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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

terça-feira, 26 de março de 2013

Pessoas desequilibradas



Quando se fala, se ouve ou se lê sobre pessoas desequilibradas, a primeira coisa que vem à mente são pessoas histéricas, tendo crises de nervos, entupindo-se de cápsulas, em uma camisa de força. O desequilibrado do imaginário comum é de um desvario varrido.
Foucault escreveu a História da Loucura na idade clássica. Esta obra mostra as raízes antropológicas pela qual se classifica um indivíduo como louco. A psiquiatria formatou essa classificação e marginalizou todos os comportamentos que se afastavam dos padrões de comportamento universalmente aceitos em uma sociedade convencional. Muitos erros foram cometidos, muitas pessoas foram tachadas como loucas apenas por ter comportamentos que fugiam ao trivial. Mas, nesse texto, quero falar sobre outro tipo de desequilibrados. Aqueles que estão por toda a parte: lendo esse texto, no escritório ao lado, assumindo seu papel de pai, mãe, namorado, profissional; ou seja, praticamente todos nós.
Pessoas verdadeiramente equilibradas são raras. É quase um contrassenso escrever sobre isso na contemporaneidade, onde o desequilíbrio impera. O estresse do dia-a-dia, a pressão das corporações, pelo corpo ideal ou a corrida do ouro; as exigências cada vez maiores a um ser humano falível e limitado, que sufoca seus desejos pelos anseios do mundo, deixam seus resquícios e sequelas em todas as gerações. As crianças não estão sendo educadas emocionalmente. Crescem com valores distorcidos, adquiridos na escola, porém fora da sala de aula. Quanto aos jovens, estendem sua adolescência por cada vez mais tempo. Não querem saber de responsabilidades e são volúveis em relacionamentos. E o pior de tudo são os adultos: cansei de conhecer e descobrir gente de 40, 50 anos que nada mais são que crianças mimadas em corpo de adulto. O comportamento é exatamente o mesmo, só que, claro, com a maquiagem da falsa maturidade.
Pessoas desequilibradas são maioria, aliás, não conheço pessoas equilibradas. Quer dizer, ninguém me provou isso ainda, nem eu mesma. Não conheço uma que tenha se educado suficientemente de tal forma a não reagir (nunca) às investidas externas; que não seja egoísta ou impaciente ou mal humorada ou invejosa em algum momento. Que se blinda sempre das energias que vêm de fora, que tenha menos ego que personalidade, que não se ofenda, se orgulhe, vanglorie ou tenha acessos de vez em quando. E não é à toa que, nos últimos anos, o número de casos de depressão, distúrbios de humor, ansiedade, suicídios e dependentes de remédios controlados subiu drasticamente. Somos uma sociedade de consumo, a quem tudo é dado, mas muito falta. Somos uma sociedade doente. Falta o essencial, aquilo que não se pode comprar. Não se compra a estrutura da família, o afeto, a satisfação em estar junto, não se compra o sorriso. Não se pode comprar a alegria genuína, um amor que se foi, a volta de um ente querido que partiu, saúde, simplicidade. Estamos sendo enganados, comprando de tudo e obtendo muito pouco, e isso nos tem custado muito caro. Custa o tempo, os afagos, a distância, a família, a realidade – porque vivemos de ilusões! Custa as festas, os momentos, o simples estar, custa o que realmente importa. Tudo passa muito depressa e, quando nos damos conta, mais um ano se foi: com fotos, com pompas, com roupas de grife, diplomas, viagens, fast food, carro novo, mas nada efetivamente real. O tempo com os filhos foi substituído por presentes, o conhecimento foi tapeado por mensalidades altas, as férias foram trocadas por um televisor de plasma. E é desse vazio constante que têm se alimentado as pessoas desequilibradas: os dias se vão passando com uma montoeira de aquisições não conquistadas, uma montoeira de lutas suprimidas, uma montoeira de sonhos que viraram pó. Ao lado da ausência junto a quem ou onde se gostaria verdadeiramente de estar, constituindo em perdas irreparáveis de tempo e afeto, além de tudo que poderia derivar destes. Quando vê, a pessoa está tomando três comprimidos diferentes por dia, sendo classificada de bipolar, ansiosa patológica, síndrome do pânico, anoréxica, bulímica, entupida de fármacos e sem a mínima consciência de si mesma, do que precisa, daquilo que realmente lhe falta.
Equilíbrio é um caminho longo e árduo, ninguém nasce equilibrado. Envolve doses de autoconhecimento, flexibilidade, maturação de experiências, desapego, libertação do passado. Compreensão acima do usual, predisposição ao entendimento, perdão (das falhas dos outros e, principalmente, das próprias), humildade, autoestima, valorização de si mesmo. Mas, como pode ser? Em uma sociedade onde é visto quem consome mais, valorizado quem parece ao invés de ser; como ter autoestima por coisas que nenhum dinheiro compra? Como sentir-se “normal” sem um emprego de carteira assinada, cash, o tênis da moda ou sem postar no facebook?
Pessoas desequilibradas estão por toda a parte: nos bancos, nas ruas, escolas, hospitais. Nas filas, estacionamentos, estádios, faculdades, no Planalto. E o fato é que o homem cresce tão arraigado à ideia de civilização que não percebe que ser equilibrado deveria ser natural. Natural como a capacidade (desenvolvida?) de apreciar as mais belas coisas, as chamadas simples

12 comentários :

Tiago Araujo disse...

Belo texto, encontrei por acaso.
Parabéns.

Seminarista Tiago Araujo

Kelly Phoenix disse...

Obrigada, volte sempre!

Cristiane Mascarenhas disse...

Kelly você foi fantástica!
Amei, traduziu os meus pensamentos sobre o assunto de forma simples, abraço.

Kelly Phoenix disse...

Fico feliz, Cris, que mais gente veja esse fenômeno social :)

Um abraço, volte sempre!

BLOG DO ALVARO disse...

Kelly, bom dia e parabéns. Fantástico esse texto.
Um parente meu (gestor público), foi fortemente assediado moralmente (assédio moral vertical), por um pequeno grupo de subordinados com vários "adjetivos desclassificativos" taxando-o de desequilibrado, confuso, contraditório, equivocado, falta de clareza, agressivo, autoritário, dentre outros, etc.; que o levou a uma punição pesadíssima, mesmo não possuindo (eles) nenhuma prova documental. Talvez demitir o chefe é mais fácil.
Solicito sua especial gentileza e autorização, no sentido de usar esse brilhante texto para inserir num livro que estou escrevendo sobre esse feito.
Lembro que não sou escritor, apenas quero deixar registrado essa descomunal injustiça praticada num orgão público.

Antecipadamente agradeço - meu e-mail é alvarofdias@gmail.com

Kelly Phoenix disse...

Olá, Álvaro! Já lhe enviei um e-mail no endereço que vc me passou. Muito Obrigada pela sua visita, volte sempre! Abraços.

Telma Nascimento disse...

Verdades!

Unknown disse...

Amei o texto, procurava uma coisa, acabei achando outra, q por fim me ajudou a tentar ser mais tolerante....obrigada!!!!

Nicolas Toledo Rocha disse...

Amei o texto, procurava uma coisa, acabei achando outra, q por fim me ajudou a tentar ser mais tolerante....obrigada!!!!

Kelly Phoenix disse...

Precisamos também de tolerância, Nicolas...
Obrigada por comentar, abraço!

Niedja Guedes disse...

Texto maravilhoso. Agora nao ficarei mas triste quando me chamarem de desequilibrada... Sofria muito todas as vezes que me chamavam assim... Obrigada.

REGINA CÉLIA PIRES LOPES disse...

Todos doentes num mundo virado de cabeça para baixo. Para aqueles que crêem em Deus e em Suas promessas, as coisas voltarão ao normal conforme planejado pelo Criador, que fez tudo perfeito.

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