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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Conhecimentos Descartáveis


“-... a ciência humana é bem limitada, e quando eu lhe tiver ensinado matemática, física, história e as três ou quatro línguas vivas que eu falo, você saberá o que eu sei; ora, toda essa ciência, eu terei dois anos de trabalho a vertê-la do meu espírito para o seu.
- Dois anos! – disse Dantès – você acha que eu poderia aprender todas essas coisas em dois anos?
- Em sua aplicação, não; em seus princípios, sim; aprender não é saber; existem sabedores e sábios: é a memória que faz uns, a filosofia faz os outros.
- Mas não se pode aprender a filosofia?
- A filosofia não se aprende, a filosofia é a reunião das ciências adquiridas ao gênio que as aplica; a filosofia é a nuvem resplandecente sobre a qual Cristo pôs o pé, para subir de volta aos céus.”
(DUMAS, Alexandre. O conde de Monte Cristo. Vol. 1. Ed Juruá, 2001. p.172)


Os anos de escola e educação institucional me ensinaram algumas coisas úteis mas, presumo, boa parte da nossa vida acadêmica passamos a estudar conhecimentos descartáveis. Aquele blá blá blá da professora no ouvido (quem nunca teve uma que falava mais palavras em um minuto do que seria capaz de ouvir em um mês?!), com exercícios e repetições inúteis de coisas que nunca mais você usará na vida.
Exagerando, posso dizer que o que utilizaremos mesmo são as operações básicas da matemática, ortografia (que a maioria ignora) e alguns conceitos históricos e ou geográficos; mas não propriamente o que chamam ciência. Esse negócio de que só tem validade aquilo que é “provado” é uma grande manipulação, visto que você nunca viu ninguém provar e já te ensinam com uma fórmula que “dá certo”, de maneira que isso aniquila sua possibilidade de questionar tal conhecimento com um argumento válido. Criticam-se os “achismos”, porém não fossem eles, muita coisa na própria ciência jamais seria descoberta. Em 1633, Galileu foi julgado pela Inquisição ao apresentar a teoria – baseada em sua experiência científica direta e observação com um telescópio de sua própria criação – de que a Terra girava sobre seu próprio eixo em torno do Sol. O Sol apenas parecia girar em volta da Terra. Desta forma, Galileu refutava a teoria há muito sustentada do universo geocêntrico. Heresia!, acusou a Igreja, e Galileu foi preso numa torre. Para ser libertado, este brilhante cientista, que se tornara professor de matemática na prestigiosa Universidade de Pisa com 25 anos, foi forçado a abjurar. Isaac Newton, que nasceu no dia da morte de Galileu, em 1642, aproveitou o trabalho do seu antecessor para desenvolver sua própria teoria de um universo mecanicista, que funcionava por meio de forças físicas e sem intervenção divina.
O trabalho de Newton foi bem recebido e o conceito de universo da humanidade mudado para sempre. Apesar dos esforços da Igreja, a obra de Galileu foi por fim aceita e altamente louvada. Hoje, qualquer estudante lê sobre ele, não só por causa da importância do seu trabalho científico, mas também por ter demonstrado que a verdade é descoberta no íntimo de cada um ao confiar em suas próprias ideias e experiências e não acreditando no que os outros alegam ser a verdade. A obra de Galileu abriu caminho para novas perspectivas em ciência, religião e história intelectual e cultural, mudando definitivamente a nossa maneira de encarar a realidade.   

Ninguém vai amar a matemática ou a língua ou a história porque estão lhe obrigando a aceitá-la, assimilá-la, reconhecê-la; isso vai criar mais aversão ainda! O sistema de aprendizagem é pessoal e intransferível e a massa cefálica de nossas crianças e jovens – que em sua maioria já é falha – só faz reduzir e intimidar-se diante das obrigações escolares sem nexo. O sistema educacional arcaico que promove a assimilação maquinal, priorizando as respostas que perguntas; um sistema de avaliação onde o achismo do professor dá a nota, aliados a um mestre que não ama aquilo que faz reduz o aproveitamento do já escasso conhecimento útil a quase zero. Aprendemos eficientemente aquilo que é testado em nosso cotidiano, mas quanto à hora média de Greenwich perpendicular ao Pólo Norte, vamos direto pro google ou para um especialista ou uma fonte de pesquisa imediata. Não aprendemos a amar o conhecimento, aprendemos a engoli-lo; não queremos ir bem na prova por um desejo da alma, é que temos medo de levar bomba; não nos apaixonamos pela leitura porque o livro é incrível – não nos apaixonamos pela leitura! Lemos por obrigação (embora use a primeira pessoa do plural, não me enquadro aqui, mas sei que grande parte da população, sim, pois como o burrinho de “A revolução do bichos” [George Orwell], acreditam que não há nada interessante para ler!!)
E se a escola já é asquerosa com todos seus rituais retrógrados, não podemos defender as universidades, que abrigam cada vez mais débeis mentais (tanto como alunos quanto como professores). Com todo respeito aos poucos e bons profissionais e acadêmicos que sabem que esse texto não se dirige a eles, a massificação dentro do campus está provando que das duas, uma: ou há uns poucos gênios no universo ou a maioria é retardada mesmo. Insistem em conhecimentos ultrapassados, chatos, maçantes; não estimulam a iniciativa, argumentação, senso crítico; acham que todos os alunos são iguais e privilegiam classe social que QI; aplicam trabalhos obsoletos e delegam alguns conteúdos de sua responsabilidade para que os alunos executem em forma de “trabalhos”. O retroprojetor substituiu sua voz; oratória não mais existe – ou falam muito, ou falam merda, ou não falam – tudo que dispersa a atenção e induz os alunos inteligentes ao desespero e a maioria ao descaso; o uso das tecnologias, que poderia ser um aliado torna-se um empecilho e ano a ano milhões de mongolóides são lançados ao mercado de trabalho como espermatozóides na ejaculação (como alguns foram os mais rápidos?? oO)


O cenário escolar, por vezes, lembra aquele ambiente de guerra em que o professor está posicionado como general a ameaçar os pobres soldados com atividades que não os levarão a dar sequer um passo na vida (ou na luta). A aceitação das ordens deve ser incontestável e o questionamento, além de reprovável, não faria diferença. É preciso receber os mesmos velhos ensinamentos e pensar como as mesmas velhas gerações; é preciso acatar o que já está decidido/descoberto/respondido e guardar suas dúvidas bestas para sua própria reflexão enfadonha. Aliás, desconfio que muita gente não saiba o que é isso – reflexão. Não se ensina na escola, afinal.

Burocracias, intimidações, bullying cerebral, desestímulo à leitura através da indicação de uns clássicos chatos quando mal se está preparado para ler infanto; incentivo à aparência, estereotipização dos nerds; sexualidade precoce; professores neuróticos; família sem valores e quantos séculos levaremos até cientificar que temos uma educação eficiente que, no mínimo, faça pensar, ser sagaz, seguro de si e curioso – sim, curioso! O mínimo para a busca do verdadeiro conhecimento.


2 comentários :

João Matheus Barbosa disse...

Muito interessante seu texto, explica de modo fiel o que está ocorrendo atualmente nas escolas e universidades: a maioria dos professores é composta por homens e mulheres vaidosos que só se preocupa em inflar o próprio ego ao expor o que sabem, não para ajudar os alunos a desenvolver senso crítico, mas sim para mostrar a eles que jamais chegarão ao seu nível. Se você é inteligente, argumentativo, criativo e tem senso crítico, você sofre uma espécie de assédio tanto dos professores quanto dos alunos que eles manipulam, para que você se retraia e não ouse mais questionar o intelecto e posição acadêmica deles, sob pena de ser deixado de lado nos trabalhos, provas em grupo e até de não ter suas dúvidas respondidas quando lhes perguntar. Infelizmente a universidade se tornou um local onde não se valoriza quem é inteligente e pró ativo de verdade, mas sim quem bajula os professores com elogios e favores para poder ter dúvidas respondidas e receber explicações particulares, notas, etc... Fazer o que, não é mesmo? nós (Brasil) fomos colonizados por aproveitadores e estelionatários mesmo, mas tenho fé que os poucos sábios que temos um dia reverterão esse quadro.
Abraços, parabéns pelo blog

Kelly Phoenix disse...

Infelizmente, João. Muito obrigada pelo comentário, abraços!

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