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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

domingo, 30 de junho de 2013

Vá tomar no vácuo


Falta tempo. Para responder mensagens, retornar telefonemas, devolver e-mails. A vida está cada vez mais atribulada; trabalhamos, estudamos, namoramos e nunca sobra tempo para nada. Falta tempo...
Falta tempo? Não. Falta interesse.
Se falta tempo, como se demora 01 hora sob o chuveiro? E vai a jantares, encontros e festas de última hora? Sessões de cinema de 03 horas mais 03 no trânsito? Se falta tempo, como dorme até meio-dia e fofoca no face até 02 da manhã? E faz os trabalhos em cima do prazo e passa a madrugada na frente do PC?
Poderão me contestar que é justamente por esses pequenos prazeres que falta tempo, e que são justos. E eu repito: não, falta interesse. Pois quando a gente quer, dá um jeito de passar uma tarde com a avó. Se quer muito faltar a firma, madruga para conseguir atestado no posto. Se quer muito o bolo de chocolate, espreme a rotina para passar na padaria lotada. Passa horas em cima de um livro que gosta, fica mais um pouco porque a festa tá boa.
O que falta mesmo é vontade. Consideração, apreço, disposição. O que não falta é vergonha para justificar: “Falta tempo”.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

O gigante vai dormir de novo


O povo tem razão. Mas, tem memória curta também.
Eu também cansei. Merecemos educação, saúde de qualidade; pagamos altos impostos e não vemos o retorno. Não dispomos de transporte público adequado e acessível, nosso efetivo policial é pouco e mal pago. Entretanto, nada disso aconteceu de um dia pro outro. Foram décadas e décadas de solidificação.
O povo está protestando contra tudo. Anos de omissão (opressão?) política fizeram com que o “despertar do gigante” fosse ruidoso e imprevisível, estertorando gritos contra a injustiça e a corrupção em altos brados como gritos de GOOOL! Mas, também, são gritos de imaturidade ideológica e analfabetismo político. Há um grande perigo nessa falta de foco: manipulação. Algo nada difícil em um povo de memória curta.

Retrocedendo alguns anos: na história recente do Brasil (nem 50 anos, ah vá, não é tanto tempo assim), sofremos o famoso golpe militar. Todo mundo pensa que sabe do que se trata, mas talvez refrescar a memória não seja nada de mais... Pouco antes do golpe, jornais como O Globo, Jornal do Brasil e Diário de Notícias apoiaram amplamente a deposição do presidente João Goulart, tentando convencer as pessoas de que Jango levaria nosso país a um tipo de governo semelhante aos existentes em Cuba e na China – ou seja, comunismo: algo inadmissível para um país que só queria ser igual aos Estados Unidos. Com esse mote, foi organizada uma campanha pelos meios de comunicação, que além da ideia comunista pregava também que não estávamos sendo bem representados, pois ninguém queria um governo de comuna. Acontece que Jango tinha nacionalizado, no início de 1964, o petróleo, a terra ociosa nas mãos de grandes latifundiários e uma subsidiária da empresa norte americana ITT, além de ter aprovado uma lei que impunha limites aos benefícios retirados de nosso país por empresas multinacionais. Quando do golpe, ainda, o Brasil era o maior exportador de suco de laranja do mundo (constituindo ameaça à indústria norte americana) e estavam anunciadas uma nova constituinte, reforma agrária e a nacionalização de refinarias estrangeiras.
O governo estadunidense e os militares brasileiros viam em Goulart alguém perigoso, pois ele preferia manter uma política independente aos mandos e desmandos da Casa Branca. Resultado: João Goulart deposto, obrigado a fugir; o Chefe Maior do Exército, Gen. Humberto Castelo Branco assumindo a presidência e a volta de uma economia e cultura sob tutela americana[1]. As ruas foram tomadas por tanques e jipes de guerra, soldados armados rondavam as grandes cidades, os direitos civis foram reduzidos, a sede da União Nacional dos Estudantes (UNE), no Rio de Janeiro, foi incendiada e todas as associações partidárias e sindicalistas que apoiavam Goulart foram tomadas pelos soldados.
Aí você vai dizer: que tem isso a ver? A Dilma não está ameaçando os Estados Unidos, não está com “Padrão Fifa” em seu governo, não está simpatizando o comunismo e estamos em 2013, golpe é besteira. OK, então por que há insinuações do impeachment dela? Por que alguns canais de comunicação alteraram o discurso de uma semana para a outra? Foi o governo da Dilma que inventou a corrupção? Só tem PT no Distrito Federal?

Tudo está convergindo para o caos. Se o governo perde o controle, o passo seguinte é um golpe. “Sequestram” nosso país com a gente dentro! Só pela Amazônia já estaria valendo. E olha só: de repente, a Globo fica boazinha, derruba a grade de programação, dispensa os comerciais e se dedica a dar cobertura aos protestos, chamando o povo pra rua. Privilegia em seu discurso que uma minoria está vandalizando, que é a favor de o povo lutar, democracia, justiça, paz, florzinhas e borboletas, apesar do Bonner e a Poeta com aquelas caras de tragédia. Em contradição, as imagens que mais mostram é quebra-pau, polícia despreparada, violência, depredação... E até agora ninguém deu uma justificativa convincente (nem pediu) de por quê tudo começou tão no ar, tão “do nada”... O mais repetido e nada plausível argumento é “Não é só por 20 centavos...”.

O Brasil acordou, se mobilizou por redes sociais, seus moleques derrubando reis... Será?

Já se perguntou se não há alguém por trás disso? Ou se, uma figura carismática, apartidária, sorridente, não vai pegar o gigante pela mão? Por que tudo surgiu justamente quando a atenção mundial estava voltada para o Brasil, devido à Copa das Confederações? Lembra daquela frase “A história se repete” ou de Cazuza cantando “Eu vejo o futuro repetir o passado...”?
Um querido colega de mestrado disse-me essa semana:
- Em 1992, eu estava lá. E, depois que eu vi o que era de verdade... Eu me senti tão idiota...
E eu li de novo suas palavras em um texto do professor Fabio Blanco, que transcrevo cá um trecho, mas que você pode ler na íntegra aqui.

“Nem toda mobilização é positiva, como nem toda aglomeração é má. Mas o que estão querendo? Essa é a pergunta que poucos se fazem. E, se fizessem, com sinceridade, veriam que tudo é apenas repetição de uma velha fórmula: uma liderança com sede de poder que usa uma massa de jovens frustrados, instigando suas decepções e seus vazios, sem promessas, sem propostas, apenas oferecendo, para eles, a chance de fazer parte de algo que lhes dê alguma razão para suas vidas insossas.

Essas coisas ocorreram comigo em 1992.”

Nossa juventude criada a Playstations e Toddynhos, se talvez, lesse mais, estudasse mais História (só um pouquinho!) e se alimentasse mais de ideias que de hambúrgueres – talvez pensasse mais. Talvez (deixa eu sonhar), não se tornaria “massa de manobra desses que hoje dominam tudo no Brasil”. Podem culpar a educação, mas interesse é mais que isso. Interesse em mudar o país, em baixar a passagem, em fazer a diferença ou em empolgar-se com as proporções, querer fazer parte de uma história que ignora que se repete e ter fotos pra mostrar depois?
Fui educada nessa mesma educação defasada de que reclamamos. Estudei a vida toda em escola pública, fui bolsista do PROUNI na graduação e agora sou CAPES no meu mestrado. Acho que posso afirmar que interesse, autonomia e senso crítico partem da gente mesma, não se aprende na escola. Talvez se lessem mais livros do que ficassem no facebook ou o mesmo interesse em aprender que tem pelo sexo oposto (ou pelo mesmo), talvez, TALVEZ as pessoas se educassem.
Por fim, que fique claro: eu também quero mudanças, quero que possamos viver bem. Acredito que há muita gente bem intencionada, instruída e politizada nas ruas. E, como todos, sonho com uma sociedade mais justa, democrática, segura e livre. Entretanto, intenção não é tudo (só para Kant). Já percebi que a mudança começa na gente e que não é de um dia pro outro que vamos mudar aquilo que levou tempo para ser feito. Mostrar nossa voz e clamar por melhoras é digno e justo, mas de nada adianta fazê-lo com consciência acrítica, sem foco nem antecipação das consequências. A maioria das pessoas que está nas ruas não sabe bem o que está fazendo ou porque está. Foram na onda, entraram na dança. E isso pode ser muito perigoso. Como saber o que se está fazendo se jamais refletiu a respeito?
O gigante acordou, não resta dúvida que vem por aí um Novo Brasil. Resta saber se é o Novo Brasil desejado. E, de qualquer modo, então, o gigante satisfeito se recolherá e vai dormir de novo.

De cá, eu só torço que os sonhos não virem pesadelos.



[1] Quero dizer com isso que o Brasil tem influência determinante dos EUA tanto em questões de cunho político e econômico como cultural – desde o jeans que você usa ao Mc Donald’s que você come.