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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Não tenho pai


Você me pede para eu escrever sobre meu pai. Acho que nunca me considerei uma pessoa com pai. Pode ser mágoa ou indiferença, não sei...
De pequena, tenho muito poucas lembranças. Ele separou-se da minha mãe quando eu tinha 4 anos, depois o vi anualmente até os 8 e depois, voltei a vê-lo em 2009. E as atitudes dele de lá para cá, creio, me magoaram bem mais do que os anos de silêncio. Não sei se é porque aquele silêncio gravou-se em minha memória como uma esperança, uma projeção de que as coisas fossem diferentes... Nos filmes, o pai desaparecido é sempre milionário ou espião secreto ou qualquer coisa que fascina... E eu acho que não foi o fato de ele não ser o Bill Gates ou o James Bond que me machucou, mas pura e simplesmente porque eu e meus irmãos passamos tantas dificuldades por tanto tempo enquanto ele seguia levando as filhas que teve depois para a praia todos os anos, e dando-lhes luxos e agrados e mimos e seguiu dando-lhes mais mesmo depois de voltar a nos ver... Sempre ficou claro quem eram as filhas dele, entende... Eu não tive pai em nenhum momento importante da minha vida, eu entregava o cartãozinho que eu fazia na escola para a minha mãe; eu corri riscos bem contundentes, tudo porque eu não tinha pai... Meu irmão precisou trabalhar desde os 7 anos e eu fui uma adolescente totalmente estranha; ia pra escola sempre com as mesmas roupas e cadernos baratos, não tínhamos condições de comprar coisas melhores e também nunca tive um pai para me apanhar no fim das aulas em um dia de chuva... Mas, sabe, eu acho que muito poucas vezes eu senti a falta dele. De verdade. Eu me lembro de ter sentido sua falta uma vez na quinta série, quando li um poema de uma escritora que não lembro o nome e que dizia coisas assim:

Mal a luz do sol irradia
E você, carinhoso, me diz: Bom dia!
E afaga meus cabelos
E me pergunta sorrindo:
Teve lindos sonhos, princesa?
Mantendo a chama sempre acesa...

E no final do poema ela diz que era tudo um sonho. Porque ela não tinha pai. E eu me lembro que aquele poema calou muito fundo em mim.
Outra vez que eu lembro de ter desejado um pai foi quando fiz quinze anos e desejei uma festa que minha mãe não pôde me dar. Eu sabia que merecia a festa, mas também sabia que não precisava dela para me sentir especial. De todo modo, foi um sonho de menina que eu não pude realizar.
Eu nunca quis ser uma garota mimada. Eu acho ridículo essas pessoas que ganham tudo, e no fundo eu tenho pena delas, porque nunca saberão o valor e o sentimento de possuir uma conquista! E eu percebo que, embora tenha passado tantas dificuldades, no fundo fui (sou) mais rica que muita filhinha de papai por aí. Só que eu não posso dizer que passei por tudo isso incólume. Ninguém gosta de ser preterida. Quando paro pra pensar com profundidade por todo trabalho que passou minha mãe, vejo o quanto ela foi guerreira para não sucumbir ao sustentar três crianças pequenas em uma sociedade preconceituosa e cheia de perigos. Vejo quão gigantes nós somos, com os valores que temos, com o pouco que tínhamos. Na segunda série, quando fui escolhida a rainha da classe, minha mãe precisou ajustar um antigo vestido dela para que eu desfilasse. Comprou um lindo e delicado sapatinho de verniz e ajeitou meus cabelos, que eram lustrosos e domáveis: pronto, aquela era a garotinha que desfilaria na escola. Cresci em um sistema onde sabia o preço de tudo e o valor de muita coisa. E até hoje eu acho que sou privilegiada, pois consigo encontrar beleza em coisas tão singelas onde tanta gente só vê pobreza, ou pior, nada vê.
Por essas e outras, eu não sei se tive pai. Nos primeiros anos, houve um homem em minha vida, mas não tinha discernimento para ajuizar se isso era bom ou ruim. Nos anos de sonho e de aventura, eu estava sozinha na floresta, ninguém me pegou pela mão. E eu não sei se isso é bom ou ruim. Eu só sei que hoje, aquela garotinha ainda está aqui. Ela vive em mim, como toda criança, órfã ou não, que já fomos, vive em nós. E por vezes ela precisa de muito pouco para se mostrar apavorada por estar indefesa; outras horas, porém, ela é a mulher mais linda e mais segura que alguém jamais conheceu. E é isso. A minha fragilidade fez a minha força. Não tive pai, não sei o que é ter um, não descobrirei nessa vida. Hoje em dia o homem que me colocou no mundo me liga de vez em quando, dá alguns pequenos agrados, troca algumas palavras de comiseração. E só. As filhas dele continuam sendo quem foram. Eu continuo sendo a garotinha sem pai. E não sei se isso é bom ou ruim...

8 comentários :

Rafael Biagioni disse...

Texto profundo onde me vi refletido. Faço parte da mesma realidade. Não sei se estou correto, mas se não me falha a memória, este texto foi um e-mail que você escrevera a mim durante aquela fase de ouro, aqueles tempos... Se não, me perdoe a falha.
Desejo que você esteja bem.
Beijos.

Kelly Phoenix disse...

Oii, Rafa!
Esse texto eu enviei em um e-mail para um outro amigo, mas lembro de ter escrito algo semelhante quando conversávamos por e-mail. Bons tempos, hem...

Também desejo que você esteja bem, saudades do que passou!

Beijos.

Anônimo disse...

minha realidade....
otimo texto

Kelly Phoenix disse...

É, embora conheça meu pai biológico, na profundidade da coisa, também sou órfã de pai. Porém, há coisas que não podem ser reconstruídas e tudo nos deixa mais fortes.

Anônimo disse...

Também me encontro na mesma realidade.
Minha mãe me doou.
Meu pai nunca quis saber de mim.
Todos seguiram as suas vidas e me esqueceram, por isso sou infeliz até hoje - 28 anos.
Quando conheci meu pai - 23 anos - depois de muitas tentativas, meus delírios desmoronaram literalmente.
Ele não deu a mínima atenção para mim.
Continuei frustrado e magoado.
Ele morreu em 2009 e meus sonhos também.
Acho que nunca vou preencher este vazio.
Me sinto rejeitado, autoestima baixa e não falo com a minha progenitora (tenho muita mágoa dela) desde 2008.
Não faço a menor questão de ter contato com ela.
Ela sempre teve certeza que eu era o filho dela e nunca se importou.
Conheço a dor que você sente a fundo mesmo.
Beijos e que Deus te abençoe sempre.

Kelly Phoenix disse...

Também te desejo tudo de bom, querido, mas te aconselharia a tocar sua vida e procurar a felicidade de dentro de você. Pois é verdade que essas coisas nos marcam profundamente a alma, mas talvez a melhor vingança seja SER FELIZ, buscar o sucesso - mas não esse sucesso material, mundano, e sim, aquele de nos realizar como pessoa, como ser humano, fazendo o que gostamos, explorando possibilidades e, melhor que tudo isso: não repetindo o que eles fizeram quando NÓS FORMOS PAIS. Que Deus o abençoe.

Anônimo disse...

Depoimento muito profundo muito parecido com minha vida, não precisamos de pai para conquista o que somos hj (:

Kelly Phoenix disse...

Com certeza isso nos tornou pessoas mais fortes :)

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