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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Ela sabia que faria de novo


Odiava. Mas, não sabia mais como vencer aquilo. Conhecia o peso de uma depressão e não ousaria se colocar naquela categoria. Todavia, era certo que havia algo muito errado. Aquilo se repetia todas as manhãs.
Ela ia colocar o relógio despertar. Ia deitar com a vontade sincera de sair da cama no horário estipulado. Ao tocar do alarme, porém, a cena mudaria. Seus músculos pareceriam presos à cama, feitos de chumbo. Um desânimo a corroeria, mesmo com o sol a lhe enviar mil convites pela fresta da janela. Dores no corpo lhe fariam sentir uma senhora de 70 anos. Por fim, antes de apagar novamente, ela vasculharia sua mente em busca de motivos para sair dali – seu conforto uterino. E, nada. Nada pareceria tão interessante. Nada que merecesse o abandono do calor, a maciez do não-lugar e a anestesia mental em que se refugiara. Mais uma manhã – as manhãs que ela sempre amara! E, ao levantar, próximo à hora do meio-dia, ela se sentiria culpada.
- Por que fiz de novo? – se arrependeria. Teria vontade de voltar o tempo em duas ou três horas e acompanhar o começo do dia. Girar os ponteiros do relógio para trás e, com isso, resolver sua luta diária. Luta por alegria de viver.
Sentia estar jogando seus dias no lixo. Descartando um a um com seu sono profundo e nojento. Desmerecendo sonhos e o tempo para buscá-los. Morrendo um pouco por dia.
Ela se frustrava. Não sabia por que fazia isso consigo. Era tão inteligente, tanto potencial. Isso podia virar o que ela quisesse: sucesso, dinheiro, o logro de novos conhecimentos e talentos. Só que, pior do que já fazer aquilo consigo era saber que faria de novo. Vivia dias desbotados, sem prazer. Perdia as esperanças com o mundo, com as pessoas. Era pequena, o mundo era grande. Ela não tinha mais um compromisso, uma paixão, uma missão. Não tinha mais um brilho peculiar no olho.
Era o que muitas queriam ser. Tinha o que muitas queriam ter. Mas não sabia mais quem era. Se sentia só, sem mundo, sem si e sem nada. Sem razões, sem objetivos e sem palavra. Sem sentido.
Ela sabia que havia muita coisa boa esperando por ela ainda, mas já não sabia se valeria a pena. Ela lembrava dos seus sonhos doces, mas agora eles lhe pareciam tão pequenos e distantes. Ela não sabia mais o que fazer, como agir, para onde ir e, por isso, morria aos poucos. Ao seu redor, tédio e incompreensão faziam malograr sua expressão da fé que restava. E ninguém sabia, ninguém ligava. Ela era só mais uma na multidão, mesmo não sentindo em si essa verdade...
Ela caiu de jeito, ela está em crise; sua alma a avisa, ela está contra ela... Sem lugar para ir, direção pra voltar, orientação a seguir, porto para aportar...

Ela sabia que faria de novo, mas não sabia como lutar contra isso. Ela não sabia se era só um momento de fraqueza ou se seu mundo voltaria às cores que um dia perdeu. Ela só queria o silêncio, a conexão, a leveza da oração e um lugar bem longe para se achar de novo. E ela sabia que faria de novo, mas resistia... Queria ajudar-se a se sentir bem ou, apenas viva

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