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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Dolorosa Constatação


Nunca tinha assistido ao filme 12 anos de escravidão, mas naquela manhã acordou com uma triste constatação: era escrava também, já há uns 12 anos. Aquela manhã fora a primeira em que sentira fortemente as algemas, que se disfarçaram por anos e anos de múltiplas formas. Constatou que aqueles 12 anos não voltavam, que não recuperaria aquele tempo novamente. Não só o tempo, mas o que fora ou o que esperara ser. Parou pra pensar que – tão óbvio! – o relógio só andava para frente. Mas, aquele ponteiro comprido nunca lhe acertou tão em cheio na cara! Estava brincando de pular segundos. Estava desprezando que era real.
De nada adiantavam suas lágrimas desacoroçoadas – ela precisava só agir, e rápido... Tentar recuperar um pouquinho de si e de sua dignidade. Pois cada dia a mais a afastava do que poderia ter sido e a aproximava de seu destino infeliz.

A amargura era o seu algoz. Os anos passaram transformando as decepções em rugas e os sonhos não realizados em amargor. Sem pensar na infelicidade que irradiava e provocava, arrastava os que conseguia sem dó nem piedade, pois a vida também não os tivera com ela. Viver era tecer críticas, reclamações, ter infortúnios. Uma aura negativa pairava em torno de si, já incrustada pelos anos de vício no mau humor e na falta de alegria.

E fazia parte disso a dolorosa constatação. A convivência passiva com aquele ser estava conduzindo aquele outro, pouco a pouco, ao mesmo buraco. Transformando-lhe diariamente no que mais odiava, tirando dela o pouco que ainda restava de fé em si mesma. Ou, em alguma coisa. Destruindo seus sonhos, fazendo-a sentir-se feia, monstruosa. Levando com os anos o melhor que poderia ter vindo dela: suas obras, seus livros, suas ideias, seu trabalho, seu amor. Mostrando-lhe diariamente um cotidiano cinza, mas onde estava algemada e sentia que nada podia fazer.
Seu corpo resistia, mas, aquela convivência forçada fizera dela uma velha. Seu sangue sugado a estava tragando. Tinha, às vezes, um entusiasmo implacável, mas durava apenas o suficiente a reanimá-la e jogá-la de novo naquele mundo infeliz.
Poucas vezes pedira ajuda, como os suicidas de que ouvira falar. Sofria calada e chorava sozinha, lembrando todas as imagens de pés suspensos que vira em filmes e quadros. Porém, morrer não era nada diante da dor que a assolava todo dia, já ao acordar, e perceber que tudo se repetiria naquele ambiente imundo e fétido, onde pouco ou nada se decidia.
Isso também a fizera como estava: velha, amarga, antissocial, misantropa. Porém, ciente da injustiça das vantagens de nascimento, da sociedade e do mundo e de como perdemos parte da nossa juventude e ideologia tentando lutar contra isso – por mais privilegiada que nossa mente seja. ■  

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