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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Um beijo à luz do luar

            -  Qual sua música preferida, Márcio?
Estavámos naquele lugar considerado por mim como especial. De frente um para o outro, sentados – ele com as pernas estendidas, eu sobre as minhas.
          - Por quê?
Ai! O Márcio me matava! Ele já tinha passado da fase dos porquês há muito tempo!
          - Só pra eu saber, oras!
          - Hum... Então tá. Tem várias. Mas, tem uma que é assim: “É preciso amar... as pessoas como se não houvesse amanhã... porque se você parar... pra pensar... na verdade não há...”
      - Boa escolha – sorri.
O Márcio era o menino mais bonito da escola e eu era sua melhor amiga. Falávamos de tudo, e em todos os trabalhos em grupo nossa dupla era garantia.
Sexta série... Não imaginava a dificuldade que ia me sufocar durante o ano. Não fossem as aulas particulares e as provas de reforço, talvez não tivesse passado. E procurava impressionar o Márcio também. Ele era meio burrão e vivia me pedindo cola.
        - Sabe, quando eu crescer e for um grande escritor, vou escrever um livro sobre esse lugar. Se você soubesse cada coisa que já pensei aqui... Todas as mágoas que vim afogar sob essa árvore...
      - Você gosta mesmo daqui, não é?
        - Mesmo. É o lugar que me acolhe com a minha tristeza. Eu amo esse lugar!
Menino e poeta.
        - Também gosto. Ar fresco, água cristalina... Você... - e fazia um esforço sobre-humano para não expor aquela sensação.
          - E liberdade – completou.
          - É... Liberdade – repeti pensando. Não soube mais o que dizer. - ... Vamos pra casa? Está começando a escurecer.
          - Pode ir. Eu vou ficar mais um pouco.
         -  Não vou sem você. Eu fico também.
Ficamos por lá enquanto a noite caía, mais em silêncio que de costume. Eram nossos olhos naquela hora os responsáveis por longas conversas cheias de dúvidas e perturbações, da vida, da morte e do amor.
          - Eram sinceras as respostas na enquete? - tomei a coragem para quebrar o clima prateado que se instalou debaixo do halo de estrelas.
Ele parecia hipnotizado, olhando para o céu que fazia banhar a esplendorosa sombra de prata lunar sobre nós dois, indo refletir no açude.
          - Por quê?
Aiiiiii.... Paciência... Eram atos como aquele que conseguiam estragar uma cena!
          - Só por perguntar, Márcio. Você não é capaz de me dar uma resposta direta??
Ele riu da minha empertigação.
         - Não. Eu nunca beijei ninguém.
Tentei não dar demonstração do misto de sentimentos e cores dentro de mim, a começar pela cara vermelho pimentão.
         -  Aposto que não foi por falta de proposta – investi.
Me olhou.
          - Esperei sempre por um momento especial, por uma menina que achava que não ia mais aparecer.
Meu Deus, será que ele tá dando indireta pra mim??
          - E parou de esperar?
         - Parei.
          - Por quê?
         - Porque acho que esse momento chegou.
Aproximou-se mais e sugou os meus lábios. Um beijo curto, doce, inesquecível. O meu primeiro beijo. O primeiro beijo dele. Nosso primeiro beijo...
Seis anos depois, sentada sob aquela árvore, tomava minha decisão mais importante: ser escritora. Com os olhos úmidos, levantei a cabeça atraída pelo belo céu de inverno. A lua estava linda e banhava o bosque com sua luz leitosa.
Fitei aquele céu que agora me dava tanta paz, pois sabia que Márcio velava por mim. Ele, que certamente descansava além das estrelas, lançando seu lindo sorriso e suas doces palavras, que ecoavam através do espaço para guiar e abençoar minha vida.
Menino e poeta.

Capítulo do livro "Vida pela metade", meu primeiro, escrito quando tinha 14 anos. Os últimos dois parágrafos são do capítulo final, portanto caracterizo tal publicação como um conto.

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