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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

A sutil diferença entre egoísmo e amor próprio




Jean-Jacques Rousseau trouxe à luz dois conceitos de paixões muito diferentes pela sua natureza e em seus efeitos: o amor de si mesmo e o amor-próprio. O amor de si mesmo é um sentimento natural que leva todo o animal a velar pela sua própria conservação, e que, dirigido no homem pela razão e modificado pela piedade, produz a humanidade e a virtude. O amor-próprio é apenas um sentimento relativo, factício e nascido na sociedade, que leva cada indivíduo a fazer mais caso de si do que de qualquer outro, que inspira aos homens todos os males que se fazem mutuamente e que é a verdadeira fonte da honra. Este último pode ser traduzido como o egoísmo e seria a raiz de todo o mal.
Nos dias atuais, o termo amor-próprio cunhado por Rousseau teria outra acepção. Seria algo como o amor de si mesmo, mas aliado a um sentimento de carinho e autorrespeito, calcado na autoestima, autoconhecimento e tolerância. Porém, a ignorância do que diferencia o amor-próprio do egoísmo, bem como a ausência do primeiro em si mesmo, faz com que muitas pessoas confundam as duas coisas, não em seus termos, mas na visão pejorativa que se tem do egoísta e como se amar pode ser confundido com isso.
Ser egoísta é dizer não para as outras pessoas e sim para si mesmo. É só ser responsável por si. É pensar antes em si, no seu bem-estar, colocar-se em primeiro lugar, recusar quando não se agrada. Acontece que tudo isso também pode ser SE AMAR. E talvez o que diferencie um de outro não possa ser reconhecido por terceiros, a não ser pela própria pessoa. Só ela tem acesso a suas verdadeiras INTENÇÕES.
O egoísta faz tudo isso, sim, mas faz mais: ele diz “não” aos outros e sim a si mesmo porque acha que é o centro do mundo. Para ele, não importa se há mais uma pessoa ou mais um milhão: ninguém importa. O egoísta é apenas responsável por si porque não possui o espírito de compartilhar, de dividir. Os sentimentos dos outros não são levados em consideração e tampouco seus anseios. Ele não tem nada a ver com isso. O egoísta pensa antes em si e no seu bem-estar porque ignora os alheios. Recusa quando não se agrada porque se crê cheio de direitos e está acostumado a que lhe façam as vontades. Geralmente é mimado. Não há egoísta que não tenha sido construído no seio familiar. Ele acha que pode tudo e espera que todos o satisfaçam; ele está sempre em primeiro lugar porque sua arrogância não permite que pense de outra forma. E amor próprio é outra coisa.
Amor próprio é dizer não aos outros e sim a si mesmo porque aprendeu a se respeitar. A pessoa aprendeu a empregar o não ao invés do “sim, mas...”. Sabe que só é responsável por si e que não está implicado no fato do outro se ofender, pois as emoções de cada um são fruto do seu próprio amadurecimento. Quem se ama aprendeu que não é responsável pela felicidade alheia e também não responsabiliza ninguém pela sua, embora possa ver-se como participante passivo nessa construção. Com amor próprio a pessoa pensa antes em si - não porque seja egoísta, - mas porque geralmente já viveu o bastante para ceder mesmo contra a vontade, para agradar terceiros, e tantas vezes se chateou consigo mesmo por ter permitido isso. Ou seja, a questão aqui é o autorrespeito desenvolvido, que não permite colocar-se mais em último lugar, acreditar que todos os outros precisam vir primeiro. E quem pensa que isso é egoísmo é porque geralmente coloca mesmo todos antes de si, não se amando o bastante para fazer prevalecer na própria vida aquilo que deseja de verdade. São pessoas de estima recalcada, inseguras e, muitas vezes, boas, mas que esperam que os demais atendam suas expectativas.
Com amor próprio, a pessoa torna-se segura de si, percebendo-se como alguém importante, com ideias próprias e que discerne quando deve ceder ou não. Reflete sobre que implicações uma ou outra escolha acarreta e como lidará com elas. Uma pessoa com amor próprio é capaz de sofrer muito ao dizer um “não” ou ao se confrontar com determinadas situações junto às pessoas que ama, mas ela ficará do seu próprio lado se for para o crescimento e desenvolvimento alheios, mesmo que os demais envolvidos ainda não tenham condições de compreender que sua atitude não é egoísta (ou, não é egoísta). VOCÊ NÃO PODE VER O QUADRO QUANDO ESTÁ DENTRO DA MOLDURA.
Quando uma pessoa chama a outra de egoísta também está sendo egoísta. Ela reivindica o cumprimento de uma expectativa que o outro não lhe correspondeu. Ela acusa e cobra um benefício não consentido. Nós só vemos egoísmo no outro quando ele não nos atendeu; quando claramente ele se colocou em primeiro lugar e isso NOS desprestigiou. Óbvio que é ruim quando um sujeito é visivelmente ególatra, infantil, mimado e mal acostumado, mas... Aí, é outra história. Não é senão a vida, com suas palmadas certeiras, quem irá corrigi-lo, tanto no tempo quanto na medida certos. Todavia, se amar, isso sim é importante e pouco ou nada tem a ver com egoísmo. Nosso egoísmo pode estar na atitude do outro ou na nossa, na percepção de como as coisas nos são favoráveis ou desfavoráveis, na observação de como as coisas são e como achamos que deveriam ser. É difícil ver egoísmo em nossas próprias atitudes e ele existe, mesmo que estejamos atabalhoados de justificativas mentais para nos advogar. Poderia citar um milhão de exemplos de egoísmo nas relações cotidianas que, muitas vezes, passam batidas e não são taxadas de egoístas.
Amor próprio não é egoísmo. Pode assim parecer a quem não se ama o bastante para diferenciá-los, a quem não se conhece a ponto de esperar do outro o cumprimento de obrigações e promessas nunca feitas. Quando a gente se ama de verdade e passa a se respeitar, muito pouco liga para o egoísmo dos outros. Mas, eles sim – “os outros” – se incomodam com o nosso (egoísmo). As cobranças pesam mais. As acusações ficam mais severas. Temos que ser muito fortes para não ceder a nenhuma chantagem emocional e manter se amando, sem culpa. E é preciso muito amor próprio para não ficarmos incomodados com o egoísmo do próximo. Quem sabe é o único jeito que ele tem de se amar?

Quando desenvolvemos nosso amor próprio, nós não vamos agradar a todos. Mas, vamos agradar a nós mesmos. Seguiremos nos responsabilizando por nossas ações, mas não pelas reações dos outros. Seguiremos lutando por nossa felicidade, de forma ainda mais justa e vibrante. E muitos dirão que somos egoístas. Talvez eles também tenham amarras a se libertar. Como li nesse texto (“Seja egoísta e viva feliz”), será mesmo que certas atitudes são de egoísmo? Bom, não sei, mas para reconhecer isso o melhor mesmo é desenvolver nosso amor próprio. Deve bastar.

4 comentários :

Savinho disse...

Lindo texto, me fez refletir bastante. Parabéns.

Kelly Phoenix disse...

Obrigada!

faby villar disse...

Q lindo! Eu tava aqui morrendo por dentro, procurando um texto apropriado, que falasse do egoísmo das pessoas. Aí me deparo com esse, que me deu uma surra de alertas. Como posso achar a outra pessoa egoísta só pq ela não me deixou em prioridade em todos os aspectos?
Eu sou egoísta, ela só tem amor próprio, justamente o q falta em mim.

Simone Marques - Organização de Ambientes disse...

Amei!! Obrigada!

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