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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

terça-feira, 26 de março de 2013

Pessoas desequilibradas



Quando se fala, se ouve ou se lê sobre pessoas desequilibradas, a primeira coisa que vem à mente são pessoas histéricas, tendo crises de nervos, entupindo-se de cápsulas, em uma camisa de força. O desequilibrado do imaginário comum é de um desvario varrido.
Foucault escreveu a História da Loucura na idade clássica. Esta obra mostra as raízes antropológicas pela qual se classifica um indivíduo como louco. A psiquiatria formatou essa classificação e marginalizou todos os comportamentos que se afastavam dos padrões de comportamento universalmente aceitos em uma sociedade convencional. Muitos erros foram cometidos, muitas pessoas foram tachadas como loucas apenas por ter comportamentos que fugiam ao trivial. Mas, nesse texto, quero falar sobre outro tipo de desequilibrados. Aqueles que estão por toda a parte: lendo esse texto, no escritório ao lado, assumindo seu papel de pai, mãe, namorado, profissional; ou seja, praticamente todos nós.
Pessoas verdadeiramente equilibradas são raras. É quase um contrassenso escrever sobre isso na contemporaneidade, onde o desequilíbrio impera. O estresse do dia-a-dia, a pressão das corporações, pelo corpo ideal ou a corrida do ouro; as exigências cada vez maiores a um ser humano falível e limitado, que sufoca seus desejos pelos anseios do mundo, deixam seus resquícios e sequelas em todas as gerações. As crianças não estão sendo educadas emocionalmente. Crescem com valores distorcidos, adquiridos na escola, porém fora da sala de aula. Quanto aos jovens, estendem sua adolescência por cada vez mais tempo. Não querem saber de responsabilidades e são volúveis em relacionamentos. E o pior de tudo são os adultos: cansei de conhecer e descobrir gente de 40, 50 anos que nada mais são que crianças mimadas em corpo de adulto. O comportamento é exatamente o mesmo, só que, claro, com a maquiagem da falsa maturidade.
Pessoas desequilibradas são maioria, aliás, não conheço pessoas equilibradas. Quer dizer, ninguém me provou isso ainda, nem eu mesma. Não conheço uma que tenha se educado suficientemente de tal forma a não reagir (nunca) às investidas externas; que não seja egoísta ou impaciente ou mal humorada ou invejosa em algum momento. Que se blinda sempre das energias que vêm de fora, que tenha menos ego que personalidade, que não se ofenda, se orgulhe, vanglorie ou tenha acessos de vez em quando. E não é à toa que, nos últimos anos, o número de casos de depressão, distúrbios de humor, ansiedade, suicídios e dependentes de remédios controlados subiu drasticamente. Somos uma sociedade de consumo, a quem tudo é dado, mas muito falta. Somos uma sociedade doente. Falta o essencial, aquilo que não se pode comprar. Não se compra a estrutura da família, o afeto, a satisfação em estar junto, não se compra o sorriso. Não se pode comprar a alegria genuína, um amor que se foi, a volta de um ente querido que partiu, saúde, simplicidade. Estamos sendo enganados, comprando de tudo e obtendo muito pouco, e isso nos tem custado muito caro. Custa o tempo, os afagos, a distância, a família, a realidade – porque vivemos de ilusões! Custa as festas, os momentos, o simples estar, custa o que realmente importa. Tudo passa muito depressa e, quando nos damos conta, mais um ano se foi: com fotos, com pompas, com roupas de grife, diplomas, viagens, fast food, carro novo, mas nada efetivamente real. O tempo com os filhos foi substituído por presentes, o conhecimento foi tapeado por mensalidades altas, as férias foram trocadas por um televisor de plasma. E é desse vazio constante que têm se alimentado as pessoas desequilibradas: os dias se vão passando com uma montoeira de aquisições não conquistadas, uma montoeira de lutas suprimidas, uma montoeira de sonhos que viraram pó. Ao lado da ausência junto a quem ou onde se gostaria verdadeiramente de estar, constituindo em perdas irreparáveis de tempo e afeto, além de tudo que poderia derivar destes. Quando vê, a pessoa está tomando três comprimidos diferentes por dia, sendo classificada de bipolar, ansiosa patológica, síndrome do pânico, anoréxica, bulímica, entupida de fármacos e sem a mínima consciência de si mesma, do que precisa, daquilo que realmente lhe falta.
Equilíbrio é um caminho longo e árduo, ninguém nasce equilibrado. Envolve doses de autoconhecimento, flexibilidade, maturação de experiências, desapego, libertação do passado. Compreensão acima do usual, predisposição ao entendimento, perdão (das falhas dos outros e, principalmente, das próprias), humildade, autoestima, valorização de si mesmo. Mas, como pode ser? Em uma sociedade onde é visto quem consome mais, valorizado quem parece ao invés de ser; como ter autoestima por coisas que nenhum dinheiro compra? Como sentir-se “normal” sem um emprego de carteira assinada, cash, o tênis da moda ou sem postar no facebook?
Pessoas desequilibradas estão por toda a parte: nos bancos, nas ruas, escolas, hospitais. Nas filas, estacionamentos, estádios, faculdades, no Planalto. E o fato é que o homem cresce tão arraigado à ideia de civilização que não percebe que ser equilibrado deveria ser natural. Natural como a capacidade (desenvolvida?) de apreciar as mais belas coisas, as chamadas simples

domingo, 17 de março de 2013

Homens sem testosterona



A mulher contemporânea já assumiu várias conquistas que suas avós nem sonhavam: pode ser profissional bem sucedida, mãe solteira inseminada, sustentar-se sozinha e, ao mesmo tempo, manter os tradicionais papeis esperados de sua pessoa, como de dedicada esposa e mãe. O interessante é analisar como vem reagindo o homem a essa mudança tão radical e merecida, já que somos frutos de uma herança histórica onde os homens se sobressaíam e a mulher era tratada apenas como um objeto de sexo frágil.
Aparentemente, alguns homens hodiernos parecem muito confusos ante sua nova “função” social. A maioria parece estar perdida entre o machismo pleno e absoluto, tradicional no sistema de família patriarcal, e ser um homem fêmea, restando pouca esperança àquelas mulheres cuja crença permitia antever um homem situado no “meio termo”. O homem fêmea é uma praga no mundo moderno, principalmente nessas novas gerações, onde o compromisso com o outro foi totalmente abolido do campo de relacionamentos e os meninos crescem acreditando que os dois sexos são totalmente iguais e que um rosto de boneca resolverá todos os problemas que eles têm na vida (além do abono financeiro dos pais, é claro).
Muitos homens de hoje parecem carecer de caracteres básicos para serem denominados homens A testosterona, ou, é quase inexistente, suplantando o sujeito de qualidades femininas – e femininas; - ou permanece a níveis Neandertais, sustentando homens brutos, insensíveis e totalmente dominados pelos instintos do sexo e da vida selvagem. Assim, o homem esperado pelas mulheres – para dar uma pequena amostra, aquele que pode ser cavalheiro, mas igualmente ter a coragem de trocar a resistência de um chuveiro – é cada vez mais raro, na remota hipótese de existir. O trabalho em escritório criou homens especialistas em fazer dinheiro e bunda, mas incapazes de carpir uma erva daninha ou erguer um pesinho, que não seja na academia. São frescos, são frouxos, mas também muito certos de que não há nada de errado em ser como são, pois a igualdade de sexos está aí para não desmenti-los.
O homem fêmea pode ser culto, sensível e gentil, mas o seu grande mal é que ele não tem nenhuma atitude. Não sabe dizer “não” quando necessário e, muitas vezes, se ferra bonito por isso. Confunde ajudar os outros com abrir mão de cuidar dos próprios problemas e interesses, não mantendo uma postura firme de dignidade e objetivos de vida. Demonstra estar sempre à disposição dos outros – o que não seria nem mau, se ele soubesse que em tudo na vida é importante a observância dos limites. Não é determinado em suas metas e muda de ideia toda hora, além de não procurar atingir seus objetivos (quando os tem). Permite-se levar a vida sem nenhuma preocupação coerente, carecendo da base que dá substância e segurança a qualquer mulher que pense em dividir a vida com alguém. Tudo isso, além de nunca tomar decisões importantes e mostrar-se um inseguro e indeciso crônico, relegando tais deliberações sempre a um futuro distante.
Não reconheceu ninguém no descrito acima? Ah, mas talvez seja preciso o texto ser um pouco mais claro. Que tal aqueles homens que até “namoram”, mas há anos não tomam nenhuma decisão de dar um passo mais importante? E aqueles cuja mãe lhe frita o bifinho aos 20 anos e lhe faz a cama aos 22? E também aqueles cuja a rotina é de baladas e o vestuário é de adolescentes, mesmo aos completos 40 anos. São aqueles homens que ainda moram com os pais, mesmo que a situação financeira já se faça generosa há muito, muito tempo. E, que razões ele teria para sair, afinal, sendo servido de casa, comida, faculdade, combustível e roupa lavada 24 horas por dia?
Uma das características mais marcantes nesse novo homem (e nem tudo que é novo, é bom), que não é machista nem macho alfa, mas também não guarda consigo nenhum resquício básico do protótipo simples de macho, é que ele não toma a iniciativa. Nenhuma. Ou, muito poucas e insignificantes. As mais importantes ele talvez nem saiba que deveria tomar. E, não se trata de iniciativa em flertes e romances, pois isso poderia até ser tolerado, caso as outras peculiaridades não persistissem. O que acontece é que, muitas vezes, ele é o homem que defende que a mulher não se submeta a uma vida exposta ao papel opressor da sociedade patriarcal, porém, tudo isso não passa de um bonito discurso; na prática, ele é incapaz de arrumar a própria cama, levar a louça até a pia ou mesmo cozinhar quando sente fome. Nunca sabem a hora certa de agir, de fazer algo efetivo ou, ainda, a hora de fazer brincadeiras ou de ser sério. Saber o que quer, então, é algo que passa longe de sua mais vã filosofia!
E, convenhamos: por mais moderna e segura de si que seja uma mulher, algumas coisas nunca mudam. A mulher ainda espera certos gestos por parte da ala masculina. E não se trata apenas da iniciativa. Uma mulher espera encontrar segurança e estabilidade; duas palavrinhas mágicas que definem o que um homem é e para que serve. Ela pode ser decidida, prática, objetiva, mas ela não quer ser o homem da relação. A maioria de nós, mulheres modernas, sabe fazer tudo, ou, quase tudo, que um homem faz. Mas, não esperamos ter de trocar o pneu do nosso carro na sua frente, apesar de fazer isso muito bem. E também não queremos carregar as sacolas do supermercado enquanto você carrega uma frágil torta ou, pior ainda, apenas nos olha. Talvez seja um lado machista, mas eu prefiro dizer que é a famosa busca pela segurança. Ser moderna e inteligente não impede uma mulher de gostar de ser o lado frágil da relação. E, por mais iguais que os gêneros tentem ser, penso que essa posição é muito mais compatível com a delicada figura feminina que com a de um marmanjão. A mulher quer alguém que possa admirar e ter orgulho, que possa contar e apoiar mutuamente. Não espera ser a empregada ou o troféu nem a ferramenta que decide tudo, assumindo o papel do macho e somando ao que esperam dela, ainda por cima. Um homem de verdade conquista as mulheres por sua personalidade e caráter, regadas com doses cavalares de decisão e testosterona. É o que se espera do homem: a frente, a condução, a postura decidida, mesmo que já tenhamos até mais condições do que vocês de fazer isso de forma acertada. É preciso ser homem sem anular a sensibilidade, o gentleman que existe em cada cavalheiro e, há muito, está adormecido. Em tempos passados os homens cortejavam e impressionavam, cabendo a eles todo o papel de iniciativa, mas, veja bem, nem é isso que estamos pedindo, já que nessas mesmas épocas, o homem precisava sufocar em si qualquer característica que o fizesse parecer frágil ou apenas humano, pois os papeis sociais então instituídos impediam a compreensão de que, independente de gênero, somos todos, apenas seres humanos, com pontos fortes e fraquezas. Mas, entregar-se somente às tais fraquezas e esperar uma super mulher macho, que arque com o papel de sua mãe e do papel de homem que você deveria desempenhar, aí também, I’m sorry, não é algo que possa ser tranquilamente transposto (por mais moderna e mente aberta que seja a mulher!)
Um homem fêmea geralmente foi filhinho da mamãe, mas pode não ser capaz de reconhecer que tem responsabilidade por ser como é e da ausência de consciência da vida como adulto. A mãe até pode ter culpa (e geralmente tem) na formação de um homem sem atitude no que condiz à sua forma de educá-lo, mas a imaturidade ou comodidade em aceitar o não ingresso no mundo maduro é toda da própria pessoa. E aí, se um dia se casa, este homem vai apenas transferir as atribuições que esperava da mãe ao papel da esposa e esta continuará alimentando o círculo do homem sem atitude, inclusive na criação dos próprios filhos.
Resta pontuar uma coisa: Detesto homem sem atitude. E, com certeza, não sou a única. Homem sem vontade própria, pulso firme, que responde “Você que sabe” quando ele é que deveria saber o que estou perguntando: faça-me o favor, é realmente broxante. E, não, eu não estou falando de sexo.
- Onde você vai se sentar?
- Você que sabe.
Como assim, “eu que sei”? Não é capaz de decidir onde vai se sentar? Tenha dó!
Homem frouxo, indeciso, empastado, inseguro. Homem mole, bisonho, pateta, pamonha. Que faz conta de miséria, quer rachar os 30 reais da pizza, mesmo ele tendo comido oito pedaços e eu, apenas, um. Não se trata de pagar as minhas contas ou bancar meus luxos, até porque tenho meu próprio dinheiro. Trata-se aqui de gentileza. Homem que chama a mulher pra tomar um vinho e a faz pagar a metade da garrafa? Fora!
Não precisa ter um cavalo branco, levar flores a cada encontro, levar no restaurante mais caro – olha: não precisa. Precisa, na verdade, é de muito pouco; precisa fazer a mulher se sentir segura, saber dizer sim, saber dizer não. Saber o que quer: basta. Porque eu posso trocar os quatro pneus do seu carro se, por algum motivo, você não puder fazer isso um dia. Mas, enquanto isso, ser um homem – só um homem – não, não pode ser pedir demais.  

sexta-feira, 15 de março de 2013

A fragilidade da vida



Ah, a fragilidade da vida... Por que posso senti-la agora, e ele não? Por que o vento balouça suavemente meus cabelos enquanto choro, e a ele relegou aquela terra fria? Ah, a morte... Ela vem quando queira. Ela ignora se hoje de manhã não lhe fiz carinhos ou não conversei com ele... Ignora que ele olhou para mim, como a indagar por que seu sangue quente escapava-lhe pela garganta ao mesmo tempo em que se lhe esvaía a vida.
Nada me diz nada, nada faz sentido. O céu nublado e o barulho do chafariz mentem uma paz que estou longe de sentir. Tudo continua igual: ninguém se importa. Mas, dentro de mim algo mudou: a saudade ou a culpa que ele deixou.
Por quê, por quê, por quê? Meu olhar pergunta.
Mas a vida me é indiferente, assim como a morte o foi. Por que morreu em minhas mãos? Que tremem agora que escrevem. Nada pude fazer para reter-lhe a vida e meu coração sangra mais do que ele ao despedir-se dela.
A vida segue, indiferente. Pessoas com seus tormentos fúteis, universidades com seus conhecimentos vazios. Vazios como meus olhos que ainda podem indagar por que aquele gatinho perdeu o brilho dos seus?
O meu mundo para, ele quer uma explicação. Mas, não há explicação e nem nada que justifique o resto do mundo parar. Resta doer com frieza. Resta sangrar como gelo. Nunca mais o verei outra vez a brincar com os irmãozinhos e eu nem pude explicar para ele que nós não queríamos... Que faria tudo, que tudo daria... Para que não morresse em meus braços. 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Qual o sentido? NÓS SOMOS O CÂNCER DO PLANETA



Qual o sentido em manter sua TV de 70 polegadas, que consome toneladas de energia mesmo quando desligada, se o que importa é o que transmite?
Qual o sentido de chutar o morador de rua com seus tênis fabricados na China e qual o sentido de trabalhar dia após dia para sustentar um sistema que não é natural? Qual o sentido?
Qual o sentido de mais estacionamentos, mais prédios, mais desmatamento, mais espécies em extinção? Por que precisamos de mais edificações? E por que fabricar mais carros, já não temos em número suficiente? E por que tê-los? Qual o sentido de enriquecer um sujeito só, quando podemos investir em transportes alternativos e enriquecer o planeta?
Qual o sentido de divertir-se com a caça do seu gato doméstico? Tordos, mariquitas, ararinhas azuis e águias brasileiras estão se acabando. Qual o sentido de a conta de água ser tão barata, se o que dói mesmo é sempre no bolso?
Qual, qual o sentido?
Qual o sentido de ter um bebê? São milhares a mais, por dia, no planeta. Milhares de toneladas de fraldas “descartáveis” que não se biodegradam. Oh, o seu egoísmo é tão bonitinho...
Qual o sentido de tanto consumo, tanta comida e tanto lixo? Qual o sentido de tanta ganância? O luxo é lixo também.
Qual o sentido de estar aqui, apontando isso?

Bem-vindos à classe média! [...] E agora vocês também fazem parte da classe média, e eu queria lhes dar as boas-vindas, porque é realmente uma beleza, a classe média americana. É o esteio das economias de todo o planeta! E agora que vocês conseguiram esses empregos nesta fábrica de coletes à prova de balas, vocês vão poder ajudar a transformar em deserto cada palmo de habitát nativo da Ásia, da África e da América do Sul! Vocês também vão poder comprar TVs de plasma de setenta polegadas que consomem uma quantidade absurda de energia, mesmo quando não estão ligadas! Mas tudo bem, porque foi por isso que pusemos vocês para fora das suas casas, para poder derrubar tudo e arrancar todo o minério das suas montanhas ancestrais e alimentar os geradores a carvão que são a principal causa do aquecimento global e de outros fenômenos esplêndidos como a chuva ácida. Vivemos num mundo perfeito, não é? E o sistema é perfeito, porque enquanto vocês tiverem as suas TVs de plasma de setenta polegadas, e eletricidade para elas funcionarem, não precisam pensar sobre as consequências trágicas disso tudo. Podem ficar assistindo a Survivor: Indonésia até a Indonésia sumir do mapa! [...]
Só mais algumas observações sobre este mundo perfeito. Queria falar desses imensos carros novos que fazem menos de quatro quilômetros por litro e que agora vocês vão poder comprar e dirigir para todo lado, agora que entraram para a mesma classe média da qual eu faço parte. E o nosso país precisa de tantos coletes à prova de balas justamente porque algumas pessoas em certas partes do mundo não querem os americanos roubando todo o petróleo deles para abastecer os nossos veículos. Assim, quanto mais vocês andarem de carro, mais seguros ficam os seus empregos nesta fábrica de coletes à prova de balas! Não é um arranjo perfeito?[...]
Só mais uma coisinha! Quero dar-lhes as boas-vindas a esta empresa, uma das mais corruptas e inescrupulosas do mundo inteiro! Estão ouvindo? A LBI está cagando para os seus filhos e suas filhas que estão derramando sangue no Iraque, contanto que continuem recebendo seus lucros de mil por cento! [...] Também faz parte do mundo perfeito de classe média em que vocês estão entrando! Agora que vão trabalhar para a LBI, podem finalmente ganhar dinheiro para não deixar seus filhos entrar para o exército e morrer nos caminhões enguiçados da LBI, com esses coletes vagabundos no corpo! [...]
E ENQUANTO ISSO, ESTAMOS PONDO MAIS TREZE MILHÕES DE PESSOAS NO MUNDO A CADA MÊS! TREZE MILHÕES DE SERES HUMANOS PARA MATAR UNS AOS OUTROS NA DISPUTA PELOS RECURSOS NATURAIS! E, ENQUANTO ISSO, EXTINGUIR TODOS OS OUTROS SERES VIVOS DO PLANETA! A PORRA DO MUNDO É MESMO PERFEITA, SE VOCÊS NÃO ESTIVEREM PENSANDO NAS OUTRAS ESPÉCIES QUE VIVEM NELE! NÓS SOMOS O CÂNCER DO PLANETA! O CÂNCER DO PLANETA!*

Faz sentido, é o que o leitor pensa. E desliga seu monitor de 30 polegadas, seguindo em frente sozinho no carro.
Qual o sentido?

*Discurso de Walter Berglund em Liberdade, de Jonathan Franzen (p. 523 e 524).

terça-feira, 12 de março de 2013

Esquecemos de ser gratos



Pelo sol que nos aquece
E pela cama quentinha
Nas noites invernais.

Esquecemos de ser gratos
Pelo prato em nossa mesa
O pano em nosso couro
E a água que mata a sede.

Esquecemos de ser gratos
Pelo banho reconfortante,
A mãe dedicada,
O amigo que liga para saber notícias,
O cão que corre a nos receber.

Esquecemos de ser gratos
Pela companhia
Pela brisa matinal
Pela vista da janela
Pelo voo do pássaro
E pelo dia que chegou.

segunda-feira, 11 de março de 2013



Viu o sol em declínio por entre o arvoredo, tingindo o parque de um dourado cor de ferrugem e dando um brilho avermelhado às copas das árvores. Pegou-se refletindo que, se morresse, aquilo seria uma das coisas que mais lamentaria perder: as cores. A forma como podiam surgir do nada e de repente nos surpreender, ainda que nos trouxessem a vaga sensação de tristeza, também, como se nosso lugar não fosse aqui.

domingo, 10 de março de 2013

Procrastinação



Amanhã vou dormir mais cedo. E acordar mais cedo também. Amanhã vou estudar inglês, ver aqueles vídeos que queria ver hoje e não deu, amanhã vou fazer mais abdominais. Amanhã vou ver sobre o tal plano de saúde, vou terminar de ler o livro; amanhã vou separar o que não me serve mais e doar. Amanhã não vou perder tantas horas na internet. Amanhã vou fazer o que tem de ser feito. Amanhã vou adiantar a agenda da semana que vem, vou trocar a água dos gatos, vou marcar a depilação.
Amanhã, amanhã, amanhã!
Amanhãs que se tornam hoje, que viram ontens. Amanhãs que chegam e partem sem resoluções, ações, atitudes. Amanhãs que vêm e que vão, oh, procrastinadores! Pensem sobre isso amanhã.

sábado, 9 de março de 2013

Esse DNA viajante...



Em toda minha infância, duas das coisas que mais me fascinavam eram globos terrestres e mapas. Lembro de um globo terrestre imenso que existia na escola, além das paredes da biblioteca tomadas por mapas gigantescos, e ficava imaginando o que cada nome daqueles significaria em termo de lugares. Em minha imaginação infantil, cada pequena viagem de ônibus já era uma aventura – que dizer daquelas viagens de verdade, que via nos filmes da sessão da tarde? O primeiro globo terrestre que tive era pequenininho - um apontador, cujo depósito era o globo mal impresso –, que nunca levava para a escola, para ficar contemplando em casa, na ânsia de meus anos mais felizes. E cresci olhando para ele a sonhar como seria estar do outro lado do mundo, viajando mentalmente; fechava meus olhos e passava horas apontando um dedinho robusto na direção dos países que eu, sequer, sabia mencionar os nomes.
Minha noção da grandeza do mundo nunca foi limitada. Porém, mesmo sem me mover por distâncias grandiosas, podia imaginá-las através de um atlas, de um livro de História ou, simplesmente, através de um documentário na National Geographic. Colecionando as figurinhas da Amazônia e do Pantanal, guardando as que traziam a cultura dos países da Copa de 94 ou arregalando os olhos a todas as que encontrava dos lugares sedutores que o chocolate Surpresa trazia, os anos foram passando e me preenchendo da vontade de viajar mais e mais . Geografia nunca foi propriamente o meu forte, mas, já na primeira aula de Biologia, imaginei que continha um DNA viajante.
O problema é que não é desde que me conheço por gente que eu conheço dinheiro.
Era ainda cedo quando descobri que passaporte pro mundo custa muito caro e nem sempre é possível ingressar em cada um dos lugares de sonho em meu cavalo alado chamado Ventania. A revolta pela injustiça já entorpeceu meus melhores anos, especialmente ao perceber que um ingresso pro mundo é algo tão especial quanto raro. Via que muitos dos que podiam obtê-lo careciam daquele espírito de aventura, enquanto muitos que o mereciam não podiam tê-lo devido ao alto preço que o mundo cobrava. E, se antes de completar uma década eu já me agoniava por não conhecer estes lugares, imagina hoje, com 20 e tantos anos na cara: a tristeza e a indignação por ver os anos passarem e não me ver passar por aqueles lugares com a liberdade e a independência sonhadas.
Natural para quem cresceu ouvindo: “Essa menina vai longe” era imaginar qual país poderia ser o mais longe possível, coração na mão, círculos a caneta hidrocor no mapa, cabeça nas nuvens e a agonia de lembrar que a lista é grande, mas a gente também é. E quando tem a coragem de deixar a primeira pegada, montar a mochila nas costas e ganhar o mundo, a gente mais se encontra que se perde. Pois, quanto mais saio do lugar, mais eu sinto que estou exatamente onde deveria estar e que o próximo voo será muito, muito mais alto...