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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

domingo, 7 de setembro de 2014

Você é o carro que dirige?


Há uma marca famosa de postos de combustíveis que se utiliza do seguinte slogan em suas propagandas:

Apaixonados por carro como todo brasileiro.

Dado o número de veículos nas ruas, que só faz crescer (entre 2001 e 2011 foi registrado um crescimento de 119%, fonte aqui); também graças à expansão do crédito, talvez tal afirmação tenha um fundo de verdade. O automóvel tem conquistado um lugar cativo de status ainda mais forte que antes e, quem não tem, não troca ou não quer ter, é julgado e causa estranhamento. Parece haver um consenso de que, realmente, todo brasileiro é apaixonado por carros. E, para grande parte destes apaixonados, só existe uma explicação para quem não usufrui de transporte privado: não pode ter.
Todavia, existem algumas variáveis que não parecem ser consideradas ao taxar uma pessoa que não tem seu próprio carro:
1)      Aquela pessoa pode morar em uma boa localização e, por isso, dispensa transportes a maior parte do tempo;
2)      Aquela pessoa prefere andar de bicicleta ou a pé e pode se dar a esse luxo, pela razão citada antes;
3)      Aquela pessoa está desenvolvendo educação financeira e não quer pagar dois carros ao invés de um, esperando para comprar apropriadamente à vista;
4)      Aquela pessoa pode ser ativista ambiental com uma forte consciência de causa;
5)      Aquela pessoa simplesmente não sente falta e tem outras prioridades na frente de um carro, pois este incide em altos custos mensais.
Recentemente, assisti a reprise de uma entrevista do ator Mateus Solano onde ele dizia ter tirado carteira de habilitação somente após os 30 anos de idade, e para fazer um personagem. Antes disso, nunca sentira necessidade ou preocupação, pois não era uma coisa que o incomodava. O engraçado era o espanto de quem lhe enviara a pergunta (não sem um tom levemente machista, que quase passa batido) e, mesmo do entrevistador, já que parecia anormal alguém agir desse jeito. Como ele tinha namoradas? No Brasil, essa cultura do carro ainda é muito arraigada e, pessoalmente, não tenho esperanças que um dia deixe de ser. Os dois fatores que poderiam desempenhar uma nova consciência da população ainda estão seriamente comprometidos: o transporte público e a educação com qualidade.
Famílias que possuem um automóvel para cada membro não o fazem por necessidade, e sim, não vão e não querem ser mais conscienciosas acerca dos problemas do tráfego ou da emissão de poluentes. Preferem manter seu individualismo doentio a integrar sua parte de responsabilidade em diversos números que o trânsito apresenta diariamente. E, tão grave quanto as famílias abastadas com acesso às informações, são aquelas pertencentes à base do dispêndio consumidor, onde ter um automóvel é como um passaporte a outra esfera social. Valendo-se de seu signo de pertencimento, adoram ostentar, chegando aos lugares com a chave na mão e um arzinho de superioridade; apertando o botão do alarme com toda a pose que seu possante financiado em 60 vezes os investe.
Se ainda fosse verde...
Outra característica comum no Brasil é presentear o filho ou filha assim que completa 18 anos com um carro. Um vizinho fez isso, mas com seu jeitinho peculiar: mesmo “tendo condições” (aquilo que a classe média se gaba tanto), deu um maravilhoso fusca branco à filha que chegava a essa idade. Esse fato já conta cinco anos e dá pra contar nos dedos as vezes que a moça saiu com o carro, sempre na calada da noite, para evitar testemunhas (mesmo assim, eu vi, Muahahaha!). Já, no ônibus, usava encontrá-la com mais frequência, sem vergonha de ser flagrada.
Carro no Brasil é emponderador. E a maioria gosta de estar associada a alguma espécie de poder, mesmo que ilusório. Carro no Brasil é necessário também, pois nosso transporte público é de péssima qualidade, caro, falho e privado. Por isso, não vou discutir os benefícios de ter um veículo, pois, em muitos casos, tais benefícios são inquestionáveis. O questionável é:
1)      Julgar quem não tem carro – carro é caro, mas nem sempre o motivo para não se ter um é falta de grana. Até porque, se parar pra julgar quem tem, muitas vezes se vai achar muito mais endividados e que gastam o que não poderiam com um carro acima de seu padrão;
2)      Desrespeitar quem prefere andar de bicicleta – Acidentes que envolvem e matam ciclistas, infelizmente, são rotina no Brasil. E a discussão pela implantação de ciclovias nas cidades onde elas não existem é sempre permeada por muita polêmica. Os motoristas não gostam de abrir mão do seu espaço e não veem razões para ciclistas reivindicarem seus direitos. Uma consequência do desrespeito a quem prefere andar de bicicleta são os atropelamentos: em São Paulo, por exemplo, morre um ciclista por semana (fontes aqui e aqui). Lembrando que respeito não é tolerância. É mais do que obedecer à lei, e sim, compreender as razões e ter consideração pela escolha do outro.
3)      Julgar quem não troca de carro – Se, dada a utilidade como meio de transporte, um carro mais velho em boas condições cumpre a mesma função de um zero quilômetro, por qual razão se vai trocar de carro?

O que levanto nesse texto não é a questão da necessidade do carro, mas a vaidade de que se precisa carro novo, grande, trocado a cada ano, e o julgamento que se estende àqueles que, por alguma razão, não possuem automóvel. Ou, de que cada membro da família precise ter seu próprio carro, mesmo quando esquemas de caronas e revezamentos são possíveis. Ou, o ajuizamento míope e pretensioso que se faz a partir do carro que a pessoa tem ou deixa de ter. Ou, até que ponto o carro representa quem o dirige.
Não há resposta e reflexão sem se apropriar da pergunta. Dentre todos os questionamentos válidos que essa breve exposição buscou, a que mais precisa de um olhar ainda é:

ATÉ ONDE SOU A EXTENSÃO DO MEU CARRO?


Porque não se olha. Não se reflete. Não se apropria. Apenas, segue-se o gado e o resultado a gente vê todo dia. Pessoas que pensam que são o carro que dirigem. E agem de modo tal a fazer os outros acreditarem nisso.

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