About my Blog

Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

domingo, 8 de março de 2015

Adultos Mimados



A garota se apresenta para submeter documentação a uma bolsa de estudos, à qual fora pré-selecionada. Ela deseja um curso, mas fora escolhida para outro. Quer saber se poderá trocar o curso, para realizar aquele de sua escolha. A resposta é que, talvez, futuramente, possa fazê-lo. Mas, ela não quer um “talvez, futuramente”. Ela quer certeza, AGORA!
- Vou ligar pro pai – diz para a mãe.
- Ele está trabalhando – responde a genitora.
- Não importa. É só eu encher um pouco o saco que ele vem.
Uma hora depois, ela está de volta. Com o pai a seu lado.

O jeito deles é o certo. Sempre têm razão, sempre têm resposta para tudo (às vezes, nomeiam de argumento). Não gostam de ser contrariados; “batem boca” com qualquer pessoa se acreditam na própria causa (e sempre acreditam!); têm absoluta certeza que estão certos e os outros, errados. E como é difícil lidar com essas pessoas! Pois, por mais que tenham 20, 25, 35 anos, elas mantêm em suas personalidades e em sua forma de encarar o mundo aquele narcisismo dos desejos atendidos, típico da primeira infância. Parecem achar que todos existem para servi-las e quem reage a isso pode ser combatido com sua “enxurrada de argumentos”, ou seus xingamentos de “egoísta”, ou quando eles ficam “emburradinhos”. Aos poucos, eles se tornam mestres em chantagens emocionais. Foi assim que foram levando os pais por anos... Até estes perceberem (se perceberam) que sua cria já não era mais nenhuma criança. E já era tarde demais.
É fácil reconhecer os adultos mimados. Veja:
- Sempre acham alguém ou algo para pôr a culpa – são incapazes de assumir seus erros;
- Permanecem imersos em uma rotina adolescente (festas, relacionamentos sem compromisso, recusa em assumir a responsabilidade pelo próprio sustento e pela própria vida);
- Têm dificuldade em respeitar aquilo que não faz parte de seu próprio sistema de crenças e experiências;
- Tomam, sozinhas, decisões que deveriam ser tomadas em conjunto. Costumam acreditar que têm espírito de liderança;
- Reagem de forma emocional – são altamente reativos;
- Além de reativos, são irascíveis, teimosos, orgulhosos, emocionais;
- Têm dificuldade em se colocar no lugar das outras pessoas;
- Não toleram frustrações de qualquer ordem;
- Quando precisam encarar as frustrações naturais da vida, têm o comportamento típico de uma criança a quem negaram uma vontade;
- Ouvir NÃO lhes é muito penoso;
- Buscam inverter o objeto de discussão. Por exemplo: se for apontado por algo, ele vai virar o jogo contra quem lhe apontou;
- Em uma discussão, também, sempre trará fatos antigos e esquecidos, desnecessários;
- São aquelas pessoas que viram a cara, param de conversar, fazem um drama, por causa de um desentendimento.

Seu comportamento afasta, pois ninguém está disposto a permanecer muito tempo ao lado de alguém que tem dificuldade em ver o lado dos outros; em ouvir com atenção antes de ir preparando uma resposta; em ser humilde para assumir que a ideia do outro é melhor ou mais apropriada. Coisas como ponderar mais antes de reagir; colocar-se no lugar do outro; assumir que a forma como se sente é fruto de si mesmo, não do que o outro fez (ou não fez)... Ter menos ego, mais espírito de grupo, mais sensibilidade acerca dos que estão à sua volta... Perceber que o mundo não gira em torno do próprio umbigo...
Aliás, mudar e assumir uma postura verdadeiramente adulta diante de qualquer acontecimento é sempre difícil a essas pessoas. Enxergar como seu comportamento soa inapropriado, ainda mais, pois sua própria cegueira em relação a seu estado de natureza as impede de ver as coisas “de fora”. Elas nunca poderão ver como é ridículo chutar e esmurrar paredes em um momento de raiva; buzinar e bufar de forma violenta no trânsito; gritar para se fazer ouvir; deixar o sangue subir por uma coisa tão pequena.
Lembrando que ser um adulto mimado não tem nada a ver com cultivar ou não cultivar um “lado criança”. O lado criança é aquele que lambe a tampa do iogurte, se equilibra no meio-fio da calçada, raspa a panela do brigadeiro – ou que simplesmente se permite a leveza de descontrair-se no cotidiano, sem que isso implique em reações emocionais na lida com os outros. Comportamento infantil é não saber lidar com as frustrações e responsabilidades inevitáveis da vida e se utilizar de muletas emocionais, explosões temperamentais e formas de expressão totalmente inadequadas a um adulto (que deveria ser) maduro, engessando a qualidade de suas relações e comprometendo o crescimento que poderia advir delas.
Duro é que, dificilmente, um adulto mimado lerá esse texto ou se dará conta que é um, a partir dessas palavras. Aliás, nem mesmo seus pais, responsáveis em parte por tal condição, verão em seus filhos um problema de dislexia emocional que precisa de correção. Quem chegará a essa leitura será quem convive com adultos mimados de outras formas, tais como colegas, amigos, parentes ou conhecidos. Pessoas que começaram a dizer “não” e perceberam que a frustração alheia não condizia, exatamente, com o adulto (em idade) em questão. Pessoas que sentem culpa, por se acharem responsáveis por mágoas e ofensas causadas a outros, devido à alta carga emocional que obtiveram como resposta. Pessoas que resolveram sair da zona de conforto e encontraram resistência da pior forma e em quem menos esperavam. Que começaram a namorar um príncipe e, de repente, ele se mostrou um sapo. Sim, são esses os leitores.
A nós, que podemos lidar com um adulto mimado a qualquer momento, resta-nos vigiar nossas próprias atitudes. O que falamos, como falamos; quando agimos e quando re-agimos; observar se nossa ação é justificada ou se se impulsiona apenas a partir da ação do outro. Se raciocinamos antes de dizer ou fazer algo, ou o fazemos de modo emocional; se acusamos o egoísmo do outro partindo do não atendimento de nossos próprios interesses; se relegamos a ele(a) aquilo que é de nossa própria responsabilidade. Se continuamos nos magoando, chateando, ofendendo com os “não” escutados. Se atribuímos nossos sentimentos a como o outro disse, fez, conduziu algo. Se, em alguma situação, o orgulho extrapolou o bom senso.
Vigiemos, sob pena de termos nosso dedo estendido justamente para o espelho. É só refletindo e fazendo de cada palavra e ato um gesto racional que seremos adultos de verdade, maduros, saudáveis e preparados para atuar de cabeça fria em qualquer circunstância, com qualquer pessoa. Mimada ou não. ■ 

0 comentários :

Postar um comentário