About my Blog

Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Um dia mais


Na casa humilde, caiada das muitas chuvas já sofridas, ouvia-se apenas o barulho habitual da lenha crepitando no fogão e a água borbulhando na lata, derramando-se nas labaredas que estalavam:
         - O café! Ainda não coou, menina preguiçosa! Qualquer dia desses jogo esta porcaria dessa bruxa no fosso! Não presta pra nada! Sete anos, uma moça!, e brincando de boneca!
Resmungando ainda, atirou a um canto o feixe de gravetos que trouxera de volta da roça e começou a preparar o tal do café. Logo mais, os homens viriam para comer, e polenta não tinha, nem feijão, como iam suster da força que precisavam? O menino já não parecia bem mais novo, magrela daquele jeito?
Abriu o armário velho e um tanto sujo, procurando o que fazer para o jantar.
         - Vida desgraçada. O que temos mal dá pra matar a fome do seu pai. Nem os ossinho que pedi no açougue não tem mais.
Júlia deu de ombros. Estava habituada às queixas da mãe, sempre reclamando da vida miserável a que estava condenada.
         - Massa com batata doce de novo, muié!
Ela espremia limão num canecão que já foi lata de óleo.
        -  Ah! O rei deseja pernil ou quem sabe um peru gordo?
         - Quero a carne que estava na banha.
          - Acabou! Tu mesmo comeu toda.
         - O pão é puro fubá, esbruguento, duro!
          - Ainda bem que reconhece. Foi o que pude arrumar.
Ele foi para o quarto e voltou com uma garrafa já aberta, o gargalo saltitando pra goela seca.
          - Bebe só um copo, por favor – pediu o filho e saiu de perto, pra fugir dos tapas.
          - Que é que tá pensando? Pode mandar na minha vida como se fosse criiança? Pois, vá se criar! Criei vocês, só eu e a véia e Deus. Às vezes, acho que até sem deus mesmo! - e jogou uma cebola no moleque.
A mãe já assumiu cara e postura de infeliz.
          - Pois suma, mulher do inferno! Só sabe queixar. Se abrir mais o beiço, eu sento o braço.
A cena se repetia com frequência e quase sempre acabava em troca de sopapos.
O homem passou a bradar alguns palavrões a ninguém, a mulher foi lavar a louça, pegou o lampião e levou pra cozinha, onde o mocinho se atentava para a beleza da tarde que morria no sol incendiado, aos poucos escondendo-se na linha do horizonte. Assim se ia mais um dia. 

0 comentários :

Postar um comentário