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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Destralhar


Um dos melhores convites da vida é a renovação. Coisas novas, novos lugares, fatos, situações, pessoas. Mas, nem sempre o novo encontra caminho livre até nós. Muitas vezes, antes, é preciso destralhar.
Destralhar: não tem no dicionário. É desfazer-se das tralhas, sejam elas físicas ou emocionais. É uma entrega e uma busca; é preciso dar novo destino às coisas velhas acumuladas no porão de nossas vidas. Velhos objetos, eletrônicos estragados, lençóis rasgados, meias esgarçadas. E é muito fácil verificar quem tem dificuldade de se abrir ao inesperado: armários abarrotados, gavetas cheias de papeis, objetos quebrados, espaços preenchidos com coisas inúteis. Cômodos acumulados: quase sempre sinônimo de vida magoada, presa ao passado.
Além de desconhecer a regrinha básica de que o novo precisa de espaço, resta também o apego. Apego a roupas ou ao que elas lembram; antigos brinquedos; cartas de pessoas que já rumaram por outros caminhos; coisas que não se usa mais. Muitas vezes, guardar tudo pode ser um medo inconsciente de que algo falte. Ou trabalhos passados na infância: passou frio, agora tem 40 casacos; andou descalço, agora compra 5 pares de sapato por mês; passou fome, agora acumula alimentos que chegam a estragar. Busca-se preencher um vazio interior com as coisas do lado de fora. Os acumuladores são a prova de um problema psicológico que se desenvolve de forma silenciosa e cujo doente está tão arraigado em suas insuficiências que não consegue ver que precisa de ajuda. Vai refletindo fisicamente sua confusão mental ou carência sentimental.
Tudo em nossas vidas pode ter seu espaço? Sim, porém este não é, necessariamente, físico. Não precisa ser um espaço “real”. É essencial, de tempos em tempos, que haja um destralhamento – e isso inclui aquele famoso “faxinão” que, vez ou outra, todos nos entregamos. Só que essa faxina tem de ser constante. O ideal é que nada se acumule. Jogar fora o que não serve mais alivia a mente, o espírito, torna claro. No caso de objetos, doar também é uma solução viável – sempre tem alguém precisando o que não nos serve mais. O importante é se desfazer. Porões, sótãos, teias de aranha. Roupeiros, cômodas, coleções, velhos trabalhos escolares, revistas. Até arquivos no computador! É como diz aquele velho ditado: “O que não é visto, não é lembrado”. Coisas inúteis ficam guardadas somente para acumular poeira. E trancar espaço.
Se você tem dificuldade em se desfazer de tudo, faça uma seleção inicial e coloque os objetos de apego em “quarentena”. Observe se sentirá falta deles ou os usará nesse período. Ao fim do tempo, resgate ou se livre sem dó. Sua vida e alguém que realmente vai usá-los, agradecem.
As coisas em nossa vida têm data de validade. Não se trata de fazer apologia à fluidez ou à descartabilidade. Mas, você é uma centopeia para ter 300 pares de sapato? Duas mil cores de sombras, roupas de 1930, discos que nunca ouviu, revistas que assinava em 89? O que é necessário, sim, deve ser adquirido para durar. Todavia, minimalizar a vida e não deixar os alimentos vencerem na geladeira é um pouquinho diferente.


Aquilo que não serve mais precisa seguir outro rumo. São dezenas de fases, momentos e reinvenções pessoais no período de uma vida. São milhares de eus à espera de expressão. E nós precisamos nos abrir ao novo, sem medos e apegos. Abençoar o que tem de ir embora e largar, para aguardar o novo. E agraciar as novas experiências, presentes e pessoas que cheguem. Pois, destralhar é uma arte. E reconhecer a hora de deixar ir ou receptar o que vem, é também. 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Hoje acordei em Londres


Manhã fria, cinzenta. Pude ver os paralelepípedos molhados pelo sereno, da minha janela. Um pijama de flanela xadrez mostrou uma preguiçosa sexy. Estou em Londres.
Londres. Meu sonho de 15 anos. A viagem mais querida. Lembro a estranha ternura que me desperta desde que a entendo como... Londres. Com seu orvalho, sua neblina. Ainda não voltei a pisar meus pés em seus paralelepípedos úmidos, mas tenho certeza que não morrerei sem isso. Porque eu já vivi ali. E esse estranho sentimento que volta e meia me sequestra é uma espécie de saudade...
Eu nunca quis fazer intercâmbio. Lembro-me de ter feito uma autopressão nesse sentido alguns anos atrás, visto a facilidade para realizá-lo e a vontade de viver algo novo. Mas nunca foi um desejo da alma. Quando penso em sair daqui para terras distantes, esse desejo sempre vem com o charme turístico, e não com as experiências extras de lavar louça em lanchonetes ou banheiros em pubs. E já ouvi dezenas de relatos. As pessoas passam um, dois anos fora e voltam como majestade, mas comeram o pão que o diabo amassou. Eu não acho que precise disso; já rebolei o suficiente por aqui mesmo, lutando pelo meu caminho. Também nunca dependi dos meus pais para essas realizações maiores, por isso, imbuída do senso de minhas próprias buscas, sei que logo, quando for a Londres – mas também a Paris, San Francisco, NY, Barcelona – eu vou de salto alto.


Quando entrei no Mestrado Acadêmico, sabia que precisava proficiência em inglês e me planejei. Me permiti três tentativas para fazer a prova e passar, caso contrário, carimbaria o passaporte para um curso preparatório pelas esquinas de minha sonhada Londres. Peguei orçamentos, emiti documentos, garanti reservas. Mas aconteceu que passei de primeira, com 100% na prova. Acabei me frustrando, pois não tinha mais uma desculpa para deixar a minha covardia...
De uma coisa, porém, estou certa: quando a gente deseja mais, quer mais, a realização é muito mais prazerosa. Por isso, parei de me afobar com meu desejo latino de amanhecer preguiçosa e sexy em Londres. Talvez, a um tempo, eu faça isso tantas manhãs, que sinta saudade é dos dias cinzas serranos que tenho experimentado por agora...

Afinal... Hoje acordei em Londres. 

domingo, 18 de maio de 2014

Alma alimentada e quentinha


Assistir um documentário ou uma boa estória em filme. Ler um clássico ou conteúdo rico, ouvir bossa nova, dedicar o tempo ao aprendizado de outra língua ou de um instrumento musical. É incrível o prazer que atividades tão singelas proporcionam à satisfação íntima. E, por isso também, não é fácil entender o tempo perdido e o suposto prazer que atualmente se encontra em contemplar a fealdade. Violência gratuita nas notícias, “músicas” com letras de baixo calão, sons que ferem a audição, incentivo à sexualidade animalesca.
Não é pessimismo sócio-filosófico de quem só vê que a moralidade está ruindo e ou se transformando a todo o momento, mas antes, o questionamento de quem se intriga com tais observações. Partilhando das percepções platonistas, creio que só aprecia o feio quem não teve a oportunidade de conhecer o belo. E, embora, nesse nosso tempo, tudo seja tão subjetivo, tão pluri, tão multi – há consensos sobre os quais não se pode fugir e, um desses, é sobre o que eleva a alma e sobre o que a rebaixa.
Muitos seguem sem distinguir a quentura que dá na alma de quem partilha uma leitura gostosa, aprecia boa música, peças de teatro ou ópera, mergulha em sentimentos e tempos não-seus. O aconchego interior que experimenta aquele que se aventura em tramas e enredos históricos, os quais jamais teria acesso não fosse a cultura de algo belo. Seja através de obras de arte; de viagens a lugares que falam por si; diante do êxtase de uma paisagem; um passeio silencioso por jardins ou do cantinho com poltrona fofinha e colcha patchwork em uma tarde cinza de outono.

A alma sempre ficará alimentada e quentinha diante daquilo que a enleva. O que traz vazio, incerteza ou um prazer efêmero, superficial, não corresponde àquilo que ela procura – que preenche e mantém o espírito com postura digna, ávido por maiores conhecimentos e experiências de igual teor. Só o que elucida, causa serenidade, reflexão e até nostalgia pode aquecer um pouco o frio de nossa alma. Só o que nos esclarece, humaniza, amadurece e traz verdade pode derreter o gelo da indiferença pelo outro e, ainda, por nós mesmos. Se sente euforia e acanhadas felicidades ao desfrute de fortunas e bens tão pobres, como avalias te sentires diante dos verdadeiros tesouros?

domingo, 4 de maio de 2014

Fé, humildade, simplicidade – Ayrton Senna do Brasil


Fé, humildade, simplicidade. O legado de Senna para a humanidade foi muito além do mito do esporte. Como explicar tamanha modéstia em cada ação, em cada palavra? Olhando para ele em vídeos antigos, há uma pureza tão grande em seu ser que creio que não sou a única a notar. Algo maior e mais poderoso em seu semblante transparece. Um olhar perspicaz de quem representa mais do que está mostrando.
Seus olhos. Havia neles uma beleza, uma verdade, uma candura decidida. Senna tinha muita maturidade e preparo espiritual para lidar com tudo o que veio para ele. Algo profundo e perturbador.
Eu tinha oito anos, mas lembro bem. Foi minha primeira experiência de luto, um sentimento que não sabia o que significava. Lembro-me de ter ficado triste e chorado. O que era a morte? Não sabia. O que sabia é que perdíamos Ayrton. Talvez meu espírito intuísse que se perdia um ser humano grandioso. Gigante.
Senna foi e ainda é nosso gigante invencível. E o herói saído das histórias mitológicas não partiu de uma construção midiática ou de uma lavagem cerebral coletiva, mas de um homem comum, ao mesmo tempo, tão incomum. Sabia-se só de olhar para ele que havia um homem antes do piloto.
De tudo isso, ficou uma coisa que 20 anos não bastaram para apagar e que Prost sabia. Ayrton Senna era o melhor e sempre será. A Fórmula 1 mudou por ele e nunca mais foi a mesma, por causa dele. Aos demais – não importa quantos títulos tenham – resta aceitar. E a sua fé, tão candente, tão sublime, o acompanhou até no último dia de sua vida quando, pela manhã, pediu para Deus conversar com ele. Afinal, quem de nós pode saber se essa não é a última manhã de nossas vidas? A última vez que acordamos, o último dia comum?
Não foi seu capacete que entrou pra história. Não foi seu tri campeonato ou sua rivalidade com Prost. Foi a compenetração de sua alma. Sua paixão pelo que fazia, sua determinação pela vitória, sua simplicidade mesmo dispondo de tudo o que o dinheiro pode comprar, seu orgulho pelo Brasil.
Mesmo sua morte precoce (para nós) vem provar a sentença rousseauniana de que mais vale viver dezoito anos bem vividos que se chegar a longínqua idade sem ter sabido viver.

Ayrton Senna foi muito mais e talvez se só nos espelhássemos naquelas três palavrinhas – FÉ, HUMILDADE, SIMPLICIDADE – seríamos pessoas muito melhores. E o mito de Senna não estaria perdido.