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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

domingo, 3 de agosto de 2014

Cada dia em que não fui autêntica




E eu me recrimino por cada dia em que não fui autêntica. Por cada sim que eu disse querendo dizer não. Por cada sorriso amarelo quando as palavras calavam na garganta. Cada momento que me preocupei com a opinião maldosa de quem não importava pra mim. Eu sempre pulsei primando pela autenticidade. Eu nunca gostei que a hipocrisia social me obrigasse a abandonar minha essência e mentir para parecer agradável. Mas, eu não acho que entenderiam. Por isso, eu só me recrimino por cada hora em que não fui autêntica. Cada vez que calei querendo falar. Cada vez que minhas palavras não corresponderam àquilo que eu sentia. Cada vez que as convenções que os outros me empurravam goela abaixo venceram a minha palavra sincera. Quando percebia ideias equivocadas sobre mim serem formadas e nada dizia; cada vez que não consegui negar com veemência ou aceitei sem vontade. Quando fui aonde não queria ir. Se contrariei meus anseios e insultei minha inteligência. Quando usei salto querendo estar de all star; quando permiti querendo rejeitar. Concordei querendo fugir. E eu me recrimino por cada minuto em que não fui autêntica.
Todas as vezes que fui para um trabalho onde me sentia mal. E quando mentia pra mim mesma que era necessário. Todas as vezes que verdades ficaram entaladas ou subtendidas; e que respirei fundo achando que ia magoar alguém que já tinha me magoado. As vezes que fui a encontros insossos com pessoas perfunctórias e as vezes que eu sabia mais de algo que alguém, e sabia que sabia, mas preferia não entrar em conflito. Eu quero é mais dias que eu faça jingles cozinhando. Ou dance “balé” pela cozinha, fazendo contato imediato com uma chaleira cantora. Quero mais “Se abre comigo, estou aqui” que “Oi, tudo bem” sem emoção. Mais fotos espontâneas que posadas. Mais gente que importa de verdade que gente por conveniência ou por gratidão. Quero mais olho borrado com o delineador que esfumado com perfeição; mais cutícula mal tirada e unha roída que desenhadas e impecáveis; mais pantufa surradinha com chocolate quente que gente de gala e de regime. Prefiro a espinha amarela, as olheiras fundas, o chinelo de dedo que essa mania inatingível de ser perfeito, sem rebarbas. Menos espetáculo, menos máscaras. Um pouco mais de pele, mesmo eu sendo tão durona para abraços.
E eu quero ser ridícula mais vezes e não ligar pra isso. E nem ligar se os outros ligarem. Eu gosto mais daqueles dias que eu fazia careta em público ou peidava alto. Sinto mais falta daquelas conversas profundas, sem roteiro, que das aulas intermináveis de quem pensa que sabe tudo. Acho que, no fundo, eu não me importo com meias furadas ou andar em casa igual uma mendiga. Mãos sujas de tinta e bigode de chocolate também me representam. Eu não sou perfeita e não me orgulharia se fosse. Porque o gosto do sal com o cheiro do Sundown são lembranças mais carinhosas dos meus melhores verões que a cor do meu biquíni ou quantos quilos eu tinha perdido. Observar um passarinho, se perder no reflexo da água, chupar os dedos de brigadeiro, lamber a tampa do iogurte, ou nada disso. Tudo o que confira um pouco mais de autenticidade. E não faça eu me maquiar socialmente, pintando a vida com (falta de) atitudes que me distanciem daquilo que sou ou anseio ser.

E eu me recrimino por cada segundo em que não fui autêntica.

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