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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

domingo, 13 de julho de 2014

Meu luto tardio por Avril Lavigne


São cinco e meia da manhã e uma história não me deixa dormir. Avril está morta. Como nunca percebi antes?
Eu lembro bem daqueles dias. Talvez por ter quase a idade dela. Era um tempo de cantar rebeldias. E não há muito a ser dito sobre isso. As produtoras de entretenimento sabem bem que fãs são suscetíveis, influenciáveis, fanáticos. Aliás, a palavra fã vem de fanático. Há uma pequena parcela de pessoas, todavia, que sabe ser e se identificar no trabalho de outras e que simplesmente vê a expressão da sua alma ali. Esses não são fãs, e sim, apreciadores, e podem distinguir com frieza e racionalidade, uma vez que a paixão não os cega. Acho que quem aprecia o trabalho artístico de alguém já tem, ele também, uma certa predisposição artística. Pois, esse tipo de admiração vai mais na essência que na aparência. Difícil explicar.
Eu não posso esconder minhas lágrimas tardias. Eu demorei quase dez anos para ler sobre isso, mas me convenci já às primeiras impressões. Tudo é óbvio demais! Tão óbvio que é por isso que se torna mais fácil acreditar em mudanças: de estilo, de “personalidade”, de voz... Desculpas para isso não faltam. Mas, tem uma coisa que esqueceram de notar: a verdadeira Avril Lavigne era uma artista nata. Quando cheguei ao site “Avril está morta”, li atentamente e com distância. Afinal, há muitos anos abandonei a Avril que eu cantava loucamente nos idos dos anos 2000. Fui me rendendo às evidências. Se você pegar qualquer live tour anterior a 2004, vai ver que aquela menina era diferente. Não só fisicamente, o que também é gritante. Estou falando de VALORES. Vendo entrevistas antigas, pegando o que ela dizia, há valores ali. Isso é meio arraigado na gente. Outra: postura de palco. A forma como se porta em um show, com as pessoas. Se há um momento para se deslumbrar com a fama, ele acontece no início da carreira, não depois. E tem mais uma também, que pra mim é a mais marcante: assistindo shows e clipes antigos da Avril, você vê nela aquela característica que tirou de nós muitos dos bons antes dela: talento. Aquele talento raro, profundo. Aquela lucidez sobre o mundo que chega a doer. Ela era consciente demais, e deprimida. Há até alguns estudos sobre a relação entre melancolia e criatividade[1]. Isso não se forja, é nato. Lendo a biografia da Avril, é perceptível que não fecha com a postura “da outra”. Todos os principais prêmios da carreira vieram com o álbum Let Go!, muito sabiamente, já que é o único original, de fato. Ela puxava mais para Greenday, Blink 182. Quem vem dessas influências, não muda assim. É tipo a Annita (sei lá como escreve isso) passar a cantar MPB de repente: não dá! Avril lembrava muito Kurt Cobain, com aquela sensibilidade impregnada e a forma de cantar e representar sua arte. É por isso que eu senti em meu espírito que a verdadeira Avril Lavigne está morta e isso doeu tanto... Sequer pudemos enterrá-la, tivemos de acreditar que ela havia estupidamente mudado e simplesmente abandoná-la a essa infâmia – pois quem seguiu acompanhando não era apreciador, mas fã. E eu vou contar um segredo: artistas de verdade desprezam fãs. Fãs são para pseudocelebridades. Aqueles caras que tinham algo a dizer ao mundo não lidam bem com isso de ter um monte de gente babando ovo. Eles são tão eles mesmos que veem a loucura que é, toda essa gente descerebrada. A responsa é muito grande. Você, um ser humano frágil, pequenino, incapaz de lidar com as próprias imperfeições, ter de ser referência a um monte de gente. A pressão é forte. A maioria sucumbe. E, mesmo alguns desses celebróides, arcam e quebram, exemplos não faltam.
Agora, voltando à Avril. Não vou tentar convencer ninguém, porque o papel desse blog não é esse. Acredito que, como no caso dela, existam muitas coisas nesse mundo sobre as quais fazem questão de nos omitir. Não acredito em Iluminatti, mas também não tenho nenhum know-how pra falar sobre isso. Mas, acredito em evidências e uma das coisas que cada vez recebe mais suporte na minha vida, especialmente com uma forcinha da filosofia, é a dúvida, que marca candentemente cada coisa que eu ouço, vejo, leio ou penso. E não é difícil observar que há interesses em tudo nessa vida e as decisões são tomadas visando manter determinada ordem estabelecida. Obviamente, dinheiro, poder e entretenimento – o ópio do povo – estão como prioridades nessa escala, mas há muito mais, e nós nunca saberemos.
As pessoas gostam de chamar essas coisas de “Teorias da Conspiração”. Em suas cabecinhas mega espertas [sic!], alguns desocupados se encarregariam de juntar peças de um quebra-cabeças imaginário (mas, que, na verdade, é tão evidente que chega a dar medo!) apenas para exercitar a criatividade. Eles, os espertos, riem enquanto comentam quanta bobagem está sendo dita por esses “conspirólogos”; e, no rádio toca A Day in the life, dos Beatles, com metáforas escancaradas, como se alguém quisesse gritar a verdade. E quem “conspira” que é trouxa.
Faz um bom tempo que não temos artistas de fato. Acho mesmo que na última década não houve nenhum grande surgimento daquela arte que faz pensar – seja som underground, cinema alternativo e figuras midiáticas com fortes posições políticas e ou sociais. Isso me leva a crer que esse tipo de arte vem sendo boicotado. Você pode ler mais em meu artigo acadêmico publicado pela PUC/RS sobre a Indústria Cultural e a menoridade do povo clicando aqui.
Copa do Mundo é outro exemplo. Sempre tive orgulho de dizer que sou apaixonada por futebol de quatro em quatro anos, mas faz muito tempo que tenho sérias desconfianças de que o business futebolístico dá muito mais pano pra manga que o talento de nossos craques. Que interesses teriam grandes marcas (patrocinadoras) em que a Colômbia ou Costa Rica fossem campeãs, por exemplo? Pelo menos nesse momento, isso não é prioridade. A própria FIFA World Cup é uma MARCA, com interesses a zelar. Não se engane com o caráter público da coisa – tudo ali é regido pelos interesses de alguém. Como as coisas são feitas é que nem imaginamos (e talvez seja melhor assim).
Uma coisa que nunca me convenceu foi que Paul Walker morreu. Caroço no angu. E tem tanta coisa nesse mundo que “não fecha” que se a gente for parar pra pensar, enlouquece. Ser lúcido é louco demais! Acho que, às vezes (só às vezes), eu preferia não saber de nada. Como dizia o River: “seria muito mais fácil”.
Mas, sim, Avril está morta. E doeu aqui constatar essa verdade. Porque ela era uma grande artista. Estava no patamar de Janis Joplin (ouçam aquela voz...!), de Cobain, Amy Winehouse, entre outros grandes, de outros tempos. Dá pra ver claramente que são duas meninas diferentes (olha aquela covinha no queixo... Meu irmão, retratista, notou ainda formato de ombros, braços, quadris e crânio); e eu lembro que, à época da decepção pensei “Como se perde assim a identidade? Isso não me representa”, mas foi muito do dia pra noite essa mudança. O que me deixa mais infeliz em tudo isso é que seguiremos sendo enganados. Que nossos ídolos são de barro e nossos heróis, de fato, morreram de overdose. É que esse mundo é pesado demais para eles. É que é muito difícil pertencer aqui. As coisas erradas, mentiras e enganos continuarão existindo e todos, sempre, resistirão à verdade, mesmo que esta sambe na cara deles. Com toda essa ideologia de liberdade de expressão e democracia, que é vendida atualmente, é muito mais fácil acreditar que se é o sabidão e continuar sendo ludibriado. E é exatamente nisso que eles querem que você acredite. E eu, e todos nós. Talvez seja só mais uma estratégia.
Por fim, há uma última coisa a ser dita: tem alguns cordeiros por aí, em meio aos lobos. E eles se reconhecem. Sentem igual, pensam parecido, veem coisas que ninguém mais vê. A esses, a realidade será sempre um pouco mais dura, tanto quanto malvada. A esses, o sal das lágrimas será sempre mais amargo, porque transparente. E dói... Mas, a função é exatamente correr o risco de ser devorado, porque a missão é nobre.

À verdadeira Avril Ramona, meu luto, minha saudade e meu respeito. Esteja em paz.    





[1] A especulação em torno da existência de uma relação entre criatividade e estados depressivos remonta a Aristóteles, que em Problemata (livro 30, 953a) indaga: “Por que é que todos aqueles que se tornaram eminentes em filosofia ou política ou poesia ou nas artes são claramente de um temperamento melancólico, e alguns deles em tamanho grau a ponto de serem afetados por doenças causadas pela bílis negra, como se diz ter sucedido a Hércules entre os heróis? (O homem de gênio e a melancolia, p. 81). Os gregos acreditavam que a bílis negra era responsável pelos humores depressivos (daí a etimologia de melancolia: grego melas: preto + khole: bílis). Ver também o verbete “criatividade” do Oxford companion to mind, que dá como exemplo a depressão vivida pelo poeta alemão Rainer Maria Rilke em meio à composição de Elegias do Diúno. Após quase uma década de interrupção da obra, o poeta subitamente se recuperou e escreveu cerca de 1200 versos extremamente polidos e densos em dezoito dias de trabalho: “A prolongada depressão de Rilke pode ter sido necessária para o extraordinário surto de trabalho não apenas criativo, mas altamente disciplinado, que se seguiu a ela” (p. 171).  

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Por um mundo onde não ceifem sonhos



Uma vez, ainda na infância, li uma frase em rodapé de agenda a qual nunca me esqueci: O homem mais pobre não é o homem sem dinheiro. É o homem sem sonhos.
E hoje, acabou o sonho de um menino defender a camisa de seu país dentro dele e levantar uma taça. Não importa quanto dinheiro, prestígio e vantagens Neymar tenha: acabou para ele. Virão outras Copas, mas não aqui, não com 22 anos; além disso, o futuro é incerto.
Estou escrevendo esse texto porque, como quase todo brasileiro, me comovi com o acontecido. Mas, parte dessa tristeza, é pelo sonho do Neymar. Só quem tem sonhos, devaneia, luta, busca, sabe a delícia que é conquistá-los. Só quem arregaça as mangas, sonha, brilha o olho, sonha, vai com tudo, sonha, pode entender o que é isso: UM SONHO. Sonhos não são desejos. Não tem a ver com poder pagar. Vão além da necessidade, da vontade. São da alma. E, nesse nosso mundo mecânico, parece cada vez mais normal abandoná-los, deixá-los pelo caminho. Isso quando se os tem, pois em um mundo volátil, onde é possível atender vontades abundantemente, parece meio limitada, cada vez mais, a capacidade de sonhar. A maioria das vontades vêm e se realiza sem que chegue a se cristalizar na alma.
O sonho de Neymar era o mesmo do menino James, mas houve uma diferença: o sonho de Neymar foi ceifado. São a inveja, o despeito, a raiva, e outros sentimentos desse naipe, que podem motivar um ceifador de sonhos (e aqui não falo só do Zuñiga). Entretanto, há sobre eles pelo menos um triunfo: o próprio sonho. Pois, só pode destruir o sonho dos outros quem nunca teve um.

#ForçaNeymar. Outros sonhos virão. “Já que pra ser homem tem que ter a grandeza de um menino”.