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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A corrida do ouro - Sociedade de Aparências


Laurinha ligou entusiasmada para a irmã. A filha financiara um novo apartamento. Três quartos, suíte, piscina. Sem dúvida, fizera um casamento bom quando conquistou aquele médico. Ele era ambicioso e queria subir na vida.

Patrícia não podia admitir que a prima do interior já tivesse viajado para longe e ela não. Aquela caipira simplória se dizia amante de viagens e da natureza, mas Patrícia sabia que tudo o que ela queria era se exibir e ser mais do que ela. Não teve dúvidas: insistiu até que o pai lhe pagasse um intercâmbio em Londres. Sabia que era o dinheiro da aposentadoria dele, mas era filha única e conseguia facilmente que lhe fizessem as vontades. Conheceria toda a Europa e mataria a prima capiau de inveja!

Bruna casou cedo, já não suportava os caprichos da mãe. Esta lhe fazia cuidar da irmãzinha pequena e a destratava, mas para os demais vendia a imagem de família equilibrada e feliz. O casamento teve uma festa com pompas, lua de mel no nordeste, em seguida Bruna entrou para a faculdade e em meses comprou um carro 0km só para ela. As amigas tinham certeza que Bruna era bem-sucedida e um modelo a ser seguido; mas a verdade é que ela mantinha dois empregos que detestava e estava no cheque especial há meses para dar conta de tudo. O marido, novinho, vivia pulando a cerca e fazendo festinha com os amigos, e o casal tinha brigas constantes, mas não se separava por causa da casa, com hipoteca no nome dos pais dos dois, além das aparências em família – o que iriam pensar? Diante dos parentes e na rede social ostentavam a imagem de um casal divertido, realizado, feliz e apaixonado. Faziam viagens frequentes e tinham ativa vida social, sempre posando de amostra da felicidade.

Ricardo era um garoto sensível, amava tocar baixo e compunha músicas de madrugada. Estava terminando o terceiro ano e tencionava cursar música, contra os anseios dos pais, que esperavam que fizesse odontologia e seguisse o brasão da família.
- No mínimo, administração – ralhava o pai com raiva, ameaçando não dar nenhum centavo caso as utopias de Ricardo tomassem conta e o fizessem rumar para o sonhado curso de música. Para a família, artista era tudo vagabundo e somente uma faculdade tradicional traria a estabilidade desejada para o futuro de Ricardo. Sufocando seu talento e sua sensibilidade, no vestibular seguinte lá estava ele, prestando concurso para administração, como condicionado por seu pai.

Esses são apenas alguns exemplos hipotéticos, embora eu acredite que eles só mudem de nome. Estão aos milhares do seu lado, na sua família, na sua timeline, mas somos incapazes de vê-los como são. Presos em um mundo ditado pelas aparências, onde os mais felizes são aqueles que supostamente têm mais, mostrando sempre parecer mais do que realmente são. Frustrados em vidas infelizes, empregos que não gostam, relacionamentos sem amor, Patrícias, Brunas e Ricardos fazem parte de nossas vidas e, quem sabe, nossas histórias. Os arredores estão cheios de filhas de Laurinhas vendendo a alma por bens materiais, apostando suas fichas em casamentos, se jogando com ímpeto na corrida do ouro. As famílias estão cheias de Patrícias; pessoas que não descobrem seu próprio potencial e se contentam em imitar os outros, competindo para ter o melhor quarto, o melhor computador, a melhor festa, confundindo qualidade com preço e acreditando que todos gozam do mesmo despeito que os torna cegos. Pagam por grandes viagens e bens, mas jamais possuem grandes histórias, pois ignoram que dinheiro não as compra e nem a experiências.  
E as Brunas e seus relacionamentos felizes? A cada dia surgem mais, almas gêmeas, esforçadas, amor puro e espiritual. Encobrem frustrações, falta de sonhos, pais que só brigam, mães imaturas, projeções no namoro e um sem número de outras possibilidades que podem servir de motivo para manter um relacionamento de aparências. Ainda assim, mantêm-se exibindo um padrão de vida superior ao que podem pagar, fugindo ao invés de encarar os problemas e não se amando o bastante para encerrar mentiras que nunca deveriam ter começado. Aos olhos do mundo exterior, está tudo bem, afinal os bens materiais abundam em todos seus derivados, alardeando belas roupas, eletrodomésticos, cômodos sob medida, casas, carros, férias. E que exemplos mais podem ser citados? Aquele seu amigo que está a longos seis anos esperando uma promoção no emprego, mas no fundo se contenta com o aumento anual de 5% no salário. Aquela sua vizinha que só veste Prada, Calvin Klein, Dior e Arezzo, mas há cinco meses está ameaçada de despejo e com cobrador na porta. Aquele conhecido que levou a família pra Fernando de Noronha há quatro verões e ainda não terminou de pagar. Lua de mel em New York, vinho importado no armário e conta bancária no vermelho. Podem se estender ao infinito. E a questão não é quem são e como são as Patrícias, Brunas e Ricardos, mas por que são. Por que precisam pagar de algo que estão longe de sentir verdadeiramente? Por que têm essa necessidade de seguir os padrões de sucesso estabelecidos, fingir para o vizinho e para si mesmos, fazer um esforço tremendo por sonhos que não têm? Por que lutar tanto pelo que se não acredita...?

São essas as questões que deixo para análise. Às vezes, se passa muito tempo fazendo algo que não se gosta ou não se quer, mas sem jamais se lançar essa pergunta. E, por vezes, basta este estalo. Somente você pode encontrar a sua resposta. Não ter um apartamento de três quartos, não fazer intercâmbio em Londres ou não se casar não tem nada demais. Pior é fazer administração sonhando fazer música. Casar com quem não quer só porque é médico ou porque tem medo de “ficar solteirona”. Estourar o cartão de crédito só para comprar algo que o vizinho tem. Somente a seu encargo está definir o seu caminho. Aquele que vai te fazer feliz sem teatro, sem hipocrisia nem falsas conquistas para gabar-se. E que vai te dar razões verdadeiras para acordar de manhã e ir atrás dos seus sonhos mais singelos.

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