About my Blog

Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Último dia de aula no Mestrado



Dá trabalho ser diferente. Não é que eu não queira (ser igual). Eu não consigo.

Essa foi uma das frases que ouvi essa tarde, em uma que, provavelmente, foi a última conversa de fim de aula na salinha – nossa querida sala de estudos (a 307). Apelidada carinhosamente de salinha, o ambiente aconchegante e acolhedor testemunhou debates – frios ou acalorados, - planos, desilusões e também momentos solitários de estudos dos mestrandos em Filosofia.
Esse último um ano e meio me fez crescer uma década. Ou alguns milênios (±322 a.C.), se for remeter a Platão e Aristóteles. Mudou o brilho no olho, mudou meu caminhar. Reforçou minha confiança, resgatou meus sonhos mudou minha conta bancária. Fazer mestrado foi (está sendo) uma das mais belas e ricas experiências da minha vida.
Estou usando esse tom quase lúgubre, já saudoso, pois hoje foi meu último dia de aula. A partir de agora, só eu e minha dissertação, além de encontros periódicos com meu orientador. Defesa em poucos meses. Ainda não acredito. Tudo passou muito depressa.
Digo que foi uma das minhas melhores experiências porque sinto que entrei lá uma menina e estou saindo uma mulher. Como no papo dessa tarde, a percepção de que o conhecimento é iluminado, mas também tem o poder de nos deixar tristes. Por um lado, porque quanto mais o temos, mais percebemos que não o temos (oh, contradição!), e mais o queremos buscar (tipo dinheiro, só que melhor!). É um caminho sem volta. Por outro, porque essa tarde, em coro, eu e alguns colegas lamentamos secretamente nossa não-ignorância. Afinal, a filosofia (e Stuart Mill) nos ensinou que a ignorância é uma bênção (e uma maldição). Às vezes, seria muito mais confortável acordar, lavar a cara, ir trabalhar conformado com o sistema, não questionar nada, só reclamar e bufar de vez em quando. Vestir a camisa da seleção brasileira, erguer um cartaz “Filma eu, Galvão”, dançar funk e se reproduzir. Mas nós, humildes aspirantes a filósofos, fomos retirados da Caverna[1] e, pretensiosos, já almejamos o Reino dos Fins[2]. Tentando fugir do Panóptico[3], de repente somos os loucos, e não os lúcidos.
Pode ser que nem todos os programas de Mestrado, de todas as áreas, transformem as vidas de quem entra neles. Mas, no caso do meu, em específico, foram as tardes de quartas e quintas-feiras mais bem investidas que já tive. Doze estranhos em uma sala que, pouco a pouco, foram deixando de ser estranhos... e deixando de ser doze... Restaram nove, mas o fato de ser uma turma pequena e que precisava fazer todas as disciplinas juntos criou o costume, a intimidade (em aulas com cafezinho e chá, passeios imaginários no bosque...), uma espécie de carinho. E o que acontecia em grande parte das aulas eram conversas descontraídas, inteligentes, cheias de perguntas intrigantes e possibilidades perturbadoras. A história clássica, a antropologia, a política e seus derivados (geo e biopolítica), sociologia, biopoder, economia, educação, a moral e a ética... O véu de ignorância[4] nos foi arrancado, nossa visão mais e mais ofuscada; como supôs Foucault, mais e mais vontade de saber[5]; artigos, papers, leituras intermináveis, mais e mais alunos passando a usar óculos; cafés, livros, pausa. Toma água, respira, volta. Tem gente que engorda, eu emagreci 13 quilos.
Agora somos os professores: ontem dei aula aos meus colegas, hoje foi a vez de um outro. Foram 3 semestres intensos, todos Sócrates insatisfeitos (e se o porco difere de opinião é porque nunca chegou a ser Sócrates). Mais tópicos: natalidade, Auschwitz, eugenia, hospitalidade, discurso, ação. Socorro! Alguém anotou tudo? Para prova? Que nada, ninguém aqui quer nota... eu QUERO É LER TUDO... CONHECER, SABER MAIS, dos estoicos aos contemporâneos, dos clássicos aos sócio-filósofos... É bom, é maravilhoso, é necessário... Mas, é também doloroso avançar. Porque quando seu discernimento e seu juízo crítico arrojam tanto, quando aquilo que o mundo lhe parece não se limita mais a línguas, espaço e temporalidade; quando você é diferente mesmo que não queira, porque não consegue ser massa... É um pouco assustador.


E assustador (e incrível!) também é aprender sobre Deus com padres, teólogos e ateus – cada um, em seu empirismo, me fez questionar coisas que nunca antes me atrevi. Assustador, aliás, se dar conta que desde o começo dos tempos a humanidade pouco mudou; que a felicidade é uma discussão e o imperativo categórico é agir de tal forma a qual você ache que te conduz a uma vida boa... (só que não!).
E os intervalos, crises, momentos compartilhados... Da troca de experiências com psicólogos, advogados, médicos, engenheiros. Das mudanças nas vidas pessoais de cada um, que passavam sempre a conhecimento de toda a turma: o colega que não pôde continuar porque perdeu a renda; a colega que precisou escolher entre mestrado e emprego; o colega que virou papai ou o colega que perdeu a mãezinha... Uma pequena família. Acabamos sentindo um pouco também a dor dos outros.
O Mestrado, repito, foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vita activa-contemplativa. Ampliei minha visão de mundo, desenvolvi novos pontos de vista e desapeguei, definitivamente, da ideia de que minha opinião é a melhor – ela, assim como a Ciência, é só mais uma perspectiva adotada, mas há milhares. E não há uma necessidade de ser a certa, a única, a melhor, porque é a minha. Dogmas quebrados, certezas dobradas, conceitos desconstruídos – entrei em crise, em parafuso (não fui a única); não sabia quem era, o que é a vida, aliás, ainda não sei se sou – essa tal condição humana (existe isso, Hannah Arendt?), ah, e a cultura... No fim, tudo é só cultura...
Foram dezoito meses para amadurecer. Uma pessoa (Pessoa? É, no meu caso, acho que sim, com o aval da maior parte dos autores) esclarecida, segundo Adorno e Horkheimer; autônoma, segundo Kant; um animal político, segundo Aristóteles; um porco satisfeito, segundo Mill (e o professor Brum, hahaha).
Vou sentir saudades desses encontros semanais – mais do que aulas, lições de vida. Porque eu já sei que no Doutorado não será a mesma coisa. E que na próxima ocasião em que pisar em uma sala de aula, dessa vez estarei à frente da turma. Serei mais uma jovem professora universitária.         





[1] Alegoria da Caverna de Platão.  Leia mais aqui.
[2] Um texto simples e objetivo sobre o Reino dos Fins aqui.
[3] Mais sobre o Panóptico, de Bentham, aqui.
[4] Trocadilho com o véu de ignorância, de John Rawls.
[5] Trocadilho com título de Foucault.

2 comentários :

Adrian disse...

Muito interessante o seu blog. Porém, queria lhe deixar uma dica, que talvez não seja só minha: esse fundo escuro, quase preto, cansa/força demais a vista; a fonte das letras não está ajudando muito, também.

Parabéns pelo bom conteúdo. Vou acompanhar sempre.

Abraço

Kelly Phoenix disse...

Olá, Adrian, fico muito feliz com a sua visita em meu blog! Espero mesmo que volte sempre. Em relação ao fundo escuro e à fonte, concordo plenamente com vc (tanto que até uso óculos para leitura). O problema é que quando coloquei esse tema, eu era mais ligada em html, hoje em dia não saberia desfazer sem perder as configurações de outras partes componentes do blog... Por isso, tenho deixado assim, mas também preferia ele mais clean e limpinho... De todo modo, se eu descobrir uma forma de trocar o fundo que não comprometa o conteúdo postado até agora, farei certamente.

Obrigada, mais uma vez, volte sempre. Um abraço!

Postar um comentário