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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Envelhecer


Eis um grande dilema do mundo moderno: quem aí quer ficar velho? E para evitar a inevitável perda da beleza e juventude, prorrogam-lhes de maneiras pouco sensatas, causando certo estranhamento e até medo em alguns casos, com aquelas testas lisas e olhos puxados; peles colágenas e tão falsas quanto a idade que fingem ter. E aí eu me pergunto: mas, afinal, qual é o mérito em tudo isso?
Um dos principais problemas dessa questão reside justamente no fato da não aceitação de envelhecer. Todos nós estamos diariamente em processo de envelhecimento. Embora cinco anos não pareçam fazer diferença em um jovem, se for fazer um comparativo físico, sim, há um abismo entre os dois. Mas o principal que esses cinco anos trouxeram certamente não foi físico: é mental, é psicológico. E tal qual as mudanças no corpo, o envelhecimento também traz a sensatez, a experiência, a maturidade. Começa-se a fugir de ficar velho muito mais cedo que se imagina. Nos Estados Unidos, há registros de jovens de 23 anos fazendo tratamentos cirúrgicos para combater uma possível linha de maturidade. E homens, o que indica que não são mais só as mulheres as neuróticas por “correções cirúrgicas” de todos os tipos. Onde vamos parar? Envelhecer é tornar-se humano. A maioria das pessoas jovens não sabe o que é importante de verdade. Estão presas a ilusões (e beleza e juventude são duas delas) que só o tempo é capaz de desvanecer. Com a idade vem a confiança, as certezas. Todas aquelas coisas que você não sabe aos 20, você sabe com 40. Todas aquelas dúvidas que você carrega aos 30, os 60 te respondem. Todo mundo fala muito em qualidade de vida; que a idade avançada traz com ela doenças, fatores biológicos e genéticos de auto degradação natural; problemas de todas as ordens, esquecimentos, dores, fraquezas e afins. E eu digo: realmente, se é isso que você acredita, é isso que terá, afinal nós só temos aquilo em que acreditamos. Por outro lado, vemos velhinhos de bem com a vida, super lúcidos, incríveis, são pessoas que você tem certeza que já passaram por grandes coisas na vida, e nem por isso elas deixam de sorrir. Não existem mais os desgastes naturais da meia-idade ou da juventude; não se leva mais aquele arzinho arrogante que a mocidade conserva como anti-rugas; a vida já respondeu a muitos desafios e incertezas, outros já não importam tanto. E é na madureza que você pode avaliar a sua vida, fazer um balanço verdadeiro das coisas em que acreditava, o que considera que deu certo ou não deu, os ganhos, as perdas, as pessoas que amou e aquelas que nunca significaram nada. Na velhice você pode dizer as coisas com a certeza, pode dar risada dos momentos que chorou porque todos eles te fortaleceram e te ajudaram a ser o que é e chegar onde está. Tanta lamentação em cada aniversário deveria ser vertida em alegria de mais um ano de aprendizados e fazer dele aprendizado mesmo, pois infelizmente também, não são todos os que chegam a uma idade avançada que verdadeiramente viveram.
E, para começar, justamente estes que querem fugir à regra, as senhoras que usam roupas de adolescentes ou os senhores que gostam de garotinhas de 20 anos – com todo o respeito, – mas são pessoas que estão realmente querendo escapar quando a vida não lhes dá mais subterfúgios. Querem apegar-se a uma idéia de garotão/ mocinha, desperdiçando tudo o que a vida pode lhes oferecer na fase em que estão e que é próprio da etapa. Transar com um rapazinho que podia ser seu neto não vai te tornar mais bela nem mais desejada; não se trata de seu tempo ter passado ou não, trata-se apenas da auto-aceitação, do aprender aquilo que cada momento da vida nos propicia. Não é que algo seja vedado a alguém pela idade que tem, mas nada, veja bem, nada nesse mundo trará de volta o tempo que passou, tenha sido aproveitado ou não, perdeu, já era, agora só numa próxima e, ainda assim, quem sabe. Cada dia é um dia e independente da idade que se tenha, se deve explorar tudo o que ele traz de bom e de especial; ter acessos de regressão, relacionar-se somente com pessoas mais novas, inserir-se a um meio que não faz mais sentido não vai fazer você voltar à sua juventude, somente deixar de desfrutar as oportunidades que poderia estar aproveitando no hoje. E é isso que as pessoas estão fazendo cada vez mais cedo: estão “apropriando-se” de algo que não é mais delas; esticando aqui e ali, dando uma puxadinha dos lados, fazendo baldes de lipo, valorizando somente a beleza exterior e reduzindo cada vez mais as possibilidades de ter alguma interior. Quem não vê beleza na velhice não é verdadeiramente belo; quem não sabe o prazer de segurar em uma mãozinha enrugada, enxugar uma lágrima de uma face cansada, acarinhar um punhado de cabelos brancos... Quem nunca ouviu as histórias de um avô ou avó; quem não pira pela comida e pela sabedoria deles; quem não acha engraçado alguns causos de sua época e de como algumas coisas nunca mudam... Querer pular essa fase, querer resgatar algo que já foi é como dizer que nenhum idoso no mundo vale a pena, é como condenar a maturidade quando o que (infelizmente) não está valendo tanto a pena assim é a juventude. É realmente terno ver esses kidults cada vez mais emperiquitados, de capuz, poseiros, fofos e, confesso, eu também sou um deles, postergando cada vez mais a fase adulta a um dia que ninguém sabe qual. Mas, achar que a vida é só isso, só poses e caretas para fotos, rostos bonitinhos, risos (falsos), roupas alarmantes (gritos de socorro) e beijos e trocas de carências é se recusar a enxergar a realidade; é não ver que há muita luz no fim do túnel... Talvez em um sentido literal, a vetustez não seja a coisa mais bela do mundo. Quem não chegou lá, só vai saber quando começar a passar por isso: pintar os fios brancos, desesperar-se com rugas em um rosto antes lisinho; a mudança no sorriso, no corpo, no olhar. Mas, vai mudar também o jeito de olhar o mundo. Seus olhos serão sempre os mesmos, porém a maneira como eles poderão ver será muito mais nítida, muito mais real. Na mocidade, temos apenas uma visão distorcida, são nuances e miopias que fundidas formam nossa realidade. Só com o avançar do tempo, as reflexões e filosofias que a própria experiência trazem podem embelezar a nossa mente e o nosso caminhar, mesmo no que teve de mais feio e duro. Só com um olhar maduro de verdade somos capazes de enxergar a beleza da fragilidade de uma criança; a magia de uma nova vida que começa; o encanto de uma existência em flor. Só a idade é capaz de nos fazer ver a singeleza das coisas mais simples, o tempo que perdemos em coisas estúpidas, a auto prevaricação por puro orgulho, o egoísmo com que temos olhado sempre para o nosso semelhante e ainda nos acrescentar um traço de paciência, mostrando que não há sentido em tanta atribulação se os dias continuarão passando com a mesma pressa ou vagar. Só quando possuímos um certo grau de prova podemos afirmar ou negar algo com veemência, e nem assim a usamos em nossa velhice como a usamos em nosso frescor, diante de nossas certezas tão tolas! E o mais comum é o jovem achar-se um deus, um mestre, que os velhos são bobos, ultrapassados e não sabem de nada... Ah, a vida é sábia... Só sendo assim na juventude, somos capazes de alcançar uma pequena sapiência ao embranquecer dos fios, que nos mostrará o como estávamos insanos... E é assim que a humanidade caminha...

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