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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Pare de bater fotos – A banalização da fotografia



Às vezes, gostaria de sacudir algumas pessoas e enfiar na cabeça delas a seguinte ordem:
- Pare de bater fotos e apenas viva o momento! Não poderá registrar o ar, os raios de sol, o seu sorriso...
É tão falso e tão premeditado o que se vê na maioria das fotografias: com exceção daquelas espontâneas (quando não se sabe que está sendo fotografado), elas dizem muito pouco sobre quem aparece na imagem. E é tão irritante quando uma pessoa fica interrompendo a mesa do sorvete ou do lanche, ou a conversa na praia ou o churrasco, pedindo para alguém bater suas fotos. Não parece estranho estar em um lugar lindo e, antes mesmo de desfrutá-lo, já ir arregaçando a câmera, fazendo poses e caras (que acham o máximo) e fotografar? Pois é, mas não soa estranho. É natural.
Salvo fases do bebê, casamentos, aniversários e datas afins, onde a importância do registro se justifica, tentar minutar a vida somente através das lentes é um tanto estúpido, ingênuo, para não dizer, egoísta. Intencionar a captação de cada momento vivido chega a ser doentio – não há registro melhor que viver, aproveitando intensamente o momento e as pessoas, sem querer aprisioná-las no tempo.


Quem me conhece poderá dizer que eu mesma já fui chata com fotografia, e não nego. Mas, reconheço que são poucos – quase raros – aqueles que têm o dom da verdadeira fotografia, de registrar através da sua câmera um olhar diferente do mundo, um ângulo inédito ou fantástico. A maioria das fotos batidas é banal, e isso se aplica à vida particular ou à esfera profissional de fotógrafos, publicitários e jornalistas. A verdadeira fotografia alia sensibilidade e técnica, enquanto grande parte dos profissionais têm apenas a segunda. Entretanto, a questão aqui não é a foto profissional, mas a doméstica, onde qualquer pessoa com cartão de crédito acha que pode sair comprando uma câmera profissional em 48 vezes e se achar fotógrafo. Dos adolescentes que estendem o bração e fotografam a própria cara fazendo biquinho, às dezenas de flashs que espocam diariamente em frente a espelhos e de viagens onde só se vê um sujeito sem graça parado em frente a um monumento. Quer dizer, tudo isso é muito insano. Antigamente, quando atuávamos com câmeras a filme, havia muito cuidado com o que se fotografaria, pois a revelação era cara e havia um número máximo de poses. Acontecia ainda de os famosos filmes queimarem, não nos deixando uma única lembrança do verão com os amigos ou daquele aniversário. Mas, com o cenário da fotografia digital, tudo mudou, e para pior. O preço popular das câmeras faz com que zilhares de pretensos fotógrafos descarreguem seus cartões de memória horrendos diariamente nas redes sociais e até em sites especializados! De registros básicos, passamos a ter 4 fotos iguais, onde se escolhe a que estamos melhor para publicar aos outros. Os editores de foto fazem o resto do serviço, mentindo ao mundo que não existem pessoas feias. São álbuns e álbuns repletos de fotos muito parecidas, com a cara sorridente de uma mesma pessoa.
E o que tem de mais nisso? A fotografia está se perdendo. Assim como não são escritores que estão publicando livros, estamos esvaindo pouco a pouco a arte de fotografar. Não se reconhece mais a fotografia artística. Em um mundo que todo mundo pode ser o que quiser, não faz mais sentido reconhecer o talento, ou ainda, os momentos verdadeiramente especiais, e que merecem ser fotografados.
Eu já fui chata com fotos, de ser muito poseira e fotogênica, de tentar registrar o irregistrável. Mas, quando afastei o olhar e vi a situação com olhar crítico, tive a melhor constatação sobre o assunto: não se vivem retratos. Se revisitam, nostalgem, relembram, mas não se vivem. E, para viver, acessórios são dispensáveis. O que se exige é apenas uma boa dose de coragem e a sabedoria de pousar um olhar sobre tudo como se fosse a primeira vez. Sem retratos ou aparatos. Só o frescor da primeira vez.

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