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Reflexões, citações, crônicas e extrações sobre filosofia, literatura, espiritualidade, emoções, percepções e sentimentos, e um plus para tudo o que vier na mente.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Momentos com estranhos


Quem nunca? Não conhece, nunca viu, e vive algo inesquecível com a pessoa? Ou é uma coisa que ela te faz. Ou algo que ela te diz. É isso o que mais me fascina no contato humano. Essas espontaneidades e desvarios, quase impossibilidades no mundo louco que vivemos.
Hoje tive meu “momento jackass”. Um mineiro arretado que conheci apenas ontem fazendo um freela de fotografia na universidade. Me tirou pra psicóloga, me contou a vida, porém não havia lembrado de perguntar o meu nome. Hoje, dia corrido, muito aluno novo para fotografar, nem o vi direito. Mas, ao fim do expediente, havia um carrinho de supermercado no corredor do prédio, esperando para levar algum material de informática pelas rampas acima, enquanto as ilhas de matrículas eram desmontadas. Assim que me desarmo da câmera, ele me cerca com o carrinho.
- Entra nesse carrinho para eu te empurrar pelo corredor.
Olhei pra ele com vontade de rir. Descrédito e dúvida, claro, no semblante.
- Entra. To com muita vontade de fazer isso.
Ele segurou o carrinho e entrei. Sentei como fazia quando tinha uns quatro anos e começamos a aventura. Foi engraçado, porque tinha uma pequena plateia, formada pelos colegas de serviço nas matrículas dos bixos. E foi muuuiiito legal...! Quem diria, um cara que nunca vi na vida me empurrando em um carrinho de supermercado no corredor do prédio da universidade...?! Quando fez a curva, ele girou depressa, tipo brinquedo de parque de diversões.
- Só não gostei que na segunda curva não teve emoção – reclamei quando terminamos a excursão.
- É que tive medo pela janela – ele debochou.
E depois fiquei lembrando de outros momentos incríveis que tive com estranhos, mas que, muitas vezes, significaram tanto, a valer mil vezes mais que outras coisas vividas! Como na prova da autoescola em que reprovei e uma mulher mais atrás na calçada me chamou, perguntando se eu tinha passado.
- Não foi dessa vez – eu disse.
- Eu também não... – ela falou e encheu o olho d’água. Mas, as lágrimas dela não eram pela prova perdida. Desabafou ali mesmo, que no dia anterior havia recebido diagnóstico de câncer de mama. Começou a me contar tudo, no meio da rua, e chorava... Não sabia se conseguiria fazer a prova de novo... Preocupava-se com a filhinha... E eu ali, uma estranha, perdida, abraçando a desconhecida na calçada, a me molhar os ombros, e só dizia...
- Meu anjo, calma... Está tudo bem...
No fim, peguei o telefone dela e encontrei-lhe na semana seguinte, para presentear-lhe com um livro específico. Após, perdemos contato.
Outra vez, um senhor bem idoso sentou ao meu lado no ônibus. Eu adoro conversar com idosos, principalmente se eles são lúcidos. E este era muito. Nem me lembro como chegamos ao assunto “amor”. Lembro que ele falou de sua esposa com tal admiração, com tal enlevo, que eu acho até hoje que qualquer homem que consiga chegar à idade dele e ter amado um pouquinho daquele jeito já poderia ser considerado feliz. Ele contou como se conheceram, as dificuldades, as lutas, os sonhos... Falou da guerra, do passado, dos segredos... Lembro que encerrou dizendo sobre ela, que era professora de piano:
- Até hoje, às vezes, eu a espio tocando, sem ela perceber. Eu nunca perdi o encanto de admirá-la em segredo.
Que liiiindoooo... Aquilo me marcou tão definitivamente! Lembro que tudo o que ele falou aquele dia foi extremamente sábio e, embora eu soubesse que não lembraria exatamente o que conversamos, eu lembraria dele, de seus olhos azuis cinzentos. Por aqueles breves instantes eu viajei nas histórias daquele senhor, talvez o idoso mais interessante que já conheci.
Teve também o cara no banco. Um cara parecido com o Luís Fernando Guimarães. Sentamos lado a lado aguardando nossas senhas, e era um daqueles dias que tem 50 pessoas na sua frente. Eu estava com um livro, ele estava com outro. Ele tentava espiar o meu livro enquanto manejava alguns cheques na mão. Observei o olhão comprido. Ok, eu também estava curiosa sobre o livro dele, mas procurei ficar na leitura. Depois de uns dois ou três minutos, ele não resistiu e fechou o dele.
- O que você está lendo?
Era Vigiar e Punir, do Michel Foucault.
- Foucault? – mostrou-se surpreso. – Geralmente as meninas da sua idade (sic!) leem coisas menos sérias.
Eu dei-lhe uma breve explicação daquela minha leitura naquele momento e aproveitei para espiar o livro dele. Era “Toda Poesia”, de Paulo Leminski. Explicou-me que estava brigado com a esposa e procurava se inspirar para fazer alguma coisa para agradá-la.
- Singular – eu disse. E conversamos até nossas senhas serem chamadas – a dele primeiro, acho. No fim das contas... trocamos os livros (e eu espero, sinceramente, que ele não tenha vigiado e punido a mulher).
E, claro, teria de finalizar com o menino do sebo. Quando eu trabalhava em um sebo alguns dias por semana, em 2012, em uma tarde de sexta-feira chuvosa, entrou lá um garoto e seu par curioso de olhos azuis. A beleza dele atraiu instantaneamente, mas logo não passaria de um detalhe dada a sua personalidade. Ele estava procurando um livro específico – já não lembro qual, - e, por alguma razão, desandamos a gastar a tarde chuvosa em uma deliciosa conversa. Ele fazia que ia embora, mas alegava esperar diminuir a chuva e ia ficando... Não tinha movimento no sebo e ficamos falando, falando... apenas QUATRO LONGAS HORAS! E falávamos... e chovia... falávamos... e chovia. Falamos sobre livros também, mas logo, sobre nossas vidas. Ele tinha 23 anos e um filho de seis. Contou do “vacilo”. Namoro de escola, amo meu filho, mas... Nunca mais soube daquele estranho, cujo nome, se perguntei, já não lembro mais. Mas não esqueci aquela tarde chuvosa.
Nem o porre na praia, em pleno Natal, cheio de amigos, e um estranho, que chorou comigo que havia perdido seu filho recém-nascido. A garotinha de 7 anos falante, que me acompanhou na roda gigante e ficou fazendo perguntas – espertíssima. O olhar na secretaria da escola, que troquei com uma mãe de trajes negros, que vinha fortemente cancelar a matrícula de seu filho. Ou a senhora que esperava eu terminar de atender o cliente, mas só queria ser atendida por mim, só por mim. Ah, estranhos, todos eles!

E como são interessantes as histórias das pessoas... Como há elementos belos em cada uma delas... Acho que a coisa mais bonita é isso. O espírito humano. Sei lá se essas pessoas lembram de mim e, quer saber? Nem importa. O legal da vida é esse movimento, essa dança, onde um simples transeunte se torna um momento, um aprendizado... Será que só eu sou abençoada por viver coisas assim? Porque é realmente boa a sensação de voar em carrinhos de supermercado, confiando totalmente... em um estranho

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