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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

segunda-feira, 26 de março de 2012

O jovem e o vaso


Havia uma vez por ano a distribuição de um vaso a cada jovem de Ilusion City. Tratava-se de um ritual, do qual somente jovens do gênero masculino participavam, sem nunca saber qual seria o vaso que lhes seria dado e nem exatamente como lidar com ele. Sabia-se que dentre os vasos, havia um mais especial, mais raro e cobiçado. Acerca deste, diziam-se muitas coisas, mas ninguém sabia qual a sua aparência ou a forma de identificá-lo.
No dia marcado, centenas de jovens compareceram ansiosos e sedentos de esperanças, eram todos diferentes, mas tinham um único desejo: ser merecedores do vaso especial. Chegando diante da grande mesa, onde expostos estavam muitos e muitos vasos, de todos os tamanhos, tipos e cores, muitos deles sentiram os olhos brilhar. Havia garotos sensíveis, românticos e cuidadosos, e estes, mais observadores, viram que um vaso em particular chamava mais a atenção. Ele era mais brilhante, de material mais puro, muito frágil e com uma pequena semente dentro. Ele era moldável, ainda não totalmente completo, delicado e parecia poder quebrar-se a qualquer toque. Logo, exigia mais cuidado e paciência que os demais, que ostentavam aparência firme, impressões já gravadas, estavam totalmente seguros e pareciam ter sido manuseados muitas vezes. Estes vasos também tinham o seu valor e a sua beleza, mas não exigiam tanto tempo nem calma diante deles.
Chegou a hora da distribuição e uma senhora chamada Madame V. começou a fazê-la. Foi chamando um a um dos garotos e entregando-lhes os vasos sem grande critério, o que decepcionou alguns. Depois de um tempo que pareceu interminável aos garotos mais especiais, que tinham esperança de serem escolhidos para proteger o vaso mais valioso, Madame V. fez uma pausa na distribuição e tomou o pequeno vaso na mão.
- Este vaso – começou ela – é diferente dos outros. Ele nunca foi usado, ao contrário dos demais, e isso exige de seu primeiro dono todo o carinho e paciência. Ele é mais frágil e delicado, está mais sujeito a vicissitudes que os outros vasos, e por consequência, demandará de seu protetor um tanto mais de tempo. Em compensação, ao contrário dos outros, que já possuem uma flor pronta, a flor deste irá mudar e crescer conforme o cuidado que receber. Quando tratada adequadamente, esta flor acaba sendo a mais interessante de toda Ilusion City. Alguém aqui se acha capaz de acalentar este vaso?

Todos os jovens ergueram as mãos. Aquele vaso valia mais e todos tinham algum interesse nele. Alguns queriam realmente cuidá-lo; outros achavam tentadora a ideia de dispor de algo tão diferente para pôr na estante; outros, ainda, gostariam de exibi-lo, e havia aqueles que erguiam a mão por erguer, para eles um vaso era só um vaso e qualquer um servia.
- Muito bem – disse Madame V. – Vou terminar com os vasos de barro, vidro e argila, e por último, entregarei este, de cristal. Lembrem que todos os vasos são especiais, cada um na sua possibilidade e característica... Porém, infelizmente, alguns de vocês ficarão sem vaso algum. Não há vaso adequado para vocês.
Ao ouvir isso, os garotos mais sensíveis respiraram aliviados. Sabiam que eram extremamente preocupados e serenos e que, uma vez recebido o vaso, saberiam valorizá-lo, independente de ser raro ou não. Sabiam como consertar as pequenas avarias de um vaso e estavam dispostos a doar todo o seu tempo e a sua energia na reparação de qualquer mal que lhes aprouvesse. Entretanto, para sua decepção, Madame V. foi entregando os vasos um a um, e logo viram que restava o único vaso translúcido para ser dado a apenas um deles, em detrimento dos demais.
- Esse vaso, meu jovem, é para você.
E Madame V. o estendeu. Todos os olhos a seguiram e viram um jovem dirigir-se a ela, confiante. Era acostumado com vasos; já os tivera dos mais diferentes formatos e tipos; não costumava mantê-los por períodos muito grandes, mas cobiçava há tempos um novo vaso. Indiferente ao valor daquele vaso, o tomou nos braços e seguiu para encarregar-se dele.
Frustrados, os demais garotos não podiam entender... Sacrificariam tudo que tinham por um vaso especial daqueles.
O jovem levou o vaso para casa, porém, logo se cansou dele. Era um vaso diferente do que estava habituado, insistia em ter sua atenção, e ele estava mais interessado em receber que doar. Não ligava para tantos apelos de que aquele vaso era especial, para ele era apenas um vaso como outro qualquer. Pouco se lixava para o fato de que como aquele, havia poucos exemplares no mundo e do quanto outros jovens quiseram ser os escolhidos. Ignorava tudo isso e sentia apenas o nó do sufoco em seus próprios interesses. Assim, um dia, cansado do cuidado que precisava manter com aquela flor e aquele vaso, o jovem simplesmente o tomou e o espatifou no chão, procurando Madame V. em seguida e pedindo um vaso comum, como os que já tivera. Alguns dos garotos que realmente mereciam o vaso ficaram sabendo e não entenderam... Eles estavam lá o tempo todo, então por que Madame V. escolhera justo aquele rapaz, sem paciência nem compreensão, para tomar conta do vaso?
- Isso era uma prova à flor – declarou Madame V. àqueles que lhe foram consultar. – Pois o dono do vaso tanta vontade tinha de apenas ter um vaso... que nunca soube o valor daquilo que teve nas mãos... e jogou fora.

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