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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Não tenho pai


Você me pede para eu escrever sobre meu pai. Acho que nunca me considerei uma pessoa com pai. Pode ser mágoa ou indiferença, não sei...
De pequena, tenho muito poucas lembranças. Ele separou-se da minha mãe quando eu tinha 4 anos, depois o vi anualmente até os 8 e depois, voltei a vê-lo em 2009. E as atitudes dele de lá para cá, creio, me magoaram bem mais do que os anos de silêncio. Não sei se é porque aquele silêncio gravou-se em minha memória como uma esperança, uma projeção de que as coisas fossem diferentes... Nos filmes, o pai desaparecido é sempre milionário ou espião secreto ou qualquer coisa que fascina... E eu acho que não foi o fato de ele não ser o Bill Gates ou o James Bond que me machucou, mas pura e simplesmente porque eu e meus irmãos passamos tantas dificuldades por tanto tempo enquanto ele seguia levando as filhas que teve depois para a praia todos os anos, e dando-lhes luxos e agrados e mimos e seguiu dando-lhes mais mesmo depois de voltar a nos ver... Sempre ficou claro quem eram as filhas dele, entende... Eu não tive pai em nenhum momento importante da minha vida, eu entregava o cartãozinho que eu fazia na escola para a minha mãe; eu corri riscos bem contundentes, tudo porque eu não tinha pai... Meu irmão precisou trabalhar desde os 7 anos e eu fui uma adolescente totalmente estranha; ia pra escola sempre com as mesmas roupas e cadernos baratos, não tínhamos condições de comprar coisas melhores e também nunca tive um pai para me apanhar no fim das aulas em um dia de chuva... Mas, sabe, eu acho que muito poucas vezes eu senti a falta dele. De verdade. Eu me lembro de ter sentido sua falta uma vez na quinta série, quando li um poema de uma escritora que não lembro o nome e que dizia coisas assim:

Mal a luz do sol irradia
E você, carinhoso, me diz: Bom dia!
E afaga meus cabelos
E me pergunta sorrindo:
Teve lindos sonhos, princesa?
Mantendo a chama sempre acesa...

E no final do poema ela diz que era tudo um sonho. Porque ela não tinha pai. E eu me lembro que aquele poema calou muito fundo em mim.
Outra vez que eu lembro de ter desejado um pai foi quando fiz quinze anos e desejei uma festa que minha mãe não pôde me dar. Eu sabia que merecia a festa, mas também sabia que não precisava dela para me sentir especial. De todo modo, foi um sonho de menina que eu não pude realizar.
Eu nunca quis ser uma garota mimada. Eu acho ridículo essas pessoas que ganham tudo, e no fundo eu tenho pena delas, porque nunca saberão o valor e o sentimento de possuir uma conquista! E eu percebo que, embora tenha passado tantas dificuldades, no fundo fui (sou) mais rica que muita filhinha de papai por aí. Só que eu não posso dizer que passei por tudo isso incólume. Ninguém gosta de ser preterida. Quando paro pra pensar com profundidade por todo trabalho que passou minha mãe, vejo o quanto ela foi guerreira para não sucumbir ao sustentar três crianças pequenas em uma sociedade preconceituosa e cheia de perigos. Vejo quão gigantes nós somos, com os valores que temos, com o pouco que tínhamos. Na segunda série, quando fui escolhida a rainha da classe, minha mãe precisou ajustar um antigo vestido dela para que eu desfilasse. Comprou um lindo e delicado sapatinho de verniz e ajeitou meus cabelos, que eram lustrosos e domáveis: pronto, aquela era a garotinha que desfilaria na escola. Cresci em um sistema onde sabia o preço de tudo e o valor de muita coisa. E até hoje eu acho que sou privilegiada, pois consigo encontrar beleza em coisas tão singelas onde tanta gente só vê pobreza, ou pior, nada vê.
Por essas e outras, eu não sei se tive pai. Nos primeiros anos, houve um homem em minha vida, mas não tinha discernimento para ajuizar se isso era bom ou ruim. Nos anos de sonho e de aventura, eu estava sozinha na floresta, ninguém me pegou pela mão. E eu não sei se isso é bom ou ruim. Eu só sei que hoje, aquela garotinha ainda está aqui. Ela vive em mim, como toda criança, órfã ou não, que já fomos, vive em nós. E por vezes ela precisa de muito pouco para se mostrar apavorada por estar indefesa; outras horas, porém, ela é a mulher mais linda e mais segura que alguém jamais conheceu. E é isso. A minha fragilidade fez a minha força. Não tive pai, não sei o que é ter um, não descobrirei nessa vida. Hoje em dia o homem que me colocou no mundo me liga de vez em quando, dá alguns pequenos agrados, troca algumas palavras de comiseração. E só. As filhas dele continuam sendo quem foram. Eu continuo sendo a garotinha sem pai. E não sei se isso é bom ou ruim...

domingo, 27 de novembro de 2011

Quem é você?


Quem é você que vem me visitar
Vejo sua cidade e não vejo você
A peculiaridade me mostra o lugar
Mas é o seu rosto que quero conhecer.

Penso se algo faz você pensar
Coisas que escrevo calam em seu ser?
De vez em quando quer me confrontar
Ou, de verdade, você nem me lê?

Quem é você que a identidade repete
Nem me imagina tão curiosa assim
Em uma bandeira pela internet
Faz ecoar sua visita em mim.

Existe alguém de Atlanta, na Geórgia
Já houve alguém de Mountain View também

Quem é você que nunca me diz nada
Mas que eu sei que volta e meia vem?

sábado, 26 de novembro de 2011

Imagine


Imagine o dia em que vais poder sorrir livre, pulando poças d’água e trocando de guarda-chuva com um ilustre desconhecido.
Imagine sair carregado de compras de um supermercado e receber uma carona de um anônimo feliz, sem que um nem que outro tenha medo do encontro.
Imagine a repórter em horário nobre na televisão, dizendo “Te amo, mãe” na emissora mais assistida do país.
Imagine pessoas se abraçando nas ruas como se fosse ano novo, sem ligar para a cor da pele ou as roupas que o outro está vestido.
Imagine o dia em que alguém abrirá mão de um chamado “bem de valor” em prol de você.
Imagine o dia que o amor sussurrar e ainda assim soar mais alto que os gritos estridentes do dinheiro.
Que os médicos tratarão seres humanos, não órgãos doentes.
Imagine um mundo sem governos. Onde não existam mais embaixadas, nem armas, nem diplomatas, nem militares. Sem vistos, sem fronteiras, sem barreiras, sem muros ou guardas. A diplomacia viverá em cada um.
Imagine que as pessoas não serão avaliadas pelas ditas posses nem pela aparência, mas pelo caráter reto, o amor e a plenitude, que vão muito além de casas, carros e um par de olhos azuis.
Imagine que o único idioma é o amor.
Imagine que todos os pássaros voam livres... Que violência é uma lenda em extinção... Que o Natal é a comemoração do nascimento de Jesus e que quem tem mais é considerado por moral...
Imagine crianças brincando de roda, judias e palestinas...
Imagine que um apelido carinhoso vale mais que um sobrenome...
Imagine que todos têm o que comer...
Imagine...

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A decisão de cortar relações


Logo que conhecemos alguém, essa pessoa torna-se uma descoberta e, aos nossos olhos, encobre vários pequenos defeitos, mascarando comportamentos, características e reações que fatalmente se revelarão um dia. Embalados na mesma energia, buscando satisfazer, causar boa impressão e agradar, por vezes, acabamos também sufocando em nós as verdadeiras emoções, alguns valores e crenças; hesitamos em mostrar o quanto algo nos desagrada ou como pouco a pouco, aquilo que a outra pessoa “se tornou” passou a nos incomodar. Não percebemos que, na verdade, aquele amigo ou colega sempre foi aquilo desde o começo, mas a máscara social, a convivência superficial ou ainda a cegueira do princípio de relação nos fez vê-lo diferente ou alimentar outras expectativas quase impossíveis de serem percebidas à primeira vista. Ninguém muda em pouco tempo, mas esse chamado pouco tempo para mudança acaba sendo muito para que alguém se revele tal qual é, e é em uma dessas que você percebe como aquela pessoa está tão longe de tudo que você acreditava que ela fosse, e tão distante de tudo aquilo que você também acreditava ser...
Todas as opiniões que temos sobre nós mesmos são virtuais, pois ora podemos nos ver com olhar excessivamente condescendente, ora muito rigoroso, e nem um nem outro correspondem à verdade acerca de quem somos. Tanto podemos nos projetar como melhores como infinitamente menores que outros, e nenhum desses vieses é correto, pois embora com discrepâncias, absolutamente todos os seres humanos existem em qualidades e defeitos.
Por vezes, porém, os defeitos de determinada criatura confrontam diretamente o que acreditamos ter por qualidade e extrapolam todos os limites da tolerância. Nesse caso, chega o momento de cada um seguir seu caminho e é esta uma hora complicada, pois muita gente não sabe se priorizar, colocando somente o outro em um hall de importância ou prefere dar desculpas a si mesmo de que a outra pessoa vai mudar, ser melhor, compreendê-la, que é apenas uma fase; quando nada disso jamais irá retroceder. O outro começou a mostrar quem ele é e, embora a intimidade o tenha desvendado a você, quando o lado negativo vem à tona, esse é um processo sem volta. Trata-se de comportamento comum tanto em amizades quanto relacionamentos de cunho amoroso ou profissional. As pessoas se relacionam sem se conhecer verdadeiramente, passam anos com estranhos e pensam que o outro mudou quando ele se mostra realmente. Insistem em uma relação que não vai dar certo; em uma criatura que não vai mudar por ela. A maioria de nós é estritamente cega com relação aos próprios defeitos, tendendo a encarar de maneira destrutiva e inimistosa qualquer crítica ao seu jeito de ser. Todos possuem um auto-conceito de tempos fixado, muito pouco revisado e facilmente ferível, onde o mais comum é a defesa irracional e a interpretação de acusa. Diálogos pacifistas ficam no plano dos sonhos, mas mesmo que resolvessem, um relacionamento, seja ele qual for, morre quando morre o respeito, e não se trata apenas do respeito entendido pela polidez. É o respeito que se lê nos olhos, nos gestos. É o respeito aos gostos, aos costumes do outro. É o respeito que vai além da hipocrisia, do verniz social. Respeito por quem o outro é, pela história dele.
Se chega uma hora em que o respeito morre, é preciso coragem para dar fim a uma relação, não importa como ela era vista até então. É preciso coragem para erguer a cabeça e amar a si próprio o bastante a ponto de se colocar em primeiro lugar. E priorizar-se não é ser egoísta, ao contrário do que muita gente pensa. Para amar além de você, o amor precisa começar em você. Deixar que outrens abusem do que pensa, escarneçam do que acredita, debochem aquele que é, é permitir que o outro triunfe no que ele tem de mais podre, que é a falta de deferência e valorização do ser humano como um todo. A decisão de cortar relações, independente do tempo que se estabeleçam e da ordem que derivem, é dolorosa, porém necessária, até mesmo para deixar que novas pessoas venham; abrir o olhar para outros, permitir-se. Um relacionamento pode resistir por anos, pode resistir à distância, à falta de contato físico, mas ele dura muito pouco quando exposto à prova do desamor, da indiferença, do egoísmo, da arrogância. Quando o ego prevalece sobre uma relação, então ela está impedida de crescer, e só o que sobra são os escombros daquilo que um dia te fez sorrir. O encontro de almas harmônicas se torna em competição vulgar, ofensa a princípios morais ou ego-idolatria, e consequentemente, afronta à inteligência dos mais sensíveis se faz mais mal do que bem se encontrar. Se há mais inveja que contemplação no olhar; se picuinhas pessoais são maiores que o todo, então está na hora de cortar relações...
Pode ser difícil no começo. O feedback vai rarear, você não vai mais atender o telefone. Você sabe que a conversa seria infrutífera, não quer parecer covarde, mas vai largar tudo aos poucos. Ou, vai preferir servir pratos limpos, colocar os pingos nos is, agir como adulto maduro que é. Não importa. O que importa é respeitar sua dignidade, mergulhar no mais puro do seu ser, manter-se íntegro e singular. Natural é poder ser você mesmo, sabendo que não está machucando ninguém e que, principalmente, está afagando a si mesmo.
Simples assim. Quando cortar relações é inevitável, que o façamos como o procedimento físico de corte de um cordão umbilical: suavemente, mas de um só golpe, de maneira a não ferir nem o bebê nem a mãe.
Seu amor próprio agradece. 

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Conhecimentos Descartáveis


“-... a ciência humana é bem limitada, e quando eu lhe tiver ensinado matemática, física, história e as três ou quatro línguas vivas que eu falo, você saberá o que eu sei; ora, toda essa ciência, eu terei dois anos de trabalho a vertê-la do meu espírito para o seu.
- Dois anos! – disse Dantès – você acha que eu poderia aprender todas essas coisas em dois anos?
- Em sua aplicação, não; em seus princípios, sim; aprender não é saber; existem sabedores e sábios: é a memória que faz uns, a filosofia faz os outros.
- Mas não se pode aprender a filosofia?
- A filosofia não se aprende, a filosofia é a reunião das ciências adquiridas ao gênio que as aplica; a filosofia é a nuvem resplandecente sobre a qual Cristo pôs o pé, para subir de volta aos céus.”
(DUMAS, Alexandre. O conde de Monte Cristo. Vol. 1. Ed Juruá, 2001. p.172)


Os anos de escola e educação institucional me ensinaram algumas coisas úteis mas, presumo, boa parte da nossa vida acadêmica passamos a estudar conhecimentos descartáveis. Aquele blá blá blá da professora no ouvido (quem nunca teve uma que falava mais palavras em um minuto do que seria capaz de ouvir em um mês?!), com exercícios e repetições inúteis de coisas que nunca mais você usará na vida.
Exagerando, posso dizer que o que utilizaremos mesmo são as operações básicas da matemática, ortografia (que a maioria ignora) e alguns conceitos históricos e ou geográficos; mas não propriamente o que chamam ciência. Esse negócio de que só tem validade aquilo que é “provado” é uma grande manipulação, visto que você nunca viu ninguém provar e já te ensinam com uma fórmula que “dá certo”, de maneira que isso aniquila sua possibilidade de questionar tal conhecimento com um argumento válido. Criticam-se os “achismos”, porém não fossem eles, muita coisa na própria ciência jamais seria descoberta. Em 1633, Galileu foi julgado pela Inquisição ao apresentar a teoria – baseada em sua experiência científica direta e observação com um telescópio de sua própria criação – de que a Terra girava sobre seu próprio eixo em torno do Sol. O Sol apenas parecia girar em volta da Terra. Desta forma, Galileu refutava a teoria há muito sustentada do universo geocêntrico. Heresia!, acusou a Igreja, e Galileu foi preso numa torre. Para ser libertado, este brilhante cientista, que se tornara professor de matemática na prestigiosa Universidade de Pisa com 25 anos, foi forçado a abjurar. Isaac Newton, que nasceu no dia da morte de Galileu, em 1642, aproveitou o trabalho do seu antecessor para desenvolver sua própria teoria de um universo mecanicista, que funcionava por meio de forças físicas e sem intervenção divina.
O trabalho de Newton foi bem recebido e o conceito de universo da humanidade mudado para sempre. Apesar dos esforços da Igreja, a obra de Galileu foi por fim aceita e altamente louvada. Hoje, qualquer estudante lê sobre ele, não só por causa da importância do seu trabalho científico, mas também por ter demonstrado que a verdade é descoberta no íntimo de cada um ao confiar em suas próprias ideias e experiências e não acreditando no que os outros alegam ser a verdade. A obra de Galileu abriu caminho para novas perspectivas em ciência, religião e história intelectual e cultural, mudando definitivamente a nossa maneira de encarar a realidade.   

Ninguém vai amar a matemática ou a língua ou a história porque estão lhe obrigando a aceitá-la, assimilá-la, reconhecê-la; isso vai criar mais aversão ainda! O sistema de aprendizagem é pessoal e intransferível e a massa cefálica de nossas crianças e jovens – que em sua maioria já é falha – só faz reduzir e intimidar-se diante das obrigações escolares sem nexo. O sistema educacional arcaico que promove a assimilação maquinal, priorizando as respostas que perguntas; um sistema de avaliação onde o achismo do professor dá a nota, aliados a um mestre que não ama aquilo que faz reduz o aproveitamento do já escasso conhecimento útil a quase zero. Aprendemos eficientemente aquilo que é testado em nosso cotidiano, mas quanto à hora média de Greenwich perpendicular ao Pólo Norte, vamos direto pro google ou para um especialista ou uma fonte de pesquisa imediata. Não aprendemos a amar o conhecimento, aprendemos a engoli-lo; não queremos ir bem na prova por um desejo da alma, é que temos medo de levar bomba; não nos apaixonamos pela leitura porque o livro é incrível – não nos apaixonamos pela leitura! Lemos por obrigação (embora use a primeira pessoa do plural, não me enquadro aqui, mas sei que grande parte da população, sim, pois como o burrinho de “A revolução do bichos” [George Orwell], acreditam que não há nada interessante para ler!!)
E se a escola já é asquerosa com todos seus rituais retrógrados, não podemos defender as universidades, que abrigam cada vez mais débeis mentais (tanto como alunos quanto como professores). Com todo respeito aos poucos e bons profissionais e acadêmicos que sabem que esse texto não se dirige a eles, a massificação dentro do campus está provando que das duas, uma: ou há uns poucos gênios no universo ou a maioria é retardada mesmo. Insistem em conhecimentos ultrapassados, chatos, maçantes; não estimulam a iniciativa, argumentação, senso crítico; acham que todos os alunos são iguais e privilegiam classe social que QI; aplicam trabalhos obsoletos e delegam alguns conteúdos de sua responsabilidade para que os alunos executem em forma de “trabalhos”. O retroprojetor substituiu sua voz; oratória não mais existe – ou falam muito, ou falam merda, ou não falam – tudo que dispersa a atenção e induz os alunos inteligentes ao desespero e a maioria ao descaso; o uso das tecnologias, que poderia ser um aliado torna-se um empecilho e ano a ano milhões de mongolóides são lançados ao mercado de trabalho como espermatozóides na ejaculação (como alguns foram os mais rápidos?? oO)


O cenário escolar, por vezes, lembra aquele ambiente de guerra em que o professor está posicionado como general a ameaçar os pobres soldados com atividades que não os levarão a dar sequer um passo na vida (ou na luta). A aceitação das ordens deve ser incontestável e o questionamento, além de reprovável, não faria diferença. É preciso receber os mesmos velhos ensinamentos e pensar como as mesmas velhas gerações; é preciso acatar o que já está decidido/descoberto/respondido e guardar suas dúvidas bestas para sua própria reflexão enfadonha. Aliás, desconfio que muita gente não saiba o que é isso – reflexão. Não se ensina na escola, afinal.

Burocracias, intimidações, bullying cerebral, desestímulo à leitura através da indicação de uns clássicos chatos quando mal se está preparado para ler infanto; incentivo à aparência, estereotipização dos nerds; sexualidade precoce; professores neuróticos; família sem valores e quantos séculos levaremos até cientificar que temos uma educação eficiente que, no mínimo, faça pensar, ser sagaz, seguro de si e curioso – sim, curioso! O mínimo para a busca do verdadeiro conhecimento.


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Paródia "Perigosa"


Essa pequena paródia foi composta quando eu estava de bobeira e algumas garotas cantavam a versão original.

Eu sei que eu sou
Bonita e gostosa
E sei que você
Tem problemas de vista
Eu sou uma ameba
De mente vazia
Cuidado, garotos!
Eu sou periguete!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011


Acaso, 
pensas tu que alguma coisa 
passa sem significado para Deus?

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Ler devia ser proibido


Guiomar de Grammon

A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.
Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Don Quixote e Madame Bovary. O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tornou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.
Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. Sem a leitura, ainda estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas de imaginação.
Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?
Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.
Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.
Não, não dêem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.
Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.
O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas lêem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais, etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. É esse o tapete mágico, o pó de pirlimpimpim, a máquina do tempo. Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?
É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metrôs, ou no silêncio da alcova... Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.
Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.
Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.
Além disso, a leitura promove a comunicação de dores, alegrias, tantos outros sentimentos... A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.
Ler pode tornar o homem perigosamente humano.   

SEÇÃO EXCEPCIONALMENTE

Na secção “Excepcionalmente”, apresento textos de outra autoria, mas que calam fundo em meus valores.

sábado, 5 de novembro de 2011

É sentimento, compreensão, companheirismo...


“... O que mais me enoja é a hipocrisia dessas pessoas. O fato de quererem demonstrar algo que não são, não sentem. Levam tudo à base da brincadeira, da curtição e depois ficam reclamando de estarem sozinhas...
Vejo que hoje as mulheres estão piores que os homens, se atiram sem o menor pudor, sem o mínimo de vergonha na cara. Argh! Queridas, acordem! Relacionamento não é só sexo!! É sentimento, compreensão, companheirismo, entre outras coisas. E isso explica o fato de alguém amar alguém que nunca abraçou, nunca beijou. Não há a procura de um relacionamento casual e sim de um compromisso sério, de respeito e carinho mútuo. O resto é 'conseqüência' (no bom sentido). O pior de tudo é explicar para alguém, tudo isso, na sociedade em que vivemos. Que só te cobra um relacionamento, não importa o sentimento, importa tu não estar sozinho (a)...”

Uma amiga.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Não force nada em você


Assinale o que você acha mais natural:

(  ) Gordo se empanturrando de salada.
(  ) Mulher hiper patricinha pagando de homem.
(  ) Pessoa mediana fingindo que é crânio.
(  ) Nenhuma das alternativas anteriores.

Tá bem, não vamos ser hipócritas: apesar de “qualquer” coisa poder ser natural de acordo com o olhar que depositamos sobre ela, a verdade precisa ser dita: algumas coisas simplesmente destoam. E, antes que me julguem preconceituosa, nazista ou sei lá o quê, explico: os exemplos acima não são fatuais e serão esclarecidos ao longo do texto. Foram apenas os mais cotidianos que encontrei em meus círculos sociais e também os que, observei, parecem mais forçados de acordo com a pessoa e a situação. Nada pessoal.
Vamos lá, pensa rápido: qual é a sua melhor habilidade? Pensou? Legal. E agora, qual seu maior dom?

TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC...

Muitas pessoas responderam a mesma coisa que antes. Algumas mudaram a resposta, outras quebraram a cabeça e não conseguiram pensar em nada. Outras, ainda, resolveram que dom não existe. Vou desmenti-las.
Habilidades são aprendizados que dominamos de tal forma que ficamos hábeis naquilo. Podemos ser hábeis em inúmeras coisas e podemos confundi-las com dom (que alguns acreditam que não existe). Contrario-os dizendo que existe, pois só quem tem um dom admite sua existência. Todos que renegam, em geral, são pessoas sem nenhum talento nato, mas que souberam se desenvolver de tal forma em determinadas atividades que acreditam que qualquer pessoa com um pouquinho de esforço e força de vontade é capaz de fazer o mesmo. O dom é algo que nasce com a pessoa e não pode ser ensinado. Claro que qualquer curso de música ou de fotografia vai te dar a técnica, mas não vem de brinde o apuro musical, o olhar diferencial, o compor aos cinco anos de idade, essas coisas. Aceite essa verdade e seja feliz.
“Não force nada em você” – não devemos forçar as coisas na gente. Se não conseguiu emagrecer em seis meses de regime é porque está indo contra a sua natureza e isto só está te tornando infeliz. Por que quer emagrecer: é um desejo real ou está movido por padrões, opiniões alheias e comparações? Enquanto estiver lutando com a sua natureza, não vai conseguir o que quer. Se não consegue aprender a tocar bateria, por que não dar um tempo e tentar outro instrumento? Será que é isso mesmo que deseja? Se o desejo for da sua alma, nada vai impedi-lo (a). TUDO O QUE A ALMA QUER A GENTE CONSEGUE.
- Ah, Phoenix, quis tantas coisas na vida e nunca as tive...
É que não eram para a sua alma, deviam ser desejos da mente. As coisas só são naturais quando elas fluem.
Isso não é um incentivo para desistir, parar no meio do caminho e deixar pra lá. É só um convite à reavaliação. Muitas vezes ficamos insistindo um longo tempo em uma coisa que não é pra gente e tudo dá errado! Um emprego, um relacionamento, um sonho que não se realiza, um aprendizado que trava – quando estamos indo contra a nossa natureza a vida não ajuda, é como estar numa enxurrada nadando contra a corrente. Espere! Nosso corpo, nossa vida, eles sabem a hora certa de começar. Não adianta nada ficar se forçando.
Conheço uma garota que adora pagar de homem. Quer entender de rock pauleira, de futebol, de fórmula um, de jogos masculinos, de coçar o saco. Adora estar metida entre os machos, como se fosse um deles. Só que isso soa falso nela. Por quê? Porque se vê que ela não andou experimentando as coisas, mas lendo sobre elas. Para uma garota moleca, não é difícil reconhecer outra. Uma leitora moleca sabe que, por mais femininas que sejamos, alguns traços são inconfundíveis e não nos abandonam ao longo do tempo. O que nossas lembranças marotas escondem, as cicatrizes têm o prazer de contar! Mas, a questão aqui não é a ausência de cicatrizes. Eu mesma, as principais estão abaixo dos cabelos (hehe!). Todavia, é sabido que uma mulher patricinha e arrumadinha demais ecoa como uma moleca artificial. Molecas não são frescas com comida, com muros, com barros, com hematomas, etc. Afinal, molecas são molecas! Qualquer estilo forçado, seja pela razão que for, denuncia-se por si próprio aos olhos de quem tem experiência. Ler sobre algo te dá a teoria, mas é ingênuo quem pensa que teoria e prática condizem. Posso até aprender a jogar todos os jogos dos homens, falar as gírias deles, estar sempre na companhia deles (sendo isso aprazível a eles ou não). O que não posso é me iludir que o fato de mentir aos outros não estará enganando a mim mesmo. Porque mais hora menos hora, não vou me sentir confortável no mundo falso que eu criei.
E, afinal, eu nunca entendi por que após mudar de escola ou entrar na universidade ou qualquer mudança de círculo mais significativa uma pessoa resolve fugir totalmente de si mesma e assumir outra personalidade. Muitas vezes, não é nem personalidade, é personagem. Torna-se um sujeito de jeito de ser tão forçado que fica evidente que a pessoa nunca foi aquilo. Alguns contam histórias tão incrivelmente mirabolantes que tenho vontade de lhes oferecer um espaço no blog.
Claro que uma pessoa que resolveu que quer emagrecer vai acabar adotando hábitos ditos mais saudáveis e não é condenável que passe a apreciar mais o verde. Contudo, seria bem mais legal se ela se apercebesse de que mudar radicalmente não é a solução e de que em nada que a natureza atua, ela o faz bruscamente. Obrigar o gordo acostumado a três, quatro pãezinhos no café da manhã a comer apenas meio é ser quase cruel, pois na maioria das vezes o coitado sucumbe por desistência! Se torna um ritmo de vida frustrado, insatisfeito e eu continuo insistindo que é estranho ver um gordo com o prato repleto de salada. Lembra bichos herbívoros, sei lá, vacas ou dinossauros...
Mas, o recado tá dado: não force nada em você. Não se force a estudar o que não quer saber. Não se force a ser o que não é, o resultado vai ser artificial. Não adote uma postura forçada, todos vão notar. Não assuma um personagem num ambiente novo, vai ser um desastre! E não pense que vai ser feliz sendo anti-natural – em algum momento a consciência vai te cobrar, nem que seja no recanto gostoso do seu travesseiro.
Não force nada em você. Fica a dica.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Inveja e admiração


Esse negócio de inveja e admiração é tão sutil, creio, que muita gente nunca parou pra pensar no assunto. E o que me levou a escrever sobre ele foi justamente a percepção de que inveja e admiração se confundem, por vezes, na própria pessoa que os sente, ainda que pense admirar outro ser com a melhor das intenções. A questão é a seguinte: sabe aquela pessoa que diz que admira você? E, de fato, não há maldade expressa em sua admiração até que você percebe que... ela quer ser você. Então, você comenta com ela que vai começar a fazer natação e no outro dia, a criatura tá inscrita nas aulas para nadar. Você muda a cor ou o corte de cabelo e a pessoa vai lá e muda o dela também. Você há tempos pretende fazer aulas de canto e o “admirador”, sem a menor inclinação, toma a sua ideia pra ele e resolve aprender o mesmo instrumento que você sempre disse que tava a fim de tocar. Ou seja, em absolutamente tudo que você teve a ingenuidade de abrir o bocão, você foi copiado ou a pessoa fez primeiro - sempre em prol da admiração que ela sente por você, embora no seu ponto de vista isso já tenha passado das raias da simples admiração... Correto?
Admirar, se apaixonar, invejar e ter ciúmes, todos esses sentimentos nascem da mesma vertente, que é a vontade de possuir, de guardar de alguma forma. E o alvo geralmente possui um brilho que a outra pessoa quer para ela, como se o pudesse reter fazendo as mesmas coisas ou adotando o mesmo estilo do (a) outro (a). Não percebe que é algo maior – não se trata de algo material, mas etéreo; é que ele ficou lindo com a blusa, não é a blusa. É que o talento dela para piano é comovente, não é o piano...
O invejoso pode aprender a tocar baixo; pode colocar piercing no nariz primeiro ou viajar para Bariloche antes, mas nada vai satisfazê-lo plenamente porque ele não sabe que não é a coisa... É a pessoa. E ele vai dizer a si mesmo que a admira, que descobriu de repente que também queria aquilo, e pode mesmo acreditar nisso, mas vai estar dando uma de vampiro, pois não estimula a própria criatividade nem trabalha sua estima para ser melhor, apenas segue copiando e se espelhando nos outros.
Ninguém tem culpa por sentir inveja e todas as pessoas já a vivenciaram em algum grau em determinado momento da vida. Mais comum entre as mulheres, pode tanto ser efeito de uma estima recalcada quanto da rivalidade desmedida, mas não é um sentimento desprovido de positividade, pois na infância informa limites; na adolescência, estimula a competição saudável e na idade adulta ensina a pessoa a buscar melhorar-se. Contudo, mesmo “admirando” alguém, é dever de todos valorizar-se no que há de melhor em si e não sair a copiar ou furtar idéias de outrens com a desculpa de admirá-lo (a). Todos somos capazes e temos a competência para inovar, fazer diferente. A pior sensação que se pode ter é perceber atitudes plagiadas – esse “tolher o outro” que a imitação provoca. Quantas vezes você deixou de fazer algo porque comentou a ideia e outro foi lá e fez na sua frente? E se não deixou de fazer, quem ficou de invejoso nesse caso?
Óbvio que há espaço para todos. O fato de alguém fazer o que eu desejava (e contei para ele) antes de mim não faz dessa pessoa uma invejosa ou copiadora, afinal ela poderia compartilhar dos mesmos desejos sem repartir. Eu, particularmente, me atrevo a duvidar da maioria dos casos, especialmente quando a situação se repete e você se obriga a comer quieto por não ter mais a liberdade de dividir seus sonhos com pessoas que considerava amigas. De todo modo, é sempre bom ser original e ter bom senso. O mundo é grande, sempre há escolha – para que escolher ser igual se podemos ser tão diferentes...? Quem tem brilho próprio não precisa ofuscar o dos outros.