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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A decisão de cortar relações


Logo que conhecemos alguém, essa pessoa torna-se uma descoberta e, aos nossos olhos, encobre vários pequenos defeitos, mascarando comportamentos, características e reações que fatalmente se revelarão um dia. Embalados na mesma energia, buscando satisfazer, causar boa impressão e agradar, por vezes, acabamos também sufocando em nós as verdadeiras emoções, alguns valores e crenças; hesitamos em mostrar o quanto algo nos desagrada ou como pouco a pouco, aquilo que a outra pessoa “se tornou” passou a nos incomodar. Não percebemos que, na verdade, aquele amigo ou colega sempre foi aquilo desde o começo, mas a máscara social, a convivência superficial ou ainda a cegueira do princípio de relação nos fez vê-lo diferente ou alimentar outras expectativas quase impossíveis de serem percebidas à primeira vista. Ninguém muda em pouco tempo, mas esse chamado pouco tempo para mudança acaba sendo muito para que alguém se revele tal qual é, e é em uma dessas que você percebe como aquela pessoa está tão longe de tudo que você acreditava que ela fosse, e tão distante de tudo aquilo que você também acreditava ser...
Todas as opiniões que temos sobre nós mesmos são virtuais, pois ora podemos nos ver com olhar excessivamente condescendente, ora muito rigoroso, e nem um nem outro correspondem à verdade acerca de quem somos. Tanto podemos nos projetar como melhores como infinitamente menores que outros, e nenhum desses vieses é correto, pois embora com discrepâncias, absolutamente todos os seres humanos existem em qualidades e defeitos.
Por vezes, porém, os defeitos de determinada criatura confrontam diretamente o que acreditamos ter por qualidade e extrapolam todos os limites da tolerância. Nesse caso, chega o momento de cada um seguir seu caminho e é esta uma hora complicada, pois muita gente não sabe se priorizar, colocando somente o outro em um hall de importância ou prefere dar desculpas a si mesmo de que a outra pessoa vai mudar, ser melhor, compreendê-la, que é apenas uma fase; quando nada disso jamais irá retroceder. O outro começou a mostrar quem ele é e, embora a intimidade o tenha desvendado a você, quando o lado negativo vem à tona, esse é um processo sem volta. Trata-se de comportamento comum tanto em amizades quanto relacionamentos de cunho amoroso ou profissional. As pessoas se relacionam sem se conhecer verdadeiramente, passam anos com estranhos e pensam que o outro mudou quando ele se mostra realmente. Insistem em uma relação que não vai dar certo; em uma criatura que não vai mudar por ela. A maioria de nós é estritamente cega com relação aos próprios defeitos, tendendo a encarar de maneira destrutiva e inimistosa qualquer crítica ao seu jeito de ser. Todos possuem um auto-conceito de tempos fixado, muito pouco revisado e facilmente ferível, onde o mais comum é a defesa irracional e a interpretação de acusa. Diálogos pacifistas ficam no plano dos sonhos, mas mesmo que resolvessem, um relacionamento, seja ele qual for, morre quando morre o respeito, e não se trata apenas do respeito entendido pela polidez. É o respeito que se lê nos olhos, nos gestos. É o respeito aos gostos, aos costumes do outro. É o respeito que vai além da hipocrisia, do verniz social. Respeito por quem o outro é, pela história dele.
Se chega uma hora em que o respeito morre, é preciso coragem para dar fim a uma relação, não importa como ela era vista até então. É preciso coragem para erguer a cabeça e amar a si próprio o bastante a ponto de se colocar em primeiro lugar. E priorizar-se não é ser egoísta, ao contrário do que muita gente pensa. Para amar além de você, o amor precisa começar em você. Deixar que outrens abusem do que pensa, escarneçam do que acredita, debochem aquele que é, é permitir que o outro triunfe no que ele tem de mais podre, que é a falta de deferência e valorização do ser humano como um todo. A decisão de cortar relações, independente do tempo que se estabeleçam e da ordem que derivem, é dolorosa, porém necessária, até mesmo para deixar que novas pessoas venham; abrir o olhar para outros, permitir-se. Um relacionamento pode resistir por anos, pode resistir à distância, à falta de contato físico, mas ele dura muito pouco quando exposto à prova do desamor, da indiferença, do egoísmo, da arrogância. Quando o ego prevalece sobre uma relação, então ela está impedida de crescer, e só o que sobra são os escombros daquilo que um dia te fez sorrir. O encontro de almas harmônicas se torna em competição vulgar, ofensa a princípios morais ou ego-idolatria, e consequentemente, afronta à inteligência dos mais sensíveis se faz mais mal do que bem se encontrar. Se há mais inveja que contemplação no olhar; se picuinhas pessoais são maiores que o todo, então está na hora de cortar relações...
Pode ser difícil no começo. O feedback vai rarear, você não vai mais atender o telefone. Você sabe que a conversa seria infrutífera, não quer parecer covarde, mas vai largar tudo aos poucos. Ou, vai preferir servir pratos limpos, colocar os pingos nos is, agir como adulto maduro que é. Não importa. O que importa é respeitar sua dignidade, mergulhar no mais puro do seu ser, manter-se íntegro e singular. Natural é poder ser você mesmo, sabendo que não está machucando ninguém e que, principalmente, está afagando a si mesmo.
Simples assim. Quando cortar relações é inevitável, que o façamos como o procedimento físico de corte de um cordão umbilical: suavemente, mas de um só golpe, de maneira a não ferir nem o bebê nem a mãe.
Seu amor próprio agradece. 

7 comentários :

Rafael Biagioni disse...

Kelly,
Que saudades de você! Li alguns textos agora e bateu uma saudade! Eu voltei a entrar nas redes sociais, por favor, vamos marcar algo para o MSN? Preciso dos seus conselhos, preciso ler você, além daqui, mas interagir com você.
Grande beijo, minha amiga!
Até breve.

Kelly Phoenix disse...

Olá, Rafa!
Eu tenho entrado quase nada no msn. Mas, uma hora dessas, por que não?
Espero que você esteja bem, que estejam caminhando todos os seus projetos!
Se cuide!!
Beijão, até mais ;D

Anônimo disse...

Que coisa mais linda esse texto..Obrigada por nos disponibilizar palavras tão leves mas tão significantes.. Procurarei acompanhar mais daqui, tudo de bom!!
Bjs :)
Larissa

Kelly Phoenix disse...

Obrigada pela participação, Larissa, é um prazer tê-la acompanhando meu blog! Volte sempre :)

Gui Ferreira disse...

Adorei o texto!
Realmente não é um decisão nada fácil.. mas infelizmente a solução é cortar o mal pela raiz. E como doí..

Sinto-me um bom bocado mais aliviado do coração depois de o ler..
Obrigado :)

Gui Ferreira

Kelly Phoenix disse...

É difícil mesmo, Gui... Mas, depois, alivia a gente. Abraços.

Anônimo disse...

Sensacional.

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