naquele quarto, convencido de que eu o havia traído. Muitas vezes tentei encontrá-lo através de conhecidos seus, mas nenhum deles conhecia o verdadeiro Filipi, aquele menino que tive a honra e o prazer de deixar entrar na minha vida em 29 de novembro de 2008. Temo que ele não exista mais.
Que mentiras lhe contaram, Filipi? O que disseram sobre mim? Por que você acreditou neles?
Agora sei que o perdi, que perdi tudo. E ainda assim não posso deixar você partir para sempre e me esquecer sem que saiba que não lhe guardo rancor, que eu sabia desde o começo, sabia que ia perdê-lo e que você jamais veria em mim o que eu vi em você. Quero que você saiba, embora possa incomodá-lo saber, que amei você desde o primeiro dia, e que continuo amando, agora mais do que nunca. Que a maior dor na minha vida é conviver com esse erro que não tem volta; com essa culpa que não cala e essa saudade que o chama... Que antes de lhe amar como a um homem, lhe amei como um menino, como uma criança que precisa da mãe e, acima de tudo, como uma pessoa, o ser humano maravilhoso que você é...
Não sei se minhas palavras chegarão a você. Há tantas coisas que não posso lhe contar. Coisas que nunca soubemos e que é melhor que você não saiba nunca.
Peço desculpas por todos os momentos que decepcionei você, por cada momento que deixei de dar a compreensão que você merecia. Peço desculpas por todos os momentos que fui egoísta e incapaz de ver suas necessidades. Sempre amei você, Filipi, mas, muitas vezes, eu o decepcionei. Peço desculpas por todos esses momentos e agradeço a você por me fazer sentir mais forte do que eu era, mais sábia do que eu era, mais capaz do que eu era. Obrigada, Lipi, por agraciar minha vida com sua adorável presença, por acrescentar a doce medida de sua alma à minha existência.
Não desejo outra coisa neste mundo senão a sua felicidade. Que tudo que você desejar se torne realidade e que, mesmo que com o tempo você me esqueça, possa algum dia compreender o quanto o amei.
Para sempre,
Phoenix.

De mágoas passadas

Mágoas? Involuntárias.
Mágoa de você ter dito o que me disse a outras/os. Ignorando meu afeto, desprezando suas promessas.
Mágoa de você ter confiado coisas tão importantes a outrens, pouco ligando ao que eu sentia/ sinto.
Mágoa de você não ter perdoado, não ter tentado voltar, nunca ter me procurado.
Se sinto orgulho, não sei, mas algo em mim foi destruído. Talvez, meu amor próprio. Eu me humilhei tantas vezes. Corri atrás de você, acessei seus amigos, fiz homenagens.
Mas, sinto vergonha. Vergonha de tantas lutas em vão, de tantos sonhos tolos, da fé na lúdica imaginação.
Vergonha de ter por prioridade quem sequer me tinha por opção.
Vergonha de aceitar minha humilhação, passando por cima de meus valores, da minha auto-estima, do meu VALOR. Por você, ignorei minhas virtudes e só vi meu desvalor. Ignorei o meu bem e ressaltei o meu mal. Mergulhei fundo em mim e descobri meu melhor lado: o amor sublime, o bem querer, o afeto, o carinho... amparado pelo pior: o ciúme, a raiva, o ódio, a posse, o medo...
Mágoa de você não olhar pra mim. Não pensar em mim. Desprezar tudo o que eu fiz e faço por você.
Mágoa por não ter lutado por nós. Não ter acreditado em nós. Não ter nos dado mais uma chance.
Mágoa porque a sua mágoa é tão lancinante quanto a minha. Mas, você conseguiu superá-la/ enterrá-la/ suplantá-la/ vencê-la... E tornar essa dor num nada que nunca mais tornou a minha presença à sua memória... E quanto a mim, ainda sigo “te amando”, pensando em você, orando, perdoando, querendo saber... Tentando não valorizar as desfeitas que faz com meu coração...
Queria muito olhar nos seus olhos pra descobrir o que sentiria.

Você nunca me amou


Você nunca me amou.
Quem ama, perdoa.
Quem ama, esquece.
O que você chamou de amor foi uma cegueira mútua
Que anuviou o meu coração e o seu.
Eu nunca tive a intenção de te machucar
Eu acreditei piamente que ficaria tudo bem
E, oh, Deus!, eu juro
Como eu sinto falta dos nossos dias!
Mas foi tudo ilusão
Tudo aconteceu apenas na minha cabeça
E no meu coração...
Desejo, de verdade, que você seja feliz
Que encontre alguém que saiba te amar
E desse momento em diante, não sem dor, eu te liberto
Liberto do passado e do futuro
Que afinal temos só o presente
E nunca o tivemos.

domingo, 28 de novembro de 2010

Traição

Traição é sentir algo e fazer outro.

Traição não é apenas o significado etimológico que conhecemos.
Traição é ser o último a saber.
Traição é não confiarem em você.
Traição é quem dizia ser seu amigo ter podido te poupar e não tê-lo feito.
Traição é não te cumprirem uma promessa.
Não respeitarem o que te disseram.
Não terminar e não dar continuidade a alguma coisa, te deixando no vácuo.
Traição é não terem a dignidade de se despedir de você. É achar que o afastamento é mais fácil.
Traição é sentir algo e fazer outro.
É ter sentimento infinito por alguém, e demonstrá-lo como se fosse por terceiro, só para magoar. Isso é bem pior porque caracteriza traição a si mesmo. Já dizia Shakespeare que, acima de tudo, seja fiel a você.
Traição é não dizer a verdade, seja por mentira, seja por omissão.
Traição é beijar uma boca pensando em outra.
O sentimento de ser traído em relações amorosas e de amizade ou em qualquer uma das situações descritas é o mesmo. É traição.

sábado, 27 de novembro de 2010

O Natal de Pão-de-ló



A vitrina de brinquedos estava toda iluminada, cheia de motivos natalinos. Havia desenhos ilustrativos de Papais Noéis e era assim que Pão-de-ló tomava consciência da proximidade do Natal. Vivendo sozinho no mundo, sem família e sem dinheiro, usava de sua astúcia e esperteza para se virar nas ruas. Era um menino bonito, que não acreditava em Papai Noel, visto que seus desejos tão simples nunca eram atendidos por ninguém. Sonhava apenas ter um lar, onde, na sala, a família reunisse em torno da árvore gigante com pisca-pisca e um abraço no dia de Natal. Para falar a verdade, Pão-de-ló não sabia bem o que era o Natal. Imaginava que devia ser importante, afinal, as pessoas saíam das lojas muito mais carregadas de sacolas, depois ouvia os fogos de artifício e os comerciais das tvs das lojas no centro mostravam as famílias em torno de uma mesa com um suculento peru dourado, as crianças lambuzadas de chocolate ganhando enormes presentes com fita e tudo...
Uma madame e sua filha pararam ao lado de Pão-de-ló olhar a vitrina e o despertaram de seus pensamentos...
- Olha, mãe! A Barbie emo. Compra pra mim?
- Mas você já tem a Suzi punk! É igualzinha...
- Não, mãe, nada a ver. A roupa é diferente, eu quero aquela!
- Mas é praticamente a mesma coisa, filha.
- Quero aquela, mãe! Se não me der vou chorar alto pra todo mundo ver que não gosta de mim!
- Não, meu amor, não chore. Mamãe compra a boneca, vamos lá dentro pra você escolher.
- Também quero a coleção das RBD, aquela cozinha cor-de-rosa, a pinturinha...
- Vamos entrar, senão não lembro tudo...
- E os patins, ai, mãe!, olha aquele ursinho...
Pão-de-ló ficou olhando as duas entrarem na loja. As luzinhas a piscar não tinham o mesmo brilho que seus olhos. Nessa hora, um pai com seu filho de nove anos também estacaram ao seu lado na vitrina e o menino pôs-se a fazer conjecturas animado:
- Pai, posso escolher?
- Pode, filho. Olhe bem os brinquedos e escolha seu presente de Natal.
O menino meditou em observar os carrinhos; tinha de bombeiros, do exército; tinha uns que pareciam de verdade.
Depois, deixou-se seduzir por um avião que tinha visto na TV. E a bicicleta? Reluzindo sua novidade nos olhos de tantos amigos que o garoto podia ver...? Por fim, decidiu-se ainda pelo avião, pois morava em apartamento e para andar de bicicleta na rua o pai achava perigoso. O genitor contou as poucas notas na carteira, viu que não dava e entrou suspirando para fazer o crediário.
De dentro da loja, saiu um Papai Noel cansado a tocar um sininho mixuruca, cantando com desânimo um jingle repetitivo que tentava chamar mais clientes à loja.
A mãe e a filha saíram carregadas de pacotes, reclamando do calor.
- Então vamos tomar sorvete.
- Com todas essas compras? Nunca!
- Então eu vou chorar...
- Não, filhinha. Não chora. Colocamos os pacotes no carro e vamos à sorveteria, tudo bem? Só me ajude aqui.
- Eu não. Pede pr’aquele moleque encardido – e apontou Pão-de-ló.
A mãe dirigiu-se ao menino sem indelicadezas, e ele propôs-se a ajudar na mesma hora. Foi pegar alguns pacotes, mas a mulher depositou todos em suas mãos, enquanto o Papai Noel com seu ar desbotado permanecia a olhar a cena.
No mesmo momento que o pai sai da loja com o filho todo feliz com o avião nas mãos, “65 por mês em 12x, aluguel, telefone, luz, gás...”, absorto em suas contas; Pão-de-ló retornou pisando fundo e recebeu um olhar do Papai Noel.
- Defendeu algum? – e fez gesto de grana com os dedos.
- Não – Pão-de-ló fez um beiço de injustiçado. – Disse que não tinha trocado. Só tinha 2 reais e não é bom dar muito dinheiro pra criança. Vadia! Dois reais, muito? Não dá pra comprar um pirulito! Mas me desejou Feliz Natal... Disse que vai rezar por mim... – olhou a vitrina com os olhos marejados e a raiva lhe tomou conta. – Droga!
Penalizado, o Papai Noel apenas continuou sua cantilena.

Mais tarde, à noite, sob o viaduto, Pão-de-ló desviava-se dos corpos de outras pessoas que como ele não tinham onde passar a noite.
Chegou no seu canto, espalhou um pedaço de jornal e deitou. Pão-de-ló sentia-se mal humorado e triste. Triste e sozinho. Começou a chorar devagarinho, sem ruído, o coraçãozinho doendo. Imaginava uma mãezinha a enxugar-lhe a lágrima, o que já o consolaria, pois teria a certeza de ter alguém por ele. Mas não tinha. Ao longe, tocava “Merry Christmas”, ele nem sabia o que aquela canção bonita dizia, só sentia sua solidão aumentar e o rosto molhar mais.
O Papai Noel da loja, sem a barba e a roupa, a aparência um tanto que desleixada, também procurava seu lugar sob o viaduto. Postando-se ao lado de Pão-de-ló, que estava de costas para ele, esparramou-se.
- Oi, amiguinho.
- Me deixa – o garoto não olhou.
- Desculpa, amiguinho. Não queria te incomodar. Trouxe uma coisa pra ti – e colocou ao lado dele um caminhãozinho de madeira. – Fiz com um caixote que a fruteira jogou fora.
O menino sequer olhou o presente, ainda imerso na sua tristeza.
- Eu era marceneiro – continuou o Papai Noel. – Fazia brinquedos o ano inteiro para uma fábrica, que fazia comércio principalmente no Natal. Mas hoje em dia é uma pena, as crianças não gostam mais de brinquedos de madeira, só desses a pilha que brincam sozinhos, os que a televisão mostra. Hoje me deu vontade de fazer um brinquedo e dar a uma pessoa que se sentisse sozinha, assim como eu estou.
Acariciou o cabelo de Pão-de-ló, que bancando o durão resistiu num primeiro momento, até entregar-se à companhia e se deter a examinar o brinquedo.
- Mas aqui debaixo da ponte tem um montão de crianças sozinhas... – expressou-se Pão-de-ló tentando adivinhar porque havia sido escolhido entre tantos.
- Pois é... Mas você é um menino de bom coração. Se me ajudasse, a gente podia conseguir mais caixotes e fazer um brinquedo para cada um deles... – o Papai Noel revelou algum entusiasmo. – Depois, a gente podia cantar, acender velas... Ia pra árvore gigante na praça e festejava nosso Natal... O que acha? – olhou o garoto com um sorriso de bondade, que animou Pão-de-ló.
- Pode contar comigo!
- Então vamos catar coisas pelas ruas pra fazer os presentes!
Com o caminhãozinho na mão, Pão-de-ló deteve o Papai Noel antes que saíssem para lhe dar um abraço.
E assim saíram. Pareceu a Pão-de-ló que o Menino Jesus do presépio ali perto estava mais parecido com ele agora. Não entendeu porquê, mas sorriu.
- Esse vai ser meu primeiro Natal de verdade.    

* Conto vencedor do Concurso Nacional de Narrativas de Natal de Dois Irmãos - RS, 2008.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Incessante busca



Buscamos tantas pessoas
ao longo da vida
para no final constatar
entre a dúvida e a certeza
entre o riso e a lágrima
que o que buscávamos o tempo todo
não se poderia em lugar algum encontrar
pois se trata
da gente mesma.

Faça uma loucura hoje

Compre aquele lápis aquarela que você sempre quis na infância e não pôde ter.

Veja para realizar aquela viagem que vem adiando há tempos.

Ligue para alguém com quem está brigado e peça desculpas.

Visite uma pessoa que há muito não vê.

Vá até um asilo, um orfanato, converse, conte histórias, ouça.

Dê um abraço apertado em quem estiver ao seu lado.

Sorria a um estranho.

Dê um presente para alguém que você gosta.

Mande flores.

Envie um e-mail para alguém que está distante.

Escreva uma poesia.

Componha uma música.

Faça uma peça de crochê.

Tome um banho de chuva.

Invente uma receita diferente.

Cante bem alto com o rádio.

O que vale realmente a pena na vida são os pequenos momentos que passamos com aqueles que amamos; os sentimentos compartilhados; surpreender... Pois, cada dia é único e você pode não ter outra oportunidade de fazer esses pequenos gestos.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Se desse pra rebobinar...

Eu não queria que você visse aquele dia que tinha uma aranha na minha gaveta e eu sussurrava: “Senhor, senhor!” (hahaha)

Eu não queria que você visse as historinhas fantásticas que faço na minha cabeça, em que você é sempre meu protagonista.

Eu não queria que você visse o dia em que segurei sua foto contra o peito, quase chorando, me detendo para não rasgá-la...

Eu não queria que você visse as coisas horríveis que escrevi sobre você quando estava com raiva...

Eu queria que você visse aquela noite que dormi “te abraçando”...

Eu queria que você visse onde estava a minha mente em todas aquelas aulas chatas, e até nas legais...

Eu queria que você visse aquela surpresa que planejei te fazer e nunca deu certo...

Eu queria que você visse que, nas festas, mesmo cercada de gente, eu estou sempre sozinha...

Eu queria que você visse como disfarço para não chorar quando toca aquela música na minha playlist e eu estou em público...

Eu queria que você visse com quem está meu coração a maior parte do meu dia...

Eu queria que você visse...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pedaços de mim

Quem ficou com pedaços de mim?
Quem ficou com as fotos daquele acampamento da oitava série? Era 10 de dezembro, estávamos muito felizes; lembro que a gente tomou banho de lama, pulou na cama elástica; alguns andaram a cavalo e fizemos muita bagunça! A Branchini chamava o cara da cantina de “tio” e ele a chamava de sobrinha; o Daniel matou uma cobra a pauladas e mostrou o pau; Micael fez com que eu sujasse minha calça branca e os meninos balançavam a pontezinha quando íamos passar.
Onde está o vídeo que aquela profe fez quando eu tinha sete anos? Ela passou de sala em sala e nos filmou recebendo presentinhos de Páscoa; nunca tive acesso àquelas imagens depois que tinha discernimento para lembrá-las. São pedaços de mim que não voltam mais. Em tempos de câmeras analógicas, muitas partes nossas ficavam pelo caminho. Não só em fotos e vídeos, mas também os amigos e colegas com os quais não trocamos contato, que ficaram registrados apenas em nossas memórias, sem o ônus da figura timbrada em papel ou película. Pedaços seus que você se pergunta aonde estarão, o que terão feito da vida; aquele amigo inseparável do ensino fundamental; aquele coleguinha foliento da terceira série; aquela professora que você tanto gostava, mas que saiu da escola antes de o ano acabar; as fotos daquela festa em sala de aula no dia das crianças; o filme daquela excursão em que você só tinha oito anos; aquele garoto fofíssimo por quem você se apaixonou na quarta série; aquela menina que perdeu a mãe durante o ano letivo... E tudo isso faz tanto tempo... Onde estarão tantos pedacinhos que comporam a minha história e tantas...?
Quem ficou com pedaços de mim?

Simplicidade


Nunca entrou em seu quarto meio espiado, como se tivessem ninjas nas gavetas?

Já respondeu a chamada com a ajuda do cotovelo de um colega?

Já disse “sim, aham” sem saber do que se tratava? E depois, com o rumo da coisa, assustado, perguntou: “O quê?”.

Fez as falas de seres inanimados?

Chutou o tapete e ficou com pena dele?

Não parou de pensar naquela formiga que pisou sem querer?

Desenhou no vidro embaçado?

Jogou futebol com um osso na rua?

Desejou falar com fadas e gnomos?

Pisou descalço na terra, tomou banho de chuva, deixou pegadas na areia?

Comeu frango com a mão, pintou o rosto com guache, bateu foto com nariz clown?

Lambuzou os dedos de bolo, a boca de brigadeiro e o coração de simplicidade?

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Faxina na alma


Fim de ano também é tempo de renovação. Mudar a decoração da casa, trocar alguns móveis de lugar, lavar e limpar tudo. A falsa ilusão de um recomeço felicita, dá esperança, renova. As pessoas estão mais dispostas a acreditar que o ano novo vai salvá-las; que pagarão com facilidade o carro feito em 60 vezes, que vão emagrecer, casar... E já que há uma faxina na casa e uma reforma na esperança, que brilha feito centavo novo, por que não fazer uma faxina na alma?
Passar um rodo na preguiça...
Um esponjão no desamor...
Lustrar os sonhos...
Tirar o pó da força de vontade...
Espanar o bom humor...
Jogar fora o lixo do ódio...
Recolher as mágoas...
Varrer a solidão...
Pintar a tristeza...
Escovar o encardido da dor...
Perfumar-se de alegria...
Quem sabe você não encontra, em algum cantinho, a fé que havia perdido?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Quase


Alguém já escreveu sobre isso, não lembro bem quem foi, mas é inegável a minha vontade de discorrer sobre o assunto: o “quase”.
Advérbio de cinco letrinhas, mas imenso em significado e que, no fundo, seria desnecessário. Quase não existe.
Você não quase ganhou. Você perdeu.
Você quase não caiu? Você caiu.
Quase não achou a amiga em casa? Achou.
Quase não passa de ano? Bem, passou.
Quase beijou ele? Não beijou.
Sorry.
O quase é muito mais um anestésico pessoal, um paliativo. Para não assumir uma derrota completa, por mais perto que tenha chegado do objetivo, a gente usa o quase para se sabotar. Para fingir que podia ser diferente.
- Ah, se não tivessem me roubado a bola... Quase fiz o gol!
Fez nada, se fosse bom mesmo, não tinha deixado te roubarem a bola! Vamos parar de nos proteger no quase! As coisas são ou não são, é ou não é, ponto final. É ou não é?

domingo, 21 de novembro de 2010

Deixar ir


Todo mundo tem uma roupa que gosta e não serve mais; um brinquedo antigo ou uma lembrança dada por um (a) ex-namorado (a) da qual nem pensa se desfazer. É engraçado como nos prendemos às coisas, depositando nelas uma boa dose de energia e evitando que saiam de nosso domínio.
Às vezes, é preciso deixar ir. Deixar ir, dizer adeus. Abrir espaço para o novo. Como comprar roupas novas, se o armário está fornido? Não podemos conquistar novos ares sem nos desfazermos dos velhos. Sempre é preciso renovar: jogar fora o que não presta mais, doar o que não convir, guardar em uma caixinha as lembranças dele ou dela, não em um lugar onde possamos ver o tempo todo. É necessário que seu inconsciente perceba o vazio para passar a atrair o que vai fechá-lo. Embora seja difícil receber coisas novas no lugar daquelas que tínhamos como certas, as coisas não acontecem em um mundo onde todos os espaços estão preenchidos.
E você sabe por que os ralos entopem, as torneiras estouram, o encanamento fica abarrotado? Isso se dá, geralmente, com pessoas rancorosas, que “guardam” tudo. O corpo físico e as circunstâncias ao nosso redor também nos mostram quando é preciso libertar alguma coisa. Apego não é bom, é ilusão e, por mais doloroso que seja livrar-se de algo, libertação é fundamental.
Se gosta muito de uma roupa que não pode mais usar, então fique apenas com essa, mas se livre de todas as outras peças que fazem volume no seu roupeiro. Se não pode se desfazer das lembranças do antigo amor, guarde tudo em uma gaveta a qual não abra todos os dias, mas não permita que ocupe um lugar que não é mais seu.
Deixar ir também é uma arte. Você vai ver que, a partir da liberação de algumas coisas que você segura inutilmente em sua vida, virão outras melhores e tomarão o seu lugar, e talvez seja justamente dessa mudança que você está com medo. Não se boicote, liberte o que ama e seja feliz!

sábado, 20 de novembro de 2010

Quase dezembro

Sinto-me tão distante daqui; definitivamente não pertenço a esse mundo. Não que a alegria não me contemple, porém há falsidade, e aqui, é como se eu fosse uma estranha, uma intrusa.
Feliz? A felicidade também não é deste mundo, mas nos últimos dias sinto essa verdade mais e mais perto de mim.
A reunião, a música... Oh, como eu amaria isso se fosse com meus afins!
Haverá um dia em que estaremos todos brincando? Felizes, “afins”?
Tanta futilidade junta. Barulho, bebedeira, agitação. O ser humano, infelizmente, ainda está em um nível muito baixo para saber o que é realmente uma festa. Alegria não é sinônimo de bagunça.

Mais um ano se passou. Tão depressa que mal pude percebê-lo. Os dias passam, a vida segue, mas não sei se estou saindo do lugar. Se tudo caminha pra frente, porque me sinto estagnada?
A vida passa muito rápido. O tempo escoa pelos dedos. Vai chegar o dia em que vou olhar para trás e procurar aquela garotinha que se perdeu pelo caminho. Houve algum momento de descuido em que eu soltei a mão dela. Agora, outra pessoa toma o seu lugar...

Talvez tivesse a intenção de votar, sonhar, construir em pensamento o ano que vai iniciar, como se não mais existissem a dor, a desilusão e o medo daquele que passou.
No entanto, com os acontecimentos últimos não consigo afastar minha mente do futuro incerto, quase esquecendo que ele sempre é incerto.
Mais um ano se passou. Tão depressa que mal pude senti-lo...

* Parte desse solilóquio foi escrita em um guardanapo, durante uma confraternização.

Lágrimas no céu


Dada para as meninas como um demônio
Só porque para os meninos como um anjo
Uma lágrima de mim
Caiu sobre o mundo e
Uma lágrima do mundo
Caiu sobre mim
Ó vida,
Perdida, ingrata, sofrida
Dá-me um pedacinho do céu
Para poder SONHAR...

Michael


Penso em parar.


Desistir
Não quero mais
Dói muito e faz chorar
Leva-me por caminhos tortuosos
Faz-me sofrer
Não, não quero
Preciso reconhecer a hora
Que se aproxima
E seguir
Não penso no que pode ser,
Sinto medo, receio
Mas quero ir adiante.
Preciso.
Ela, a vida
Ela, que me causou tamanho desencanto
Não, não sou jovem demais...
Ela me faz agir,
Não quero mais lutar
Vou fugir
Ver até onde posso voar
Para não continuar
Cair para os vermes,
Terminar com ELA.

Razão da existência

De que me adianta ser cheia por fora
Se for vazia por dentro?
Vazia de razões
Vazia de sentimentos
Vazia de emoções
Vazia de pensamentos
Vazia de ilusões
Sonhos jogados ao vento
Vazia de opiniões
Ter só ao egocentro.

De que me adianta ser tudo por fora
Se for nada por dentro?
Nada de amor
Nada de piedade
Nada de dor
Só para derramar
A lágrima de uma saudade?
Nada de cor
Nem de sinceridade
Amizade, paixão, calor
Vivacidade

De nada adiantar-me-ia ter tudo e ser nada...

A você


Muito triste a solidão
Longe de teus doces beijos
E cativantes carinhos
As lindas palavras que dizia
E o mel de teus lábios
Que levaste eternamente para longe de mim.
Sinto ainda o cheiro do perfume
E o afago da mão suavemente em meus cabelos
Desprendidos ao vento
Na leve brisa da manhã...
O hálito de hortelã
O olhar perdido no espaço
Num mundo só seu,
Impossível penetrar...
A melancolia do dia de hoje
Em nada faz lembrar
Aquele em que te conheci,
Para que vivesse impiamente
Dentro do meu ser.

Poema adolescente


Ação: FICAR conjugado com a primeira pessoa
Gerúndio: Eu estou ficando.
Presente do Indicativo: Eu fico.
Futuro do pretérito: Eu ficaria.
Pretérito Imperfeito do Subjuntivo: Se eu ficasse.
Pretérito mais que perfeito: Eu ficara.
Futuro do Subjuntivo: Se eu ficar.
Imperativo: (Não existe na primeira pessoa).
Pretérito Imperfeito: Eu ficava.
Pretérito perfeito: Eu fiquei.
Presente do Subjuntivo: Que eu fique.
Particípio: Ficado.

Don’t forget: Não queira ser um serial kisses! Quando você fica com qualquer um (a) porque ele/ela é bonitinho (a), é como se dissesse que não tem valor, então qualquer um (a) serve. Pense nisso!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

O Natal me deixa triste


Quando chega o mês de dezembro, com suas luzes e sons, as cidades se enfeitam e esperam com ansiedade pelo Natal. As vitrines berram de felicidade, os supermercados bombam e, vendo tanto consumo, consumo e consumo até parece que a vida é apenas isso. Os comerciais de cerveja, margarina, doces, frios - todos encontram espaço; -  a publicidade parece encontrar de tudo para anunciar: pastas de dente de Natal, árvore que fala, descongelante de ave. Porém, não sei se é só comigo que isso acontece, mas sempre que chega o fim do ano, sou acometida de uma profunda melancolia, uma dor na alma mesmo... As pessoas à minha volta expressam alegria, planejam para onde ir, os comes e bebes, brincadeiras de amigo oculto; as empresas perdem um pouco o seu ritmo afoito pela corrida capitalista; há alguma paz reinante, certa compreensão em enfrentar filas, o trânsito complicado, os erros dos outros. Eu, no entanto, recolho-me ao meu mundinho, pouco sorrio, fico triste. Às vezes, me indago o porquê dessa atitude. É como se, dentro de mim, as coisas começassem a se preparar para um recomeço que, na verdade, não é um recomeço. Meu coração lembra e sepulta os momentos tristes; tenta consertar-se das dores sem conserto; remenda-se na esperança de um amanhã, sem que as feridas passadas tenham deixado de sangrar.
Enquanto os outros montam árvores com felicidade, colocam enfeites, fazem listas de presentes, cada pinheiro iluminado para mim é uma oração. Uma oração de que, dessa vez, não haja tantos remendos a ser feitos; não haja tantos presentes sem dono, recusados mesmo quando dados com o sentimento mais caro e profundo. Ouço músicas tristes, abraço meu travesseiro, faço compras para suprir o vazio; finjo que esqueci, que gostei dos meus presentes, que tanto faz para onde ir. Alheia a tudo, fico observando os sorrisos, procurando neles um resquício de verdade ou de ilusão, sem saber bem o que vou achar.
Claro que, ao mesmo tempo, tenho satisfação em acompanhar todos os preparativos, pois um lado de mim ama e espera o Natal com o brilho dos olhos de uma criança; é um lado que ainda não perdeu aquele frio na barriga cada vez que a meia-noite se anuncia, relatando o que deveria ser uma festa de integração pelo Jesus menino, e não pelos presentes mais caros, pelo carro do ano ou o peru mais dourado. É bonito quando você vai ao shopping e tudo está enfeitado; a decoração em tons de prata e as casas com milhares de luzinhas a piscar, indiferentes ao âmago de cada um. As pessoas, atarantadas, com sacolas e mais sacolas, felizes por conseguirem algum desconto, na tentativa de agradar a todos com o presente que pediram; aquele ar satisfeito com o que levam.
E, quando chega a véspera, a família reunida em torno da mesa, o lar cheio de luz, crianças a correr, casa enfeitada, árvore piscando com presentes colocados ao seu lado. A ceia, a festa, as saudações, o chocolate, abraços, beijos, desejos proclamados...
Mas, a minha tristeza interior faz parte de tudo isso. Me acompanha aonde quer que vá, com quem quer que esteja. É algo muito meu, mas que envolve todos. Todos que eu não pude fazer feliz; todos que não podem estar comigo; todos que não têm uma ceia como a minha, todas as pessoas que, de maneira direta ou indireta, fizeram parte do meu ano e, por alguma razão, não posso abraçar. Todos por quem não posso fazer nada para dar um Natal feliz, todos que não têm sequer sua família nesse dia; todos, todos... E os que estão nos hospitais, asilos, orfanatos...  E aí está o motivo de minha tristeza... Pois, enquanto brilham lâmpadas nas árvores de alguns, em milhares de lugares no mundo o que brilham são os olhos dos que são esquecidos, vertendo lágrimas de agonia e esperança por dias melhores.
Eu tentarei realizar alguma coisa por alguém, colocando um sorriso no seu rosto sofrido e, quem sabe, no meu coração também.
E então, finalmente, com mais verdade possa dizer, a todos vocês:

Feliz natal!


quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Almas gêmeas


Renúncia

Por que tanto amor?
Perguntei nesta manhã à natureza
Que amanheceu coberta de tristeza,
Vertendo lágrimas de uma dor quase incontida...

De onde vem tanta dor?
Ela me respondeu num sussurro entristecido:
- Vem de longe, de um mundo atrás já vivido
E que ousaste buscar nesta vida...

Mas que estranho amor é este, sem fim?
Perguntei à tarde silente e serena
Que morria no fim do céu, lânguida e amena,
Matizando de vermelho o horizonte.

Desde quando habita em mim?
- Desde o primeiro entardecer no mundo
Quando juntos, em êxtase profundo,
Dois corações se separaram num instante...

E por que a tudo resiste?
Indaguei da noite resplendente
Que derramava seu luar resplandecente
Sobre minh’alma presa em desventura.

De onde vem esta saudade triste?
Disse-me a noite de prata engalanada:
- Almas gêmeas que se perdem na estrada,
Ficam escravas deste amor triste e profundo.
Pra se encontrarem um dia novamente,
Hão que nascer e renascer diuturnamente
Com muita renúncia no mundo!
Nelson de Medeiros

Nos situamos num degrau de entendimento no qual ainda nos é penoso compreender com acerto todas as minúcias da “química” energética responsável pela existência do fenômeno amoroso, legítimo no caso de almas gêmeas. O fato é que, durante o trajeto de todos nos difíceis caminhos das existências, ele ocorre, mais dia menos dia, para nos comprovar que a bondade divina reserva a realização de nossos mais lindos sonhos no campo da afetividade.
No princípio do encontro das chamadas “almas gêmeas”, a importância espiritual de que se reverte a atração irresistível entre ambas fica praticamente oclusa, confundindo-se, por vezes, com a variedade imensa de gêneros de trocas emocionais que todos elegem e levam a efeito na Terra. O característico que distingue esse tipo de encontro em qualquer tempo, no entanto, é clássico: a força da união, da tremenda empatia, do amor que comungam, a despeito das adversidades do caminho, é tamanha que sobrepuja tudo e todos, e vence, e os arrasta a uma estranha necessidade mútua, determinando que como precisem imperiosamente da presença do outro, como de misterioso “alimento luminoso” para a alma. Apenas que os “métodos” inicialmente usados para saciarem essa “necessidade” são compreensivelmente inadequados, requerendo importante reajuste, para que se consiga vivenciar um tipo tão sublime de amor em harmonia com todos os demais seres. Em nunca podendo abandonar um ao outro, vinculados por poderosa energia amorosa na identidade plena de seus espíritos, precisam aprender a substituir, com o correr das vivências o exclusivismo próprio de todo sentimento afetivo necessitado de burilamento, entendendo que podem estabelecer e comungar um autêntico “matrimônio espiritual”, não esquecendo, no entanto, do dever de amor que todos devemos desenvolver e prestar uns aos outros.


“... a alma, antes de voltar à Terra, bebe da água do esquecimento, porém, o reencontro de almas que já se amaram anula, por breves momentos, esse efeito; o amor de ‘almas gêmeas’ não morre jamais, acompanhando o infinito ciclo das reencarnações.”
Pitágoras

Após cada existência, é dado um passo no caminho da perfeição e, cada vez menos ligados à matéria, sua afeição é mais viva, pelo fato mesmo de ser mais depurada, não perturbada mais pelo egoísmo, nem pelas nuvens das paixões. Porque, dadas as condições limitadas da longínqua história evolutiva humana no orbe, é natural que mergulhados nas restrições rudes de entendimento inerentes aos seres em cada época, tal ordem de fatores os arrastasse aos naturais atritos, mal entendidos, ressentimentos e desentendimentos de toda ordem. Após conquista sobre tais dissensões, eles podem, pois assim, percorrer um número ilimitado de existências corporais sem que nenhum prejuízo afete sua mútua afeição.
Não poderia dizer quais as implicações mais elevadas de ser almas irmãs. Mas, enquanto estiver separado da sua, você está inquieto. Não importa quais sejam as circunstâncias, não importa quão belo seja o ambiente em que está. Resta apenas amar, aceitando e respeitando todos os limites que a vida impôs, por agora, pois sabemos que as almas que se identificam na harmonia e nas qualidades mais sublimes do verdadeiro amor, hão de se unir um dia, depois de cumprirem sua jornada de aperfeiçoamento e evolução, para juntas caminharem lado a lado com muito amor, no mesmo ideal e para um mundo feliz de verdade.
Os afetos verdadeiros são tudo o que fica. Onde quer que estejamos; e o fato de a existência nos situar em lugares diversos daqueles aos quais estamos acostumados não os rouba de nós, mas nos abre chances sempre renovadas de ganharmos e reencontrarmos outros. Lindos momentos estão reservados para o sossego do seu coração, só que acontecerão no instante mais adequado, quando tudo vier concorrer a favor para todos os envolvidos. Você confia nisso, não confia?