About my Blog

Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Adolescência idealizada


A barriga chapada, a pele sem rugas, a aparente liberdade de se ser o que se quer, além da falta de compromisso em geral e nos relacionamentos. Essas e outras tantas características fazem com que muitos adultos e crianças queiram ser adolescentes. É uma fase alardeada cada vez mais cedo, com meninas de oito anos a emperiquitar-se com maquiagens e cabelos muito além do que deveriam, e ainda o crescente interesse pelo sexo oposto, que agora parece ter início no jardim-de-infância. A psicanalista Lidia Aratangy, que já escreveu mais de vinte livros, em diversos momentos de sua trajetória profissional alertou para o quanto a adolescência vem sendo idealizada. Ela é vendida como um mundo de sonhos, a “fase mais feliz da vida”, onde amores são intensos, amizades verdadeiras, todas as experiências fortes e a alegria reina sem pausa.
Pessoalmente, não gostaria nem um pouco de voltar a “adolescer”. Não hesito em dizer que não foi a melhor época da minha vida, senão que foi a pior. Dúvidas, inseguranças, medos bobos, pressão por todos os lados, influências e ainda tínhamos o descabimento de nos achar o máximo! Em nossas cabecinhas miraculosas, tínhamos certeza que todos nos admiravam, invejavam até!, que éramos rebeldes, originais, incríveis, sem nem imaginar por quantas vezes fazíamos papel de tolos... Tenho certeza que não falo só por mim, quantos desejos toscos, quantas situações confusas, quantos receios infundados, quantas expectativas frustradas... Claro que também teve coisas boas... Os primeiros passos de liberdade, alguma glória, sonhos espoucando (bem como as espinhas!), descobertas... Mas, o primeiro beijo, fico ou não fico... Somos inexperientes e não sabemos onde nos apoiar; acorremos aos amigos tão ou mais perdidos que nós e damos muitas, mas muitas cabeçadas... Coisas pequenas se tornam gigantes; coisas gigantes se tornam pequenas e, convenhamos, a adolescência pode ter seu charme nos filmes, nos livros, em Shakespeare, mas na vida real eu não consigo me lembrar de nada ter sido tão poético!
Historicamente, a adolescência é uma invenção recente. Até o começo do século vinte, um pouco mais, a criança dava lugar ao adulto, sem esse longuíssimo e paciente rito de passagem que cada vez está durando mais anos. Nesse ínterim, a biologia não pode levar toda a culpa tão facilmente atribuída aos hormônios em ebulição, uma vez que eles são uma pequeníssima parte disso. O que acontece hoje é, em parte, também estimulado pelo mundo publicitário, que vê neste um nicho cada vez mais promissor de decisão e poder de compra nos mais variados segmentos. Cria-se todo um conto de fadas em torno da juventude, com produtos especias para eles, filmes, livros, ídolos – todos fabricados intencionalmente. A moda, os esportes, a música, tudo em dado momento se rende aos caprichos teen levando-os a acreditarem que são pequenos deuses, quando na verdade toda a manipulação premeditada de que se enredam os leva e os arrasta. Apesar disso, esse modelo pode tanto perdurar por muito tempo quanto esgotar-se em poucas gerações, e aí teremos um vovô em 2050 que hoje é adolescente a contar para os netos que no seu tempo existia adolescência. “Era considerada uma fase, éramos tão especiais, e poseiros, e fofuchos e kidults e intransigentes... Eu era emo...”
O importante, em qualquer idade, é guardar a certeza de que tudo – bom ou ruim – sempre passa. Temos uma capacidade incrível de nos reinventarmos e aos outros, embora o façamos muito pouco, tendendo a acreditar que este ou aquele período da vida foi melhor ou pior. Muitos são os que saem ilesos da adolescência, tratando-a como é de fato: uma transição, uma etapa da vida, porém como outra qualquer - adolescentes não são melhores nem piores. Se, por um lado, a juventude proporciona beleza, certo poder e alguns encantos, ela tem como demérito a inexperiência, a falta de virtude e a pretensão de conhecer todas as verdades do mundo – coisa que tão logo se amadureça outro tanto é desmentida e percebe-se em cima de quantas burradas ela se calcou.
Eu gostaria de acreditar que o mundo melhorou. Que há milhares de maneiras de fazer qualquer coisa e que nós só descobrimos as mais simples. Ainda assim, sei que muitos continuarão se esgueirando para fora de si em busca de algo que os redima, fugindo, correndo atrás do próprio rabo, andando em círculos, esvanecendo-se das tantas verdades cruas que a vida traz. Paciência. É apenas lamentável que tantos não cheguem à idade adulta sabendo o que é respeito, carinho, civilidade, ética, paz... e tantas outras coisas bonitas, quase ultrapassadas, hoje chamadas de “coisas do tempo antigo”.

0 comentários :

Postar um comentário