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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Suicídio



Que dor tão grande leva alguém a tirar a própria vida?

É preciso rever os amigos, sobretudo os poucos bons, e tais ventos me levaram a almoçar com uma big amiga que sempre tem os melhores conselhos e abraços. Após matar a saudade, discutindo tantos assuntos (sempre com o melhor conteúdo!), a Josi, que é estudante de enfermagem, começou a me contar de suas aulas, dos cadáveres e então, de uma necrópsia que ela pôde assistir - algo pelo qual esperava e não tinha muita noção de como era.

Em primeiro lugar, gostaria de me posicionar a respeito desse procedimento. Embora existam profissionais sérios e qualificados, observo que o país não têm know-how para levar adiante tais processos, especialmente quando não se tem necessidade absoluta. Há muito mais violação de corpos (desnecessária) do que propriamente o encontro de uma causa mortis equivalente e ainda um abuso de poder e posição no sentido de desenvolver tais procedências. Creio que a professora de matemática concursada do caso descrito abaixo - com o aval da percepção de minha amiga mais racional que emocional; - ainda que estivesse fazendo o seu trabalho, socorria-se dele para pôr em prática algum estranho fascínio mórbido, alguma frieza nazista. Enfim... Para pessoas como eu é difícil acreditar que existam outras sem sentimentos, mas vamos aos fatos antes que os perca de vista.

Creio que não saberei transcrever do modo como aconteceu, mas vou fazer um esforço:

"Nossa turma sempre pedia para ver uma necrópsia, mas era algo que só podia ser feito com a presença de um professor. De forma que ele ficou responsável por nos conseguir uma, mas nunca tinha necrópsia na quinta. Aquela tarde, a mulher do anatômico chegou e do nada convocou a turma, se tínhamos interesse em ver. Sem nenhuma informação prévia, o professor nos disse apenas: "Explorem tudo que puderem, prestem atenção em tudo que acontecer lá".
Ao chegar, ficamos separados por uma parede de vidro e como que no andar superior, sendo que tínhamos a visão de cima e vimos o corpo estendido de um menino, quase uma criança; da cintura para baixo, inteiramente roxo e, ao contrário, totalmente pálido da cintura para cima; uma marca no pescoço e o rosto imberbe descoberto.

- O que eu digo é o seguinte: você pode acompanhar uma necrópsia inteira se não olhar pro rosto da pessoa. Tem de esquecer que tem um ser humano ali.
 
Quando Josi viu que havia alunos lá embaixo, ao lado do corpo, ela também desceu e ouviu com os demais a história daquele garoto:
"Tinha 17 anos. Estava desaparecido e os pais registraram queixa. Mas, não o procuraram muito e foi encontrado em um galpão para os fundos da casa, onde não haviam buscado."

- Minha cabeça girou. Podia ser meu sobrinho, sicrano, beltrano. Lembrei de tanta gente... Entrei em desespero... só um menino, tão novo, por que fez isso, o que aconteceu...? Mas, se você se deixa dominar pelo emocional, a vida para. Eu tinha que focar que aquilo era só uma aula, uma necrópsia, algo que eu precisava aprender e ali estava um menino morto... Mas... mas eu não podia pensar nele...

Josi me contou o passo a passo, de como abriram o garoto; como lhes explicaram que o sangue descera todo para a parte inferior do corpo, o que também justificava a palidez da parte superior. Explicou como ele foi aberto do queixo ao púbis; sua língua foi tirada pra fora, o osso hioide avaliado e não estava quebrado. De como, com uma espécie de broca, furaram a sua cabeça, abrindo o crânio ao meio ao forçar com as mãos, tudo na maior frieza, pois era apenas um presunto que estava ali. Não era um garoto que sorrira, chorara, sofrera o primeiro amor, tirara uma nota baixa, nada. Só um corpo morto sem família, sem pessoas que o amassem, que em breve seria abandonado aos vermes. E a professora de matemática concursada ria e abria a cabeça do garoto e abria sua boca e tirava o hioide e sorria de novo, (deliciada?) e tantos outros detalhes que quase me fazem chorar, enquanto eu só pensava na aflição daquele garoto, o que o levara a execrar-se a si mesmo, que dor essa que era tão grande a ponto de o fazer acabar com ela... Já tive uma dor do tamanho do mundo, já tive vontade de tirá-la dali com a mão e tenho certeza que são poucos os seres no mundo que nunca na tenham tido. Alguns são mais sensíveis que outros, alguns apenas não aguentam, mas... mas nada justifica o suicídio. Meu Deus, eu fico imaginando, aquele menino teria amigos? Ele teria alguém para correr de braços abertos quando a dor ameaçava explodir seu coração? Ele sofria em silêncio, ele demonstrava sua dor, ele explodiu de repente, ele deu sinais da pressão...? Por que os pais não conhecem seus filhos; por que ninguém pode ensinar a suportar; por que o mundo não para, por que por que por que...?
No final das contas, não obtive resposta, pois as estatísticas só falam em números, não contam quantos se mataram por esta e quantos por aquela razão. Porque o mundo é tão severo, tão mal e nunca conseguimos nos encontrar em nós mesmos, aliás, porque ainda esperamos algo do mundo; por que garotos de 17 anos se enforcam...
O suicídio traz com ele uma dor bônus, que é o sentimento de que podia ter sido evitado. Pois não é natural - não foi um acidente, nem uma doença, nem mesmo um crime, que ainda que seja triste, não permitiu que a vítima escolhesse ficar - foi um suicício! Um ato contra si mesmo, mas será que essa pessoa queria acabar com a própria vida? Dar fim também aos dias ensolarados, ou só aos dias de chuva? Algo me leva a crer que era a dor que queria que cessasse. A liberdade de um espírito ao custo de lançar-se às grades, ferindo-se, perdendo-se, aumentando ainda mais a própria dívida, o total esquecimento de que tudo passa. Sim, tudo. Passam os dias bons, os ruins; passam os dias tristes, os felizes. Passam-se os amigos, os amores. Passa-se a velhice, passa a vida, mas não há nada que não passe sobre a Terra.
Se matar não é a solução. E talvez não haja lugar onde esteja a resposta. Essas coisas que não se ensinam aos meninos de 17 anos. Nem às garotas sensíveis nem a ninguém. O que matará a dor é a reconstrução. Não existe sofrimento sem crescimento. Sempre depois da sua maior fraqueza você ressurge muito mais forte, sim, é quando estamos mais fracos que estamos mais fortes. Não há solução no fim. Porque nada nunca acaba. As coisas reiniciam, os ciclos se fecham, mas acabar jamais, o que você perde sempre volta a achar. É seu. Ainda que nada seja seu...

- Kelly, vai ficar bem?
- Sim - disse com olhos marejados.
- Não queria que ficasse triste, amiga.
- Eu sei. Vou escrever sobre isso.
- Mas, você vai ficar bem mesmo?
- Vou - a abracei. - Te amo, tá.

E seguimos. Cada uma com sua dor, cada uma com sua alegria. Um lindo dia de sol nos aguardava. 

1 comentários :

@chico_cxs disse...

Pra variar, seu texto ficou extremamente profundo, conseguindo (de novo) extrair bem direitinho o que provavelmente sentiu enquanto sua amiga lhe narrava essa triste história. Há outras ainda piores que ficamos sabendo a todo momento. O teria levado Kurt Cobain a se matar? E por que 68 pessoas tiraram a vida após saber que ele havia feito isso? Por que meu vizinho, depois de um casamento longo e uma filha maravilhosa, simplesmente assassinou a esposa, colocou ela num buraco, incendiou o carro e posteriormente se jogou dentre as labaredas para sempre?
Quando a vida parece sem sentido e sem rumo, podemos pensar ser inútil prossegui-la, mas felizmente logo adiante a situação se inverte....não temos paciência, parece mais fácil acabar com tudo de uma vez só. Eu poderia ter feito isso da maneria como já planejei, mas não estaria escrevendo aqui...Pode um ser humano ser indiferente a si mesmo?

E já me empolguei, paro por aqui..rsrsrs. Ótimo post como sempre...

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