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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

domingo, 20 de abril de 2014

Não tenho carro. Caso ou compro uma bicicleta?


Viver em uma sociedade de classe “média” emergente como a do Brasil contemporâneo é muito desestimulante para quem tem um nível cultural-intelectual um pouco mais esclarecido. E esclarecimento não tem propriamente a ver com Economia e classe social, embora, inevitavelmente, a elite possua melhores recursos para conquistá-lo. Todavia, essa crônica não é sobre o Aufklärung kantiano, e sim, como ter um carro parece conferir às massas prepotentes um biopoder foucaultiano (se você não entendeu, pare de ler o texto! Risos).
As mortais criaturas possuidoras de um carro (não é regra!), se creem especiais, poderosas e bem nascidas. Isso, sem nem saberem escrever os nomes de seus possantes, geralmente em francês, italiano ou japonês.
O transporte público no país é caótico – isso é uma verdade inatacável. Os governos fazem apologia ao público, porém “investem” no particular. Ainda que estradas e rodovias não recebam todos os investimentos que deveriam, andar de ônibus ou metrô nas grandes metrópoles é impraticável. Esse descaso com o transporte público faz com que, assim que a situação permita (é, não se aplica a todos os casos essa permissão aí), a aquisição de um automóvel seja efetivada. Por causa disso, o número de veículos cresceu 114% nos últimos dez anos. (Fonte).
Não posso condenar prontamente esse fato. Embora preferisse poder andar de bicicleta com liberdade, sei que isso aqui não é a Europa e que eu posso apenas engrossar as estatísticas de atropelamentos, se arriscar. Infelizmente, em nossas maiores cidades, a falta de o respeito aos ciclistas, motociclistas ou a quem simplesmente faz uma opção diferente, é vergonhoso. Pois, o problema é que não é só o número crescente de carros nas ruas que é alarmante: a falta de educação de quem dirige também alarma. E o veículo, que deveria ser um facilitador de percursos, encurtador de caminhos, acesso ao fluxo de ir e vir, torna-se, além de uma arma, uma extensão do EGO. E isso só pode acontecer em um povo não esclarecido.
Quando caronas continuam a crescer, mesmo a longas distâncias...
Nos Estados Unidos, carro é um meio de transporte, e só. Lá, não importa se o carro é novo, velho, grande, pequeno, desde que ande. A cultura não é essa de medir as “posses” de um sujeito pelo carro que ele tem. É, sim, uma forma de se locomover com mais facilidade, transpor distâncias, ninguém fica reparando no seu carro ou se você tem ou deixa de ter um. Aliás, nos principais países de primeiro mundo o carro é praticamente um artefato museológico, pois os transportes públicos são eficientes, de qualidade e o povo é educado, se utilizando de meios alternativos. Existe uma consciência sobre o comprometimento ambiental e, naqueles que a utilização do carro é ainda necessária, a educação para o trânsito começa ainda nas escolas. Aqui no Brasil, a classe C ascendente faz do carro um signo de status e poder de consumo. (Veja bem, embora eu não concorde com o termo “nova classe média”, minha crítica não se dirige somente a ela, uma vez que comprar uma Ferrari ou um Porshe também é puramente signo de status e ego). O mais lamentável é que essas pessoas têm certeza que é você que está errado em não compartilhar dos valores (valores?) delas.
Agora, vai o meu caso: venho de origem pobre. Sim, pobre. Não concordo com a expressão “humilde”; uma vez que tanto os parentes por parte de pai quanto os por parte de mãe são, além de pobres, orgulhosos. Se eu disser que minha origem é humilde, estarei mentindo. Pois bem, essa parentada está toda muito equivocada sobre o que é ser e o que é parecer (leia Rousseau). E todos trocam de carros com alguma frequência. Em cada família, há pelo menos dois veículos, ou um para cada membro. Definitivamente, não existe isso de o carro ser o veículo que vai facilitar o ir e vir: o carro é a extensão do ego. Meu carro; o carro da A; o carro do B; C trocou o carro; D ganhou um carro; o namorado de E tem carro; carro, carro, carro. Parece uma linguagem em código. Maior que esse ego todo aí, só os financiamentos. Aí, se você estuda um pouquinho de Educação Financeira, Economia, Política e vê que as coisas não são bem assim (prefere guardar o dinheiro, resolve esperar e comprar à vista...), todos o olham como um pelado e sorriem com as chaves de suas máquinas na mão, sem entrada 0 + 360.
Não tenho carro. Não tenho, mas sei que terei de ceder, pois chega um limite que você não consegue mais utilizar o transporte público ou depender de caronas, quando aquele é tão falho. Como não sou casada nem tenho filhos, serei mais uma a somar solitária no tráfego em um carro de 5 lugares, e isso me incomoda. Me incomoda como o desrespeito aos motociclistas e suas mortes lamentáveis todos os dias. Me incomoda como os ônibus lotados e malcheirosos em horário de pico, constituindo um Reino Mítico cheio de figuras invisíveis (sociais), que preferimos fingir não ver. Me incomoda como os índices de acidentes de trânsito, como as estradas esburacadas, como os pedágios e as taxas absurdas para tirar carteira de motorista. E, ainda, me incomoda como a falta de esclarecimento do povo brasileiro. Que desfila com seus carros diariamente, vai ao shopping, come fora e ascende seu consumo sem entender propriamente o que está provocando. Que, se acaso, desse com esse meu texto, me mandaria um beijinho no ombro e diria que eu sou recalque (Freud explica).
Mas, sim, eu serei mais um carro com uma única pessoa a maior parte do tempo. A diferença é que, se tivesse outra opção, eu a acolheria. Eu ficaria feliz em poder pedalar com segurança em algumas ruas da minha cidade, em ser respeitada e vista pelos motoristas, em atravessar na faixa de pedestres, cujos carros parariam para eu passar. Só que, a situação política, econômica e social do meu país não permite. Feliz com a concessão de crédito, ignorando os juros abusivos e os altos impostos que incidem sobre tudo, a massa desperta para comprar um veículo por pessoa da família; colocar os filhos de 18 anos na autoescola e lançar-se toda a um trânsito famigerado, cuja falta de consciência leva à morte mais de 40 mil pessoas todos os anos. (Fonte)

Resta paciência. Enquanto faço aplicações monetárias para comprar o meu carro (cuja finalidade será facilitar o meu ir e vir, nada mais), continuo me esclarecendo e me educando. Mas, eu não sou prepotente de dar risada das massas. Não me felicita ver a ignorância daqueles que pararão no semáforo ao meu lado, dirigindo ao som de Anitta. Não me felicita ver a miséria do meu povo – muitos deles totalmente certos de que são mais privilegiados do que eu - pobre que sou, por não ter um carro...

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