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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Gente publicitária e gente de verdade



Gente publicitária acorda linda, loira, maquiada. Com os cabelos lisos, esparramados, dá um lindo sorriso ao Brad Pitt a seu lado. Inicia o dia com um selinho e, em seguida, vai escovar os dentes brancos tom #000000001, tendo com frequência uma equipe Colgate a invadir o seu banheiro.
Gente de verdade acorda descabelada, com remela. Levanta antes que o namorado sinta o bafo e corre lavar a cara oleosa. O camisetão velho e furado não lembra em nada o lindo pijama xadrez de plush, da gente publicitária. Os pés descalços com a unha por fazer só lhe lembram quão milagrosa fora aquela receita com gengibre para curar as dolorosas frieiras.
Gente publicitária desce as escadas arrastando seus graciosos chinelinhos de pano, antiumidade. Vai para a cozinha e começa a cantarolar, enquanto prepara waffles. Logo desce a filha adolescente – linda e virtuosa – e o filho mais moço – encantador e moleque -, além, claro, do maridão: jovem, agradável e gato. Todos sorriem, desejam-se bom dia e sentam-se juntos à mesa, com a alegria digna dos panfletos de testemunhas de jeová. Com os waffles cheirosos, vêm também jarras do mais puro suco natural de laranja, cereais, e a congregação de uma família feliz, sorrindo junta com dentes alvos e perfeitos.
Gente de verdade, às vezes, nem toma café; pula da cama apressada, com um despertador irritante. Começa a insistir na porta do filho, que virou a noite na internet e nem sabe que a filha de 15 anos dormiu fora. A mesa é composta de pessoas sonolentas, que ora são interrompidas do seu mundo particular porque o caçula insiste em implicar com o gato, ora se revezam batendo na porta do único banheiro. Gente de verdade sai correndo, perde o ônibus, deixa os filhos na escola, tenta não esquecer o dentista de fim de tarde e tem um dente torto na frente. Gente de verdade, às vezes, desiste de dialogar, desiste de dizer o que acha bom, desiste de tentar se fazer entender, necessariamente, todo santo dia. É que gente de verdade pode acordar de mau humor...


Gente publicitária tem cabelos lisos e sedosos, um olhar bem delineado e claro, traços fisionômicos surreais e medidas fora do comum, mesmo que tenha 60 anos. Gente publicitária se veste bem para cozinhar, é elegante em qualquer estação; toda a estrutura de sua casa é impecável e, tal qual sua vida, tudo nela é perfeita. O casal é maravilhoso e se ama, os filhos são especiais e amados e nenhum deles jamais teve qualquer um dos problemas triviais da vida: falta de dinheiro ou dívidas, problemas de saúde; sua vida amorosa sempre foi um estouro e a beleza nunca deixou de ser característica naturalmente associada; a gravidez foi planejada; o salário já começou alto e ano a ano evoluem mais – são a família modelo do quarteirão.
Gente de verdade, volta e meia, tem dor de cabeça. Volta e meia, não consegue pagar todas as contas em dia, volta e meia é chamada na escola do filho. Gente de verdade briga com a mãe, com o marido; reconhece que os filhos não são perfeitos, mas os ama e educa. Gente de verdade tem cabelo crespo, caspa, carapinha; gente de verdade faz depilação e dói; tem espinhas no rosto aos 17 anos; vai mal na escola e se preocupa em como vai contar isso aos pais. Gente de verdade namora gente feia, mas sincera; se irrita quando precisa de silêncio e seu familiar tá ouvindo rock; faz dieta na segunda e engorda tudo de novo na sexta.
O que eu gostaria de lembrar é que gente publicitária não existe! As pessoas dos comerciais e dos filmes e, mesmo a vida perfeita dos “artistas” e celebridades não passam de ilusão. É um erro pautar comportamentos e padrões de acordo com um modelo estabelecido, revelando no mínimo, falta de bom senso. Acreditar que existe mundo perfeito e vai casar com seu ídolo é o caminho mais curto para se frustrar. No mundo real, há cansaço, há desânimo, há luta. No mundo real, há conquistas, há cores e incertezas. Sobretudo, há coisas reais que nenhuma boneca pode vivenciar. O grande porém de tudo isso é a compra cega que se faz o tempo todo, de modelos fabricados: de como ser, como pensar, o que querer. Ninguém é incentivado a desvendar – até mesmo no mundo acadêmico, tudo exige fontes, provas, que alguém tenha pensado antes da gente.
Esqueça essa perfeição de comercial de margarina, sim? Ao longo da sua vida conhecerá pessoas cheias de defeitos, dificuldades, cheias de desejos insatisfeitos. Mas, ainda assim, as mais dignas e admiráveis que poderia esperar. Porque, gente de verdade está em toda parte: ao seu lado, na sua academia, em frente ao espelho ou em um jaguar. Farão refletir, reavaliar e, podem não nos servir de modelo, mas de inspiração. Não serão perfeitas, mas serão de verdade

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