About my Blog

Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Filhos: Decisão Pessoal ou Convenção Social?


A educação de uma criança custa, em média, R$1.000 mensais.
O pediatra custa em média R$230,00 mensais.
Roupas, brinquedos ou passeios implicam em torno de R$370,00 a cada 30 dias.
Para criar um filho até os 23 anos, um casal da classe A não desembolsa menos de 1,84 milhão (Invent).
Um casal da classe D não cria um filho hoje sem investir pelo menos R$78 mil.
Quanto mais tempo um casal leva para ter filhos, maiores suas chances de subir na pirâmide social. (Fonte).

Por que as pessoas têm filhos?
É claro que, na condição de pais ou pretensos futuros pais, a maioria dos que chegaram a se fazer essa pergunta algum dia, justificaram com coisas do tipo:
1-      Para deixar uma parte minha no mundo
2-      Para ser meu herdeiro/ sucessor
3-      Porque meu sonho é ser pai/ mãe
4-      Meu/Minha esposo (a) quer
5-      Meu primogênito quer um irmãozinho
6-      Meus pais querem um neto
7-      Eu estou ficando velho (a)
8-      Quero ensinar tudo o que eu sei
9-      É natural, todo mundo tem
10-  Porque é bonitinho...
Entre outras. Agora, você já viu alguém responder algo do tipo:

Quero deixar um ser humano melhor pro mundo
Ou
Quero educá-lo de forma a ser um exemplo aos outros homens?

Dificilmente. Eu poderia afirmar tranquilamente que nunca, sabe por quê? As pessoas têm filhos por motivos egoístas, sem ter realmente consciência do que implica ter um filho. Sua consciência se estende até seu nível imediato: meu salário; minha família; minhas condições; meu sonho. Mas, ao globo que nos sustenta e já é superpovoado, poucos pensam, além de toda a questão política e humana em si mesma.
Como diz Rosely Sayão no Café Filosófico “Filhos, melhor não tê-los?”, ter filhos faz parte de um sonho de consumo. O bebê bochechudo de olhos azuis que cheira a Johnson & Johnson e todo aquele aspecto iluminado e sorridente das propagandas de televisão. Eu iria mais longe. Não se trata apenas do imaginário que aborda a criança como “fofinha”, e da convenção, que manda ter filhos. Trata-se também da ignorância de muitos aspectos que interferem direta ou indiretamente nesse desejo.
Então, ninguém deveria ter filhos?
Quero lembrar que as pessoas se sentem absolutamente atacadas e ofendidas nas raras vezes que se confrontam com tal questão. E isso se dá porque apenas reagem, sem meditar racionalmente nos argumentos e implicações de trazer um ser humano ao mundo. Ninguém está muito preocupado com o todo e é por esse individualismo cego que a humanidade está caminhando para a beira de um abismo.
Para começar, muitas pessoas não têm suporte psicológico para ser pais. E não é uma questão de idade, pois uma pessoa desequilibrada emocionalmente não vai deixar de sê-la porque teve um filho. Traumas, vivências, recalques e emoções naturais humanas vão continuar ali, resolvidas ou não. A segunda estrutura que falta, em muitos casos, é, evidentemente, a financeira. Filho custa caro. São fraldas, leite, vestuário, alimentação, educação, creches, brinquedos, para dizer o mínimo. E quem mais tem filho em países de subeconomia, como o Brasil, são os pobres. Às vezes, é um atrás do outro. É que aqui, as políticas públicas resistem a falar em controle natal ou educação de forma a conscientizar a médio/longo prazos para que as pessoas tenham a real noção do que ter filho significa. Que ter um filho vai além de fazer e parir. Porque aqui, os governos ainda podem apoiar seu poder com base no assistencialismo, devido à ignorância do povo, além de que pobre é voto. Pobre é bolsa-família, é dar o peixe e manter os interesses de uma minoria. E as empresas multinacionais também são interessadas, afinal necessitarão sempre de mão de obra barata para se manter gerando o máximo de lucros com o mínimo de comprometimento com o ser humano e com o planeta.

Nas classes média e alta, o dinheiro não é problema (mesmo que seja invisível). Mas aí, as pessoas procuram dar “do bom e do melhor” e podem falhar na construção do caráter e na educação, que vai além da frequência a boas escolas. Nem sempre no pacote de mega instituições e prêmios de consumo está incluído o respeito pelos outros seres humanos, inclusive os que estão abaixo deles na escala social. São principezinhos que incendeiam índios nas ruas e morrem de medo de ser assaltados e mortos, pois os filhos da classe baixa – que têm a mesma idade que eles – podem acabar na criminalidade e na violência por causa da desigualdade que uma superpopulação gera. Isso quando não aumentam as mortes no trânsito, pois ganham máquinas potentes antes mesmo de escolher a faculdade. Envoltos em sua criação niilista, o vazio os obriga a buscar refúgio em outras coisas, como as drogas, que fazem os pais se perguntarem: Dei tudo ao meu filho, onde foi que eu errei?
A grande questão é essa: ter filhos é um grande passo, senão o maior que alguém pode dar. Não é sobre a obrigação moral que surge a partir de uma exigência social e amparada legalmente, mas sobre a oportunidade de crescimento e evolução mútuos, que só essa relação proporciona. Logo, minha reflexão não intenciona propor que se proíba, se controle ou se critique, mas que se questione, pois a paternidade responsável só é possível ao se adquirir a consciência de que as obrigações como pai e mãe não se resumem a questões jurídicas e materiais. Hoje em dia, as pessoas relegam suas funções a preceptores. Pai e mãe são apelidos, pois incidem apenas no âmbito legal e financeiro: toda a educação e cuidados estão terceirizados. Quanto aos mais pobres, sequer podem oferecer aparato básico necessário à chegada de uma criança – para eles, viver é sobreviver. São expressões como “onde comem dois, comem três” que fazem com que se perpetue a miséria e a falta de condições dignas de vida. Não fica difícil concluir por que ter filhos pode ser um gesto muito egóico, cultural e instintivo e que nem todos (muito poucos, na verdade) deveriam ter.

Mas, agora, vamos falar do outro lado da moeda: aqueles que optaram ou que aconteceu de não terem filhos. Se estes são casados, passarão a vida ouvindo a pergunta: Para quando é o bebê? Detalhe: desde o primeiro mês de casamento. O que mostra como as relações podem ter evoluído em alguns aspectos, mas em outros sequer engatinharam. Se o casal tenta explicar que não pretende ter filhos, acorrem palpites de todos os lados: pais, sogros, cunhados, amigos. Ninguém que deveria ter a ver, de fato, com a decisão. Preconceituosamente, surgirão nos bastidores os comentários de que o casal tem problemas que não quer revelar. Afinal, o natural é ter filhos, quem foge disso é anormal. Onde já se viu não ter filhos? Jovens, bem-sucedidos! Sim, porque esse casal não será pobre. Pobre sempre tem filho.
Agora, se o casal realmente não pode ter, ele viverá culpa, frustração e tristeza. Porque verdadeiramente não fazia parte dos planos, sempre fora um desejo (provavelmente encaixado em alguma razão entre a 1 e a 10 enumeradas no começo desse texto) e o insucesso pode mesmo levar o casamento às favas. Isso porque ter filhos é uma convenção social e um sinal de normalidade, saúde e também de aceitação pelos pares, expressão de sucesso na vida conjugal. Casamento não pode ser feliz sem filhos, acredita-se. E quem não tem é uma pária na sociedade, principalmente mulheres. Em todas as eras convencionou-se que o papel da mulher é no lar e cuidando dos filhos, enquanto o homem é o provedor desde as cavernas, e embora todas as revoluções industriais, culturais e morais sofridas desde então, embora todos os avanços, em algumas coisas parece que apenas nosso entorno mudou, permanecendo a mentalidade do ser humano a mesma, com poucas evoluções.
Entretanto, por mais contraditório que possa parecer, talvez justamente por ser um ato tão impensado na maioria das vezes, é nesse ato, de ter um filho, que o sujeito vai exercitar-se para aprender a dividir, a pensar no outro e compartilhar. Abrir mão em prol de outra pessoa, ver além de si mesmo podem ser algumas das vantagens inesperadas que ter um filho pode acometer: o risco de tornar seus pais e mães melhores como seres humanos. Minha desesperança parte de que não é sempre o que acontece. Mesmo quando sofrem pelos filhos, por amor a eles, há uma parte dos pais que prende, que se decepciona, que quer as coisas como sonhou, que vê os filhos como propriedade deles. Que acha que filho é um “produto”: quer escolher-lhe a profissão, realizar sonhos através dele, fazê-lo servir seus interesses.
E o que acontece também é que algumas pessoas são avós com 40 anos e mães com 17. E ninguém merece ser vó aos 34 nem pai só porque é jogador de futebol. Ninguém merece nascer nesse mundo porque “eu era o sonho do papai e da mamãe” ou “meus avós queriam netos”. Essa objetificação descamba em pessoas cada vez mais fúteis, inúteis, consumistas, arrogantes. Descamba nessa juventude vazia e individualista que vemos por toda a parte. Contribui, muitas vezes, com uma massa acrítica que troca votos por tijolos por falta de oportunidade. Me desculpem se estou sendo muito dura, mas não sei o que me faz perder mais a fé na humanidade: ver uma criança de 10 anos com um iphone ou uma de doze barriguda. E, antes que me atirem pedras (afinal, aqui ninguém nunca pecou), digo que minha decisão pessoal em relação a filhos é ter apenas se encontrar um cara muito legal, que possua valores, cultura, queira isso e leve o fato de ter uma família muito a sério. Porque filho é feito por duas pessoas. E respeito muito mais o homem que diz “Eu não quero ter” que o homem que sai tendo filho feito um coelho, sem poder deixar herança de espécie alguma. Filho é coisa séria e se não há condições para dar igualdade a todos, para dar aporte moral, cultural, psicológico, não tenha. Simples assim.

Para mim, não é uma questão vital ter filhos. Não vou ser menos mulher se não tê-los, embora vá me confrontar com muita gente que não pensa assim. Acho muito mais importante esclarecer-se, buscar autoconhecimento e independência financeira para poder colocar um filho no mundo podendo oferecer o mínimo, que fazer de outro ser humano um depósito de sonhos, expectativas e frustrações que ele não tem a obrigação de carregar. Acho muito mais importante vestir uma criança de gentileza, respeito pelo próximo e lhe permitir pensar com a própria cabeça que vesti-lo de Dolce & Gabbana Jr., prepotência e preconceitos, o fazendo falsamente crer que é o centro do universo. Porque é isso que muitos pais fazem. Cumulam seus filhos de bens com alguma vã esperança de refletir neles sua juventude perdida, mas esquecem de dar coisas muito mais importantes, como mostrar de onde tudo sai, que tudo tem um preço e que não existe almoço de graça. Mostrar que há 7 bilhões de pessoas no planeta e que todas elas sentem, respiram, precisam comer, aquecer-se e seria bom se pensassem. Que a vida é mais que “estilo”, preferências e vontades atendidas.  


Mas, né... Eu também não espero que muita gente entenda isso.

5 comentários :

Jorge Ampuero disse...

A fin de cuentas lo que importa es el amor, sea que tengas niños o no.

Saludos.

Kelly Phoenix disse...

Estoy de acuerdo con usted.

Adrian disse...

Que prato cheio esse texto... não sou muito bom com as palavras, mas vou me esforçar em ser coerente em expressar meu ponto de vista.

De começo, acho esse assunto de suma importância e sempre me interessei por essa questão, consequentemente. O quadro geral do problema está todo exposto no texto, e concordo. Porém, o que da pano à manga é alguns conceitos...

Políticas públicas assistencialistas, aqui analisada de forma pejorativa não condiz com a real proporção dos fatos em relação a elas, o Bolsa Família, por exemplo, eu diria apenas que é uma faca de dois gumes... mas, o que não é uma faca de dois gumes?

Nunca entendi, também, a lógica desse "assistencialismo", mas até uma certa idade, digamos que uns 17 anos. Faz pouco tempo. Nunca precisei do bolsa família, porém já precisei de auxílios universitários de toda espécie, já me vi de frente a uma parede e com a necessidade arrombando as portas... durou muito pouco e aprendi com muito pouco, que as coisas não são bem assim, afinal não estamos na pele dos que são alvo desse assistencialismo. Existem pessoas para tudo nesse mundo e porque não para usar de forma errada um auxílio desses? Isso seria motivo para o desclassificar? Então, que desclassifiquemos tudo. Porque falo assim? Simplesmente porque essa ideia de que políticas assistencialistas são ruins, não vem de fundamentos sólidos ou experiências, que ao contrário da exceção da nossa realidade brasileira, vem da regra. Esse ano será o segundo ano de eleições em que voto e pela segunda vez anularei meu voto... mas, quem implementa essa ideia pejorativa de certas assistências na mídia e na cabeça das pessoas é a base adversária do governo, com notícias tendenciosas e argumentos falaciosos. Acompanho muito a política, fica fácil enxergar que coisas assim ultrapassam a teoria... mas, também que é quase impossível separar o joio do trigo na política (por isso a anulação dos votos), isso digo, olhando de "longe", da tela do computador, do jornal ou televisor. Na verdade, até de perto uns dos outros temos nossas dúvidas, não é mesmo?

E ainda, quem sou eu para julgar se fulano usa a sua assistência para ter mais filhos ou se embebedar? É fácil pilotar do videogame ou achar que o jogo de futebol foi comprado, de longe dos gramados...

Não tenho o livro em mãos, mas em Os irmãos Karamazov diz-se, mais ou menos, assim pelo stáriets Zózima: mais vale, mil criminosos soltos do que um inocente preso!

Só tendo a COMPREENSÃO do sofrimento humano além do nosso umbigo podemos formular em nossos corações coisa semelhante e nunca julgar políticas assistencialistas, independente de como os necessitados delas usam isso.

Tinha também aquela estorinha dum homem que ia catando as estrelas-do-mar das areias e devolvendo ao seu habitat, mas não lembro como era...
---

Eu ia escrever mais alguma coisa, mas já me estendi demais em um único ponto. O que eu não poderia deixar de mencionar, é que estive aí em Caxias do Sul faz alguns dias (creio que você seja de lá) e tive que esperar por um ônibus da 1h até às 7:30 na rodoviária, quase entrei em contato para conhecer a blogueira daqui hehehe

Pensei que a cidade talvez acentuasse a inclinação já natural nos jovens em estarem motorizados e de achar e ver nisso motivo de status... pois é só subidas e descidas, morros pra lá e pra cá! :o Mas, deve ser uma boa cidade.

Um abraço

Kelly Phoenix disse...

Olá, Adrian! Que bom tê-lo aqui novamente 
Bom, o Bolsa Família... Eu também não sei bem como me posicionar a respeito... Sei que a forma como coloquei no texto soou pejorativa, mas a intenção não era, de forma alguma, “encher a boca” para atacar aquilo que desconheço em todos os aspectos. Sei que essas pessoas que o programa beneficia passaram muito tempo esquecidas e que esse auxílio as ajuda, inclusive, em sua dignidade e autoestima. Concordo com sua exposição e também votei nulo na última eleição; venho tentando acompanhar política e ser o mais politizada ao meu alcance, ainda assim, há muitas “facas de dois gumes” que não nos permitem ver todos os ângulos. E é claro que só mesmo quem tem a experiência para sentir na pele – tudo o mais é suposição. No caso do Bolsa Família, sei, inclusive, que o pagamento geralmente é feito às mulheres, justamente por serem mais preocupadas com a família e também para que se evite que homens sustentem seus vícios (álcool, tabagismo) com o dinheiro do programa. Apenas o que me indigna (e foi o que eu quis expressar) é que, realmente, não parece haver uma busca para prevenir novas crianças, muitas vezes, parece mesmo que não importa... E isso degenera em mais miséria e pobreza, pois eu me recuso a crer que a pessoa teria mais filhos para ganhar um pouco mais de auxílio!
Sou de Caxias, sim. Podia ter entrado em contato comigo, podíamos ter trocado alguma ideia. É uma pena, fica para a próxima vez, então! E, sim, Caxias do Sul inclina os jovens a se motorizarem ainda com mais vontade... Além de subidas e descidas, tem o clima, que muda mais em um dia que muito estado muda em um ano... E as demoras dos ônibus, municipais ou não, que sempre nos fazem perder o humor e a dignidade.
Um abraço

Adrian disse...

Sua indignação é também a minha; existe algo de errado nessa negligência.

Postar um comentário