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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O que é normal me assusta


Não é preciso refletir muito para constatar que a grande parte de meus amigos já casou, já tem filhos; que muitos dos colegas de ensino médio ficaram pelo caminho, alguns trabalhando na mesma empresa desde quando atingiram o primeiro ano secundário; as meninas namoradeiras embagulharam, os caras têm um corsa branco e praticamente todos seguem uma vida larga de conquistas materiais e estreita de experiências ricas e verdadeiras. A felicidade que pareceu acenar a 98% deles são as alegrias de galgar espaçadamente degraus na firma, trocar de carro a cada dois anos, conseguir empréstimos e crediários, o veraneio nas praias locais em todo final de ano e os barrigudinhos que vêm anualmente, cobrindo o lar de glórias e fraldas cagadas. Existe, claro, uma pequena parcela de solteiros; estes estão mais entre os amigos que conheci depois e, por si, já foram atraídos por ter um padrão diferenciado, ainda que em sua maioria partilhem de planos semelhantes aos primeiros – casar, casa, carro, firma, praias locais – embora não nessa ordem; mas são mesmo bem poucos aqueles que não ligam importância ao fato daquilo que é deslumbrantemente normal, como ter relacionamentos com pessoas bem-sucedidas financeira ou esteticamente para exibir troféus ou preocupações de ordem doméstica como “O que vão pensar se eu não me casar” ou com os programas do governo atenuantes de juros para a casa própria e tudo isso que constitui a tranqüilidade dos medíocres, medianos ou normais. Não sei se sou a última criatura a me sentir assim na Terra ou se as há em maior número, mas a verdade é que tudo que chamam de normal me assusta. Me assusta que esperem que eu trabalhe para sempre em um único lugar e atribua às parcas (porcas?) aquisições o nome de ambição ou, a falta dela, caso não queira mergulhar em toda essa lama de impostos e raízes para poder dizer que algo é meu, está no meu nome. Que não me consorciar a alguém pela falta de um amor puro e perene seja a minha própria danação, pois não é admissível que alguém seja incapaz de amar tanto assim [sic]; que querer sair do país, quiçá da galáxia pareça ser muito, pois a Gringolândia me exige, me quer, me precisa, precisa de mim nos feriados, precisa do meu cartão de crédito, do meu crediário na lojinha do turco, da minha falsa dedicação aos estudos na universidade – de tudo que é simplesmente tão falso, tão vazio mas parece tão certeiramente correto, preciso, natural... De tudo que é normal, de tudo que todos fazem, de tudo que eu não sou e que não digo que não sou para aparecer – é que não sou mesmo, sou livre, sou artista, não suporto essas prisões disfarçadas de status, disfarçadas de poder, disfarçadas de sucesso... Não suporto essas amarras, essas mordaças, a falsa graça de uma viagem ao fim de ano, 30 dias, ou menos, 20 dias, 10 têm de ser vendidos; 20 dias de areias já dantes pisadas, de um mar – o mesmo mar – mas sempre o mesmo mar... A alegria momentânea de girar a chave de um zero quilômetro e dizê-lo meu, assinando abaixo de 72 prestações; o brilho de mostrar para todos que venci, disfarçando as olheiras e as dores constantes, a troco da minha liberdade diária e de ver minha vida passando, passando sem me dar “olá”, passando como uma menina em flor de idade, dando um aceninho malicioso e dizendo “Quem sabe um dia a gente se vê...”
Não tenho definido aonde quero chegar na vida, mas estou determinada a ser feliz e sei que há milhares de formas de fazer isso... Ou então... forma alguma. Ainda, talvez, eu seja a mais normal de todas as criaturas... E eu me assusto porque penso que os outros são normais. E é a minha lucidez que os assusta, por sua vez... Por isso, me chamam de louca.

8 comentários :

duanilima disse...

Ser feliz ou não, sei lá acho que cada um tem uma expectativa de vida,
Muitos destes, como falaste buscaram sempre isso, dinheiro, casa, família e filhos.
Outros procuram o que ainda não foi encontrado ou outras respostas para a vida.
Acredito que todo mundo procura um sentido para a vida e são felizes, pois buscaram isso.
Não sei ao certo o que vou fazer, mas sei quem quero ser, e não me recuso a ter uma casa, uma família, uma casa no campo talvez, viajar pelo mundo.
Somos inconstantes, mudamos o tempo todo. Mas o que vale mesmo a pena é ser feliz como se quer!

Adorei o Blog! Beijosss! ^^

Phoenix disse...

É, quando eu disse que essa "normalidade" me assustava, me referia a como as pessoas prendem-se a uma rotina e param de sonhar, seja quando assumem uma vida doméstica, seja quando se acomodam no sistema ou em carreiras profissionais; todas as ilusões que o mundo capitalista vende sobre estabilidade. Não duvido que haja pessoas felizes nesse meio, mas creio que grande parte apenas acomodou-se, ajustou-se, aceitando tudo sem questionar...

Certamente podemos ser felizes e cada um tem seu próprio jeito para isso...

Também curto seu blog, beijão, Du ;D

Anônimo disse...

Eu queria tanto copiar isso. vc deixa?

Kelly Phoenix disse...

Confesso que preferiria que citasse a fonte (:

Giulianno Monteiro disse...

Talvez não seja a sua lucidez que as assusta. Só se assustariam, só poderiam se assustar com sua lucidez se tivessem capacidade de compreender o que você pensa e diz. Mas eles não têm a mínima ideia do que você está dizendo, não faz parte do mundo deles, talvez não saibam sequer o que seja e significa lucidez. Acredite-me, é pior do que imagina, você está sendo benevolente com o seu próximo. Mas, sem dúvida, vez ou outra, alguma coisa lhes cai como raios de tempestade, que lhe rasga e fende a testa estúpida e os atinge em cheio, evidenciando seus anseios já há muito morridos, esmagados pela covardia ancestral. É esse raio que os assusta! E nos custa caro nossa honestidade, nos custa bem caro. O melhor que se faz e não se envolver demasiado, porque estão sempre tentando nos puxar para junto deles, para lá embaixo.

- O espaço entre você e eles vai se tornando tão grande que com o passar do tempo ora chega que você não consegue mais identificá-los como homens, ou melhor, que você não poderá mais ser incluída naquilo que usualmente se vem chamando humanidade.

Bem-vinda ao mundo dos fantasmas! - Antes mais cedo que mais tarde.

Kelly Phoenix disse...

Comentário perfeito, Giulianno, vou correndo ver se vc tem um blog ^^

Volte sempre, querido!

Anônimo disse...

Olá! Entrei nesse site por acaso, procurando algum escrito sobre desajustados no mundo...

Bem, eu tenho essa mesma sensação que vc descreve no texto (e vivo assim).

Tenho 34 anos, sou artista, solteiro, moro sozinho, não tenho emprego fixo (produzo arte e sou arte-educador freela), carrego sonhos e utopias em meu peito... mas confesso que não é fácil... vivo entre minha liberdade, que compartilho com boa parte de meus amigos, e as cobranças da família e da sociedade para ter uma vida mais "normal" (normal?)..

Fico feliz em descobrir esse texto... tenho sentido a barra pesar nesses tempos... cobranças demais, tenho 34 anos "e ainda não casou?", "não vai ter filhos?" etc... e saber que há pessoas que pensam como eu sempre ajudam a amenizar as coisas...

Obrigado e um beijo...
Luciano

Kelly Phoenix disse...

É, Luciano, eu sei bem como é isso porque também sofro a mesma pressão, tanto pela questão profissional (a qual nunca consegui me "estabilizar" e que, pouco a pouco, apenas, vou galgando o lugar que desejo), como também em questão sentimental, onde me recuso a casar, ter filhos ou mesmo namorar sem estar realmente envolvida com alguém e ouço cobranças de todo tipo, especialmente de parentes, onde a incompreensão é sempre maior. Como vc diz, os outros nos vêem como "desajustados", e nós acabamos por nos sentir mesmo assim, uma vez que parece tão óbvio o que a sociedade e até nossos pares esperam de nós...

Mas, Luciano, mantenha viva a sua arte, deixe as coisas acontecerem; quem foi que disse que a vida tem roteiro? Tenho certeza que seu trabalho é muito bonito e possivelmente sua contribuição ao mundo é bem maior do que a destes, que te criticam.

Grande abraço, querido, volte sempre!

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