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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Inviolável


Estava lá, sentada, abraçada aos joelhos. O jeans rasgado lhe conferindo um ar mais jovial, como bem lhe disse um novo amigo sobre a primeira impressão que tivera dela. Havia um código de barras em seus braços. E outros números e barras em sua nuca, sua testa. Havia vendas em seus olhos, amarras em suas mãos. Havia também uma mordaça em sua boca.
Tudo nela já havia sido violado. O que tinha de bom, de ruim, de fácil ou não. Sentia-se esvaziada. Pode alguém ser inviolável?, pensou. Só se sentia assim dentro da sua concha. Mas, não era um lugar que conseguia ir com frequência. Acontecia independente dela, apesar dela. E o que, nela, estava tão violado assim?
Seu passado. Passado que o medo trazia.
Sua mágoa. Mágoa que as palavras obrigavam a encarar.
Sua fragilidade. Fragilidade negada, erradicada diariamente, fingindo ser... inviolável. Mas, não era. Sentia-se vulnerável, com receios, com olhos molhados. Chorava até dormir. Violou seus segredos, embora eles continuassem secretos. E lembrava bem de todas as vezes que se sentiu daquele jeito. Não queria... Mas, quem tem controle sobre como se sente? Aliás, existem formas erradas de pensar e sentir? Ou existem formas violadas?
Estava frio e seu moletom branco não a aquecia. Ela não se importava. O calor da luta dentro dela a fazia esquecer a temperatura lá fora. Estava cansada de sentir culpa. Se cansara de dedos apontados. Ela não escolhera se sentir assim. Apenas sentia.
Números e códigos em seus cabelos.
Pensavam por ela.
Números e códigos em suas costas.
Aceite, é assim.
Nenhuma mão entrelaçada à sua.
Você está errada!
Todas as vozes a violando dentro.
Você está sozinha!
Cada sentença é um dedo apontado.
Só, só, só – sua mente bate mais que a testa contra a parede. Você nunca vai pensar por si mesma, você está violada!
Pare de chorar – não é inviolável, ninguém falou que era.
Não olhe assim – eu não vou proteger você.

Ela não é quem pensa que é.
Nunca vai ser quem pensa que vai.

Tudo está lhe dizendo isso: ninguém é inviolável. Nós nascemos violados e morremos violadores. Não tente tirar isso daí, pode preservar sua sanidade violada.

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