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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

sábado, 8 de novembro de 2014

Morar sozinho promove autoconhecimento


Morar só é uma forma perfeita de se autoconhecer. Perceber os próprios horários, os próprios ritmos. Se prefere o barulho ou o silêncio. Gerenciar os próprios gastos, gostos. Se tende mais para bagunceiro ou organizado. Estudar as próprias manias, cozinhar mais que macarrão instantâneo, cuidar das próprias coisas... E, realmente, não ter ninguém para pôr a culpa é um exercício de amadurecimento muito grande!
Eu já disse aqui antes que acho que todos deveriam ter a experiência de morar sozinhos por pelo menos 1 ou 2 anos. Em tempos de Geração Canguru, a maioria só sai da casa dos pais com a vida feita, para o casamento ou estudos que exijam distanciamento – mas, nesses dois casos; no primeiro, já passam a viver com outra pessoa; no segundo, continuam dependentes economicamente.
Mesmo defendendo que todos deveriam experimentar, entendo também que isso não é para qualquer um. Planejar, ter certa disciplina, sustentar-se, viver-se. Muitos não ficam bem relegados à própria companhia.
Quando eu fui pesquisar sobre morar sozinha, tempos atrás, me deparei com coisas muito bizarras. Como textos com a frase “Bati o pé e fui morar sozinha”; sites sobre o assunto que carregavam tanto no merchan que, com certeza, as leitoras pagavam o aluguel da dona do site; pessoas que não sabiam que o lixo não se tirava sozinho (conte-me mais quão inútil você é...) e outras (ou as mesmas) que buscavam ter seu próprio canto para, ilusoriamente, promover festinhas 24 horas e buscar uma suposta “liberdade” dos velhos (que os continuariam bancando). Acho a maioria dessas expressões muito ridícula, pois legitima essa cultura brasileira de uma geração que se acha genial e pensa que merece tudo. São terneirões que mamam nas tetas dos pais enquanto conseguem e só pensam em sair de casa se isso significar alguma espécie de vantagem.
Eu não achei nenhum material que enlevasse o autoconhecimento. O mais próximo disso, dizia respeito a quanto ficamos exigentes com as companhias; como era bom não ter de bater na porta do banheiro; como a solitude pode ser requisitada (mesmo assim, usavam a palavra solidão, não solitude). Acredito que existem várias razões para ter a vontade de morar sozinho, mas para realizá-la não é preciso encontrar razões. A partir de certa idade, em certas situações, passa mesmo a ser uma necessidade, um exercício de autorrespeito, uma condição que não prescinde. É praticar o amor próprio, é desvincular-se de quem lhe vampiriza, é priorizar a qualidade do tempo e do espaço ao invés do dinheiro que se poupa com a ausência dela (no caso de quem não sai de casa pela questão das despesas). Percebo que ter a coragem (pois, sim, muitas vezes é preciso coragem) para romper com o estabelecido e se lhe impor uma nova maneira de atuar no mundo é buscar amadurecer, além de já ser, por si, bastante amadurecedor! Cair, levantar, aprender com os erros, permitir-se errar, deixar de ser amparado. Os pais de hoje pensam que estão protegendo os filhos, ao lhes oportunizarem tudo o que “não tiveram”;  resguardam-nos dos “perigos” do mundo, mas não compreendem que eles mesmos estão a lhes fazer um mal, uma vez que a vida não passa a mão na cabeça de ninguém. É preciso educar para a autonomia, deixar se ralar um pouco – tanta superproteção está nos dando uma geração de adultos mimados, que pensam que tudo pode ser do jeito deles. Corpos grandes e mentes pequenas. Não se esforçam por nada, não cativam nada; tudo é angariado com o bolso do pai e o colo da mãe.  
Se é para sair de casa e continuar sendo sustentado pelos pais, é melhor não sair. Administrar e trabalhar pelo próprio dinheiro também faz parte de “ser gente grande”. Ser dono do próprio espaço também implica responsabilidade, atitude, e não um sonoro “bati o pé e resolvi sair”. Se a novinha bateu o pé e os pais permitiram, vai continuar a ser uma inútil, aquela criança de 5 anos para quem a negativa no supermercado significa apenas o esforço do escândalo. Um disfarce. E, não, desculpa. Morar sozinho exige bem mais que isso. VIVER exige bem mais que isso! Não é de quem pensa que a louça se lava sozinha e que ter um apê significa surubas ardentes que o mundo está precisando. Mas, tem alguma coisa errada, porque é dessas pessoas que ele tem se alimentado.
Por fim, morar só vai ainda além do autoconhecimento. É um teste às capacidades, é uma prova de que se é idôneo para assumir a si mesmo. Tanto nas coisas mais básicas do dia-a-dia como nas mais complexas, imprevisíveis. Abastecer o próprio carro e comprar a própria comida, ver de onde sai. Não ficar emburrado ao encontrar opiniões como essas, ler o texto até o final. Porque bater o pé e sair de casa é fácil. Quero ver não ter diarista, mesada e receber as contas; quero ver ser apenas um adulto, isso que está meio em extinção, mesmo na maquiagem da falsa maturidade.

 E é claro que dá pra dançar sozinha, promover jantinhas, receber o gato ou ficar desesperado, sem grana. Claro que dá pra chamar os amigos, beber cerveja, jogar vídeo game e ficar deitado até tarde. Mas, melhor que isso é perceber-se competente, realizador. Melhor que isso é perceber-se capaz, passar a ser útil (para os pais, a sociedade e para si mesmo). Porque trocar a lâmpada e desentupir o banheiro (seja como isso for...) também agregam caráter. Mexer com a merda nos torna pessoas melhores. E o autoconhecimento e a autoeducação são o mais perto que podemos chegar de progredir um pouquinho. 

2 comentários :

Érica Leite Saez disse...

Adorei o texto!!!

Babie disse...

Perfeito! Tenho vivido essa experiência e afirmo que a adaptação muitas vezes dói, mas é gratificante ver-se amadurecer absorver os frutos dessa transformação.

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