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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Vamos sonhar só mais uma vez


Quando se transformou nessa coisa? Nessa pessoa que diz sim, sim senhor, o senhor tem razão, senhor, para filhos da puta que lhe dizem que deve pagar mais 95% de impostos por seis anos para poder garantir sua aposentadoria? Quando aquilo aconteceu? No momento em que se postou em uma colocação profissional e cedeu seus colhões em troca de sentir-se... o quê? Um cidadão digno, alguém honesto, que paga suas contas?
Virou em seguida para o vaso sanitário, levantou a tampa, abriu a braguilha, pôs pra fora o sexo estúpido e começou a urinar.
- Viver é um negócio triste – pensou enquanto urinava. – Os momentos de felicidade não compensam a desgraça.
E então o viu, naufragando até o pescoço em sua miséria e sua mentira no fundo do espelho: viu um velho de pele enrugada, sobrancelhas espessas e olhos apagados.
- Quem é você, seu grande fi da puta? – o repreendeu. – De onde o conheço?
- Ah... – disse recuando um passo para se afastar do espelho.
- Ah... – disse o velho grande fi da puta recuando um passo para se afastar do espelho.
Dois fracassos. O que é facilmente explicável em se tratando de homens honrados, já que o sucesso é uma prerrogativa dos charlatões.

Às vezes ignoramos quanto os futuros podem ser curtos. Quão depressa podem desaparecer e deixar você sem nada a não ser um presente interminável sem surpresas, sem razões para ter esperança, reduzido a uma sucessão de dias que se emendam uns nos outros, tão parecidos no final das contas que o ano se acaba enquanto o calendário da cozinha continua em março.
Nunca mais vou sonhar, você tinha decidido. Não vou mais me expor ao sofrimento, à desilusão, à desesperança que no fim todo sonho não realizado traz. Mas, aí, de repente, seu time foi pra final, saiu aquele esperado aumento ou você viu um filme, um anúncio publicitário, sei lá, mostrando Las Vegas toda iluminada ou Aruba banhada no dourado perfeito do crepúsculo, ou então uma garota que tem mais que uma semelhança vaga com outra com quem você teve um flerte no colégio – uma mulher a quem você amou e perdeu – dançando à sua frente com olhos brilhantes, te convidando, e você dissera: “Foda-se, vamos sonhar só mais uma vez.”
E é isso aí, vamos sonhar só mais uma vez. Porque até encontrarmos o velho no espelho, a vida é um recomeçar de semanas sem fim.

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