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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

domingo, 9 de dezembro de 2012

A rigidez consigo mesmo



Acompanhando uma amiga a uma loja de sapatos, percebi nela algo bem comum em muitas pessoas: a rigidez consigo mesma. E o que seria, afinal, ser rígido consigo? A rigidez consigo vem da importância que se dá ao que os outros (supostamente) pensam; aos condicionamentos construídos por longos anos (educação rigorosa; preconceitos religiosos) e ao acato às cobranças da sociedade. E um desses 3 fatores, senão os três, são responsáveis por fazer com que alguém perca a espontaneidade e não se permita fazer certas coisas. Ou melhor, fazê-las de um jeito não habitual ou despreocupado.
Eduarda* queria um tênis novo, mas este tinha de ser preto, branco ou cinza, pois eram mais básicos e menos chamativos. O interessante é que um lindo modelo vermelho, totalmente desconvencional, com zíper na lateral, a interessou bastante, mas não cogitou sequer prová-lo.
- Por que não? – inquiri.
- É vermelho, Kelly.
- E daí?
Desculpou a si mesma que vermelho não dava, não iria usar, nunca tivera tênis vermelho. Aí, se encantou com um verde, de velcro. Mas, não, novamente negou-se, por não ser usual. Tinha de ser cinza, preto ou branco. Ou que não fugisse muito disso. E assim, ao longo do tempo que passei com ela, percebi ainda muitas coisas a que não se permitia, embora fossem de seu desejo. Desde a vontade de aprender a andar de skate até a coragem de largar um emprego que a faz infeliz, tudo estava condicionado ao externo. Uma viagem marcada para fevereiro precisou ser cancelada porque o namorado mudou de emprego. Curtir-se, viajar com amigas, dar um presente a si mesma: tudo era demais. E, mesmo com dinheiro em caixa, cuidou o preço do tênis comprado, pois temia que faltasse para a faculdade.
Quantas vezes agimos como Eduarda... Tomamos um chá daquilo que não gostamos, condicionamos nossos dias àquilo que não queremos, desagradando a nós mesmos, preocupados com os outros. Esquecemos completamente que esses outros estão ocupados de mais cuidando da própria vida (ou que assim deveriam) e pouco se importam se estamos dançando na chuva ou de calça de brim roxa. E ser rígido consigo mesmo só traz problemas. Altera a saúde, faz com que fiquemos mal conosco mesmos... Inconscientemente ou não, em algum momento vamos nos cobrar.
A vida vai passando e nos impedimos de usar uma roupa que queremos, de escolher outro sabor de sorvete, de trocar o modelo de tênis... Coisas tão pequenas, mas que fazem toda diferença na constituição da nossa identidade, do nosso mundo, da nossa história. E deixamos de OUSAR... No final das contas, não haverá nenhuma recompensa em ser rígido consigo. Você pode guardar o dinheiro, mas não vai guardar o momento. Pode ficar feliz com o novo tênis cinza, mas talvez intimamente se pergunte se teria ocasião de usar o vermelho. Pode pensar que “agrada a Deus”, totalmente esquecido de que Ele não condenaria sua própria criação, pelo que quer que fosse. E pessoas reprimidas não são felizes. É melhor ser excêntrico que reprimido. Ainda que, a rigidez não seja propriamente a repressão, mas uma forma de alimentá-la.
Você pode ter muitos motivos para não usar um tênis vermelho, mas se tiver apenas um, use-o. Você pode ter muitos motivos para tomar sorvete de chocolate, mas se houver oportunidade, experimente o de maracujá, não há nada a perder (e é uma delícia...!). Ademais, quem ousa tem muito mais história pra contar. É um desafio a si, uma “saída da rotina”, um mergulho no desconhecido. Não há nada de ruim nisso. O máximo que pode acontecer é voltar a usar tênis cinzas. Portanto, vá além – se não puder abandonar totalmente essa rigidez que insiste em chamar de senso de ridículo ou prudência – pelo menos, tente. De repente, você não tem uma espantosa e deliciosa noção de si mesmo?

*Nome fictício.

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